Wednesday, January 25, 2012

It´s a outlier!

A necessidade de uma explicação a pedir futuro.



pedro
falou há pouco
de um todo terreno
num país de fome antiga

tinha estado a pensar
o pedro
parte catroga
parte cardona
em
pipas e pipas de massa

parece que era isto que faltava

num derretimento
pedro
intelectual doutor
com ligações e títulos diplomas
emulou heróis gente afecta em insondáveis finezas

nada lhe falta de experiência passada

na vitória cita os agravos
simétrico bem vestido
liso rugoso
abre aspas

em pedro tudo se poupa-poupa
nada se deita fora

com pedro devemos intuir felicidade
no crescimento das unhas

Self-disclosure

Dito-dito.



morro por viver
vivo morto
o ar imenso
esqueço ardo

morro por viver
num esmero
de entoação da fala

vivo
ainda por aqui danço
ainda aqui estou por morrer
ainda aqui estou por mirrar

um tubérculo ínfimo
feito das coisas que se permitem

morro por viver
por não saber
o que poderia ter feito mais

acabo sempre por ficar
sempre quase
sempre quase

Tuesday, January 24, 2012

Self-disclosure

Llansol.



o amor ímpar supõe um terceiro
maculado a partir de dois
que vestem
de igual

um, dois
que fazem
um mesmo

sorriso

ter dois em-comum
é um querer substrair-se.

Self-disclosure

Artwork: Outlooked - Os particulares andam na rua (Starjammers, Série "Hei-de encontrar o real")





Entretanto, é preciso renovar uma fome antiga.



dias meses anos

o tempo passa
infértil
para searas

- também eu vou
para resto

Thursday, January 19, 2012

Palavras de Cotrim

Kaos.


No início dos idos de noventa, lembro-me de um dia em que me apercebi, talvez pela primeira vez, por certo numa primeira e ínfima parte, de que massa íntima seria feito. Aproveitei um último benefício concedido pelo empregador de meu pai à sua descendência, e empenhei dois mil e quinhentos escudos, numa Valentim de Carvalho, num cd, dos primeiros os mais sinceros, de um selo certeiro pioneiro, a Kaos Records.

Muito disto soará agora a bafiento anacronismo, mas foi este mesmo particular que também me fez, e ainda hoje me lembro do sobressalto que foi, aquilo que era pouco, tão pouco, eu era aquilo, eu afinal era aquilo. O que aí ouvi serviu de linha de base para o resto todo dançante que ouvi de seguida, e muito pouco foi o que se seguiu que me serviu assim como pele que pareceu ser feita à medida.

Dancei o António Pereira, USL (Dance with me, dance with me, dance with me), Urban Dreams, The Ozone, um certo todo por certo terreno, no verão de noventa e quatro, no escuro mais recôndido, disseram que talvez fosse epilepsia.

O António Cunha da Kaos morreu. Não o conhecia, nem chegou a ser notícia.

Todos muitos querem ouvir o mesmo que os outros andam a ouvir, ouvir o que se ouve,
e de imediato, tomá-lo por conhecido, acessível naquele momento.

O advento digital sublinha a ideia de que o que se ouve, como o que se vê, sente, lê,
não servirá para guardar e partilhar, com a surpresa de quem encontra um código imprevisto,
que não se encontra em voga, bombazine em tempo de apologia de seda, espreitar com espanto o que não é feito para entreter, esquecendo os fulgores efémeros dos heroissempelo.

Falo de uma devoção, um amor em trocos miúdos, dos que não pagam o leite e os pullovers de bico, que satisfaz, outrossim, uma necessidade de coincidência, do que não ouço, do que o mundo comum não me diz.

Tenho o meu cd da Kaos, e com ele irei para a cova. Obrigado, António Cunha.

Tuesday, January 17, 2012

It´s a outlier!

Aquele era um momento importante.


Houve um dia em que ele pensou fundar um instituto, coisa de onde lhe parecia, pelo atendido em redor, que só poderia brotar saúde e dúvidas devidamente reflectidas.

O seu instituto seria uma mesa com vários departamentos, artifício que regularia a acção dos indivíