Monday, July 31, 2006

Bibliofilias

A sedução da palavra em Adília Lopes: a repetição, o ténue desvio de sentido, o jogo de palavras infantis.
A melopeia popular. Gostamos de Adília Lopes.
Adília faz bem à língua portuguesa:

"Tanto
a lamentar

E tanto
que andar

Tanto
que chorar

E tanto
a fazer

O a fazer
desfaz-se

Desfaz-se
a face

Folhas
de alface"

Adília Lopes, in Poemas Novos, 2004 (& etc).

Sunday, July 30, 2006

Palavras de Cotrim

O blogue.



Num universo social pontuado pelo esboroar dos referenciais de identificação totalitários e maximalistas de outrora, o blogue emerge enquanto espaço de criação e confecção do "eu".

Um espaço de recreação e ensaio de um projecto alternativo de existência - um "online self", como designam os estudiosos contemporâneos do tema.

O blogue representa, quase sempre, um espaço de mediação entre aquilo o seu autor faz e aquilo que gostaria de fazer; entre aquilo que é e aquilo que gostaria de ser.

Reside aqui o hipotético fascínio pelos blogues e pelas possibilidades que estes apresentam.

Uma operação de pantomina e "bricolage", portanto.

Wednesday, July 26, 2006

Palavras de Cotrim

A espera.

Esperar é um comportamento ingrato. Ninguém, a não ser quem espera e aquele por quem se espera, compreende o seu sentido. Esperar não produz resultado tangível. Dá trabalho, mas não gera coisa alguma. Espera-se, esperando.

Conhecemos a "espera" de modo pungente e particularmente dramático. Como tudo o que ocorre na ante-câmara da "idade do armário", a pré-puberdade.
Ocorreu na instituição de ensino que era por nós frequentada, e que satisfazia, na altura, pueris necessidades de compreensão do mundo.

Certo dia, fomos abordados por alguns jovens irados, que, certamente sabedores da posse de verbo tosco e lustrosa musculatura, nos prometeram uma "espera". Era a nossa primeira "espera". A ambivalência despoletou, prontamente, incontida resposta ansiosa.
O resultado da iniciativa destes jovens é inenarrável: recalcamento e consolidação de sentimento de inferioridade. O divã aguarda-nos. Soezes insultos foram pronunciados. Indecifráveis, contudo. Os jovens espartanos e irados não possuíam dentição completa.

Percebemos aí, contudo, que a "espera" não era, de todo, fenómeno desejável.

Com o evoluir do tempo, a nossa visão da "espera" sofreu uma substantiva modificação.
Em particular, devido ao contexto onde a mesma tomava forma.
Começámos a apreciar a "espera" em locais democráticos. Cafés. Microcosmos de gente aos quais se pode aceder por meia dúzia de réis.

Como Luís Fernandes, o banalogista, aprendemos, por insistência, a apreciar a "espera" em cafés.
Luís Fernandes aprecia, contudo, um produto subalterno da "espera" em cafés - o atraso daquele por quem se espera:

"Uma das coisas que faço assiduamente é esperar por alguém no café. Repito ciclicamente este momento de espera. Creio que às vezes venho já só para esperar - e todo o encanto se vai mal chegam (...). Adoro desculpas pelos atrasos. Os atrasos são essenciais ao meu existir: permitem-me esperar nos cafés, o que para mim começa já a ser um acto separado de qualquer outro objectivo.
Enquanto espero, acho que alguma coisa vai acontecer a seguir - e é tão bom. Esperar por alguém é o melhor modo de estar sozinho: parece sempre que é por pouco tempo. É bom sabermos alguém na linha do horizonte. E é confortante sabermos que esse alguém se nos destina. Por isso gosto muito dos que se atrasam. Conheço vários, todos acumulados na linha do horizonte, perfilados como hipóteses de vinda".

Há que confiar na apreciação de um especialista em Banalogia.
Encetaremos diligências, de modo que alguém esteja, já daqui a pouco, à nossa espera.

(Nota: o excerto apresentado figura na página 14 da "Escrita perecível" de Luís Fernandes)

Sunday, July 23, 2006

Tautologia no gira-discos: # 02

A nossa introdução no universo musical fez-se pela audição dos inauditos Queijinhos Frescos. A melodia apresentava-se casta, previsível e respeitável. Boa para o entretenimento familiar de um domingo à tarde.
Seguiram-se pífios cursos de Orgão Mágico, uma respeitável credenda da autoria de Eurico Cebolo. Uma instituição nacional - convenientemente fossilizada.
A proficiência sugerida por Cebolo tropeçou num nível de motricidade fina que não permitia o ágil dedilhar do Casio de 4 oitavas.

Estávamos na segunda metade dos anos de 1980.
Por esta altura, a 8 horas de distância do local onde esperava ansiosamente pelo término de mais um calvário didáctico, em torno das claves de sol de Cebolo, fazia-se história em Chicago, Detroit e Nova Iorque.
Uma nova estética musical era desenvolvida. Uma linguagem underground, circular, intencionalmente redundante.
A actualização do universo boogie e disco dos anos 70.
Nascia a estética House.

Ron Hardy, Larry Heard, Marshall Jefferson, Farley Jackmaster Funk, Ron Trent, Chez Damier, Derrick May e Kerri Chandler foram alguns dos escultores primordiais. O ineditismo corporizado por editoras como a Trax Records, a Prescription Records, a Transmat ou a Nu Groove Records figura já nos compêndios da história.

As coordenadas legadas por este universo underground primordial continuam vivas e actuantes.
São consistentemente interrogadas e renovadas.
Há que ouvir o efeito destas rodelas de vinil a rodopiar.
"Can someone turn on the strobe lights?":

Dennis Ferrer & Jerome Sydenham - Timbuktu (Âme version) (Ibadan Recordings promo)
Marcelino Galan - House and Art (Charles Webster version) (House & Cafe Recordings promo)

Ben Westbeech - So Good Today (Osunlade version) (Brownswood Recordings #002)
Nick Holder - Erotic Illusions (Pokerflat Recordings #075)
Atjazz - For Real EP (Innervisions Recordings #007)
Booka Shade - In White Rooms (Mexico version) (Get Physical Recordings #050)

Saturday, July 22, 2006

Self-disclosure

Foto: Jurgen Lauke

Há em mim, em estado vil e incandescente, uma assim-impura necessidade de denúncia.

Da apatia.
Da agonia.
Da volúpia.
Da mediocridade.
Frívola vulgaridade.

Felicidade.

Necessidade de claridade-humanidade.
Um retorno.
Epifenómeno: suspiro de efémera clarividência.

Do social, espectro de dissenso fractal.

Felicidade é sempre não saber.

It`s a outlier!

Ricardo Araújo Pereira é guionista, e cultor de escrita miscigenada.

Analisa o útil e o fútil; o urbano e o paroquial; o mundano e o erudito; o pícaro, o opaco e o banal.

É, neste sentido, um “boundary crosser”. Sem altivez de pretenso intelectual.

Em textos recentes confirma a largura da sua análise social, efectuando, primeiro, um reparo crítico ao meneio de nádega da cançonetista Ana Malhoa, para, de seguida, comentar a `verve` do analista político José Pacheco Pereira.

Para Ricardo Araújo Pereira, existem, neste preciso momento, poucas coisas mais urgentes do que visitar o sítio oficial de Ana Malhoa:

Há várias representações de nádegas na história da arte, desde a esteatopigia da Vénus paleolítica até às Três Graças, de Rubens. Porém, nenhum artista teve a ousadia de representar o rabo como Ana Malhoa.
Refiro-me, especialmente, à fotografia em que, de fato-de-banho e saltos altos, a cantora exibe o rabo agarrada a duas cadeiras, enquanto dirige ao espectador um olhar desconfiado por cima do ombro.
Uma observação cuidada do rabo (e eu fi-la) revela uma faixa branca, não crestada pelo Sol, na base das nádegas. Essa faixa láctea é todo um manifesto. Como se, por intermédio do rabo, Malhoa nos dissesse: `Possuo umas nádegas tão fartas que até o Sol tem dificuldade em tisná-las todas`.
Quantas mensagens há, por essa Internet, mais interessantes do que esta?


Em texto seguinte, Ricardo Araújo Pereira assimila a figura de José Pacheco Pereira, reputado e reconhecível analista político nacional, aos semideuses que Álvaro de Campos descreve no seu “Poema em Linha Recta”:

“[José Pacheco Pereira] Nunca levou porrada, nunca foi ridículo, nunca fez vergonhas financeiras.
O Pacheco Pereira não se espanta, não se aleija, não tropeça, não duvida, não hesita, não ri.
O Pacheco Pereira não faz um gesto que não o enobreça, não tem um prazer que não o edifique, não cede a um vício que não seja, vendo bem, uma virtude.
O Pacheco Pereira nunca escreve com as mãos sujas.
O Pacheco Pereira é um homem carregado de sentido.
O Pacheco Pereira cheira magnificamente da boca.
O Pacheco Pereira nu é belíssimo (...).
De manhã, à hora a que a generalidade dos homens está a fazer a barba, o Pacheco Pereira está a pendurar poemas no blogue.
E pendura-os com a mesma burocracia nos gestos com que os outros homens fazem a barba.
Os homens não fazem comentários à barba e o Pacheco Pereira também não comenta os poemas.
Os homens não se emocionam com a cara escanhoada e o Pacheco Pereira também não se emociona com os versos.
Deus livre o Pacheco Pereira de ser tomado por uma das emoções humanas.
O Pacheco Pereira exibe poemas como aqueles senhores, na rua, exibem os genitais.
Abre a gabardina e mostra um soneto.

Baixa as calças e revela uma ode”.

A escrita de Ricardo Araújo Pereira resgata sorrisos honestos em vários tipos de personagem social. O neo-burguês. O proletário. O Vasco Pulido Valente (que constitui um conjunto singular). O herói de província. O ígnaro empresário industrial.

Ricardo Araújo Pereira é, assim, um `outlier`.

(Nota: Os textos aqui parcialmente apresentados, encontram-se em versão integral no blogue do colectivo “Gato Fedorento”).

Friday, July 21, 2006

Bibliofilias

Ítaca (ou Acerca da importância da experiência do trajecto).

Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na Viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

Ítaca deu-te uma viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido
”.

Constatinos Cavafy, in Poesias Completas.

Wednesday, July 19, 2006

Palavras de Cotrim

O intelectual.

Luís Fernandes, cronista portuense e um dos pioneiros da Banalogia portuguesa, fala-nos amiúde de um género social, várias vezes enunciado no espaço da palavra pública, mas nunca convenientemente escrutinado no seu conteúdo: o intelectual.
No contexto da sua Escrita Perecível (Edições Afrontamento, p. 52), vem preencher, em definitivo, a lacuna analítica até agora existente, apresentando-nos um intrincado gradiente da conduta intelectual:

O pequeno intelectual rebola-se no grande intelectual, tinge-se com as tintas com que este pinta o mundo – enseba-se nele. Devora-o e come-o, roendo-lhe os livros e os artigos. Serve-o, já deglutido, em pequenas postas na conversa erudita, com o que consegue criar admiração no intelectual mais pequeno do que ele – o pequeníssimo. Caracteriza o pequeníssimo intelectual o facto de passar a admirar o pequeno, que lhe serviu a refeição regurgitada, em vez de dirigir o seu ímpeto conhecedor ao grande intelectual, que é a fonte e não o empregado de mesa.
Prosseguindo, falaria agora do intelectual muitíssimo pequeníssimo, que só aspira a que o convidem para tertúlias dirigidas pelo pequeno intelectual. O pretexto da tertúlia, esse, já sabemos – é o grande intelectual.
Foi por isso que Sócrates bebeu cicuta e outro grego, cujo nome não recordo mas hei-de perguntar a um intelectual, vazou os olhos, e outro ainda foi viver para dentro de uma pipa
”.

It`s a outlier!

Gonçalo Cadilhe situa-se na exígua galeria dos escritores-viajantes.
É um digno aspirante a Bruce Chatwin português.

Na badana do seu Planisfério Pessoal (Oficina do Livro), apresenta-nos a sua perspectiva da (sua) produção literária:

Ao longo de uma deliciosa carreira que não o levou ainda a lado nenhum, para sua grande felicidade, excepto aos lugares mais remotos do planeta, continua a guiar a sua actividade literária pelo princípio sagrado de escrever para comer”.

Há que ler, pois, algumas badanas. Trata-se de papel excedentário onde o autor deposita, por vezes, informação deveras relevante – contudo, o que se observa na generalidade das badanas, cinge-se a previsíveis e verborreicos afagos do ego.
Inspirado pela escalada ao cume do monte Chacaltaya (Bolívia), a 5400 metros de altitude, Gonçalo Cadilhe lega-nos prosa expressiva sobre o sentido da noção “Qualidade de vida”:

Qualidade de vida não é o todo-terreno para o engarrafamento matinal cinco dias por semana, nem poupar no preço daquilo que se come, para se gastar naquilo que se mostra. Qualidade de vida não são os quatros apelidos e três nomes próprios do filho varão, nem a lista de espera de dois anos para a creche, nem o T1 de luxo entrincheirado no horror paisagístico que caracteriza a periferia portuguesa em geral. Qualidade de vida não é a música que bate na cabeça no sábado à noite, a amena cavaqueira com o copinho de uísque na mão, o livro que não se lê, a decisão que não se toma.
Qualidade de vida é ter um sonho e viver por ele, é fazer como o alpinista João Garcia, que é português, mas de uma raça antiga, que se vai diluindo sem apelo nem antídoto nas compras de um domingo à tarde
”.

No contexto do universo social de hoje, homologado e ultra-pasteurizado, Gonçalo Cadilhe faz-nos sentir melhor.

Palavras de Cotrim

Economia baseada no conhecimento.

Em tempo de canícula, gosto particularmente de apreciar as “gordas”.
Ou melhor, em tempo de severa canícula, o que gosto mesmo é de devorar as “gordas”.
As “gordas” são o melhor que os jornais têm para oferecer ao leitor mediano.
Sumarizam, aliviando por breve instante a sensação de ignorância.
Possuem uma vantagem adicional: podem ser lidas a vários metros de distância. De um autocarro em movimento, por exemplo.
Em Lisboa, sinto-me privilegiado – os autocarros que utilizo apresentam-me sempre as “gordas” frescas. Daquele mesmo dia.
Numa das últimas “gordas” por mim devoradas, enalteciam-se modelos de organização económica fomentados pelo conhecimento.
Conceito redondo e pós-fordista. Lê-se bem, portanto, de um autocarro em movimento.


Honestamente, não percebo o alvoroço em torno da formulação.
Conheço-a desde que conheço a minha avó.
A minha avó, analfabeta por ausência de opção, sempre teve grave dificuldade na orientação pelas novidades dos arrumos da mercearia da paróquia.
Tal disposição nunca a impediu de saciar o apetite voraz de meu avô.


Sempre sustentou o lar, adquirindo o que conhecia.

(Nota: Gostava que o Menino Jesus nascesse este ano mais cedo, para poder comer do arroz doce que a minha avó prepara, em celebração da efeméride – se fosse possível, propunha Setembro: a cabra da minha avó dá mais leite nesse mês)

Tuesday, July 18, 2006

Bibliofilias

A lenda dos índios caiapó (Amazónia) sobre a origem das estrelas:

"Antigamente, os índios viviam no céu e nenhum deles conhecia a Terra.
Um dia, alguém descobriu um buraco que se abria sobre a Amazónia.
Tinham descoberto o Paraíso. Os índios entreolharam-se, incrédulos, e, sem hesitar, decidiram dar maior segurança ao seu futuro. Construiram assim uma corda, e começaram a descer. Mas, quando quase todos os geurreiros tinham descido no planeta, um menino traquinas cortou a corda e mais ninguém conseguiu descer à Terra.
Assim, no céu ficaram alguns índios, e as suas fogueiras ainda se notam de noite: são as estrelas."

Aldo lo Curto, in E L´Indio Venne Sulla Terra.

Palavras de Cotrim

A categorização.

Do processo de arrumação mental dos objectos sociais, conhece-se, subjectiva e objectivamente, a importância.
Arrumar é, para o comum dos mortais, tarefa corriqueira. As demarcações suportam o funcionamento viável de parte não despicienda das instituições sociais.
O veterano articularista Alberto Pimenta emerge, neste contexto, como um pródigo arrumador e fazedor de tipologias.
Parafraseando a prosa sábia que de sua pena se verteu sobre o filho-da-puta, Alberto Pimenta faz-nos saber que, desta espécie, existem pelo menos dois tipos: o grande e o pequeno.

Um clássico instantâneo da categorização.

Self-disclosure

Bremen`s Liebe III:

A importância de conhecer a diferença – a diferença majestática, que nos remete, em privado, para um refúgio de plausível familiaridade.

A diferença instila a atenção.
Da estranheza, emerge, certamente, uma procura de sentido – um nexo de regularidade.

A vulnerabilidade.
Querer domar a língua. Como o homem do lixo. A menina do minimercado.

Economia de sobrevivência.
Reconheço o termo “porco” na secção do retalho congelado. Promessa de festim pelo jantar.

Por fim, um momento para mim – I´m just gazing.

Palavras de Cotrim

A heurística.

Em incerto dia, era eu um recém-chegado à idade de menino-Homem, deparei-me com formulações nunca dantes vistas. O tema era exótico, e, portanto, apetecível - a encenação cultural das relações de sexualidade. O verbo afigurava-se, contudo, impenetrável.
Com o fluir do tempo, e o entusiasmo próprio de quem é recém-chegado a parte, até então, incerta, a leitura, inicialmente tortuosa, tornou-se uma mui apetecível fruição de final de noite.
Percebi então: estava perante as minhas primeiras heurísticas.
Reproduzo-as abaixo, com a alegria de quem partilha:

"A sexualidade tem sido objecto, em termos históricos, de uma tripla repressão: a proibição, a condenação ao silêncio, e a eliminação do campo das visibilidades";
"O corpo funciona como lugar de categorização social";
"O acto sexual erotizado representa a experiência da experiência intrapsíquica do outro, a experiência da intenção do outro";
"A heterossexualidade conjugal orientada para a reprodução e centrada na genitalidade é uma construção histórico-social";
"O amor é uma ficção pessoal da intimidade e uma construção social da afectividade e das emoções";
"O corpo é um objecto social. É, por excelência,um objecto de troca e de consumo. Nos termos de Jean Baudrillard, é o mais belo objecto de consumo";
"O amor passional: antecipação fantasiada de gratificações ilimitadas, conjunto heteróclito de emoções positivas e negativas, carácter efémero e vulnerável, idealização de se ser amado".
"A existência de sexos diferentes implica uma selecçãoevolutiva no sentido da anisogamia, de uma distribuição bimodal dos gâmetas; os machos, detentores de matéria germinal potencialmente ilimitada, teriam o interesse em adoptar uma estratégia poligâmica, fecundando o maior número possível de fêmeas";
"A conjugação amor/sexo é uma das possíveis soluções sócio-culturais para o problema da articulação entre reprodução biológica e vinculação social";
"O amor romântico constitui um casoexemplar de construção social de emoções";
"A emoção deve ser compreendida enquanto papel social transitório".

Como refere Sophia, a partir de então, a minha solidão viu-se melhor.

(Nota: As formulações apresentadas são parte integrante da dissertação de doutoramento de Valentim Rodrigues Alferes, Encenações e Comportamentos Sexuais, tornada pública pelas sempre credíveis Edições Afrontamento).

Monday, July 17, 2006

Bibliofilias

«Cortaram os trigos. Agora
a minha solidão vê-se melhor»

Sophia de M. Breyner Andresen, in O nome das coisas, 1977

Self-disclosure

Bremen`s Liebe II:

As pessoas viajam para conhecer.
Experiência táctil e material que subalterna figuras de mediação.

Tenho conhecido pessoalmente, sem recurso ao conforto subalterno da mediação.

A pontualidade do homem do lixo. Do carteiro. Do sono. Das noites minguadas na sua duração.
O inglês enunciado amiúde pela menina do minimercado.
O detalhe gótico da pedra monumental.
A vivência cosmopolita da “Marktplatz”.
Os hábitos de banho nudista no campus universitário.
Os panados de batata que nutriram, no decurso da história, os estômagos empobrecidos de Bremen.
Os múltiplos espectáculos de adoração da nua carne das pessoas.
A pilosidade libertina.
A importância da adaptação. “Cross-cultural”, entenda-se.

Da necessidade de diversificar hábitos de ruminação, Aaron Cohen, funcionalista israelita, devoto dos assuntos dedicados ao comprometimento com o trabalho, aconselha-me: “Fruit? It`s too expensive. Why bother? Just leave the [your] culture…”
O abandono voluntário do que é, para o sistema perceptivo treinado e condicionado, rotina ou padrão reconhecível.

Aaron Cohen só lecciona muito fatigado. Pelo fim do dia. Para se identificar com a saturação impertinente dos seus pupilos.

Diariamente, assiste-se apenas a seis horas de escuridão profunda. A epiderme e o espírito ressentir-se-ão, certamente, em conformidade.

Entretenimento iterativo:
Michael Jackson, em tempos de negritude e prazeres vinílicos.
A escrita perecível do cronista Luís Fernandes, advogado das máquinas neolíticas.
Informação norte-americana, enxuta (não há tempo americano que se possa perder).
Debates francófonos sobre a utilidade actual da actuação sindical (há, portanto, tempo de antena que ainda se pode perder).
O assento da bicicleta.
Comunicações, em número sempre insuficiente, com o torrão natal – o desejo de nadar (desejo de evasão, em translação metafórica) mendiga atenção.

Entreter não é premissa, propósito ou objectivo. Quando se entretém, nada ou pouco se tem.

Tautologia no gira-discos: # 01

Num gira-discos de onde já se celebrizou a voz de Alfredo Marceneiro e as linhas harmónicas do rock sinfónico, rodopiam agora estruturas rítmicas tautológicas.
Soulfood dos tempos de hoje; um Otis Redding actualizado.
Uma opção estética pessoalíssima, como é óbvio.
Há que ouvir o efeito destas rodelas de vinil a rodopiar:

Vincenzo - Time out (Dessous Recordings #063)
John Tejada - The end of it all (Palette Recordings #039)
Ed Davenport - Yanderling (Gumption Recordings #001)
Argy - La Pasion EP(Pokerflat Recordings #074)
Cruz - Cougas EP (Floppy Funk #007)
Sieg Uber Die Sonne - Sovjet Supreme (Cynosure Recordings #016)

Bibliofilias

Acerca do itinerário de um starjammer.
A novidade demarca. É fugidia - há que a proceder a readaptações.
Comuns a piagetianos e aos responsáveis pelo desenho do orçamento do Estado-nação da República Portuguesa:

«Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar. (...)
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!».

José de Almada Negreiros, in Confidências, s/d

Self-disclosure

Bremen`s Liebe I:

Em Delmenhorst. Sito Rua August-Himlisch. Noroeste empobrecido de uma Alemanha politicamente reconstruída.

Uma bicicleta, da idade de Goethe. Creio que terei partilhado o veículo com o pensador, a julgar pela sua têmpera e dispositivo de funcionamento.

Uma conversa com Bernd Hassler, esforçado anfitrião, professor-fazedor de maquinaria e outras quimeras, num assim enquadrado “rusty english”. Após moroso trajecto ferroviário que, através de Colónia, Düsseldorf, Dortmund e Essen, me trouxe à prosperidade hanseática de Bremen. Com direito a reclamação, para moralizar o utente. E a epopeia burocrática de Weber.

Andar de bicicleta sempre me fez aproximar de uma improvável condição de tranquilidade. Um ponto de encontro com o propósito de se existir. Com um passado de substância amorfa e bolorenta. O cão abandonado que nos consome e persegue.

A resolução poderá residir no pedalar.
Não foi o caso. A pedaleira é desproporcional, em relação ao estado anímico.

Promessa de anemia: Leite e biscoitos fazem de refeição. Obstipação à vista.

O silêncio, germânico na nosografia, é, por vezes, ensurdecedor.
Do leito materno, instrução relevante: “Há que escrever no silêncio, rasgando-o com o ruído das palavras escritas”. Uma construção pessoalíssima. Como a de Ézio, brasileiro septuagenário, no aeroporto de Colónia: “Sociologia do trabalho, minha nossa! Eu estudei cultura clássica, todo o grego antigo”.

Ricardo Martins, a epítome do sucesso português (hoje, de luvas defendido), elabora resposta hertziana escorreita, prontamente traduzida para o ouvido americano médio: “Temos de fazer melhor”.
Urros de contentamento. No momento, é uma formulação oscarizável.
É dita em português. O idioma há pouco utilizado por Judite de Sousa, em serviço informativo, de conteúdo temporalmente desfasado, mas noticioso.

Conteúdo bafiento na secção internacional da televisão pública portuguesa. Gastronomia, folclore e futebol: cheiro a Estado Novo. Para quando uma sintonização com a velocidade do rodar do mundo?

Regozijo, porém, na poltrona: nunca a visão de um dançar dos Açores me tinha induzido comoção.

A palavra escrita é, doravante, de homenagem.
Ao mimo. Aos avisos de desperdício de “talento”: “O que tenho escrito em verso e em prosa representa pouco, bem o sei, neste meio tão exigente e português – um grilo que tem fome de elefante”.
Conforto incomensurável: “Não serás ainda o elefante, mas também já não serás o grilo no teu regresso”.

Vontade de andar de bicicleta, acomodar Goethe no assento de cabedal, e domesticar o gigantismo inicialmente diagnosticado da pedaleira.

Starjamming: Um elogio da descoberta

Das experiências que o viver proporciona, há a destacar uma: a aprendizagem.
Desta se dará conta neste sítio.
Tirocínios individuais serão, portanto, aqui apresentados e comentados.
Da indução. Da dedução. Subtracção e abjecção.
Far-se-á uso da palavra, da imagem, do som. Veículos de violência simbólica, pois bem.
Elementos de cultura táctil. Procedimentos analíticos. Artefactos da vida mundana.

Daydreaming?
No, we`re just starjamming.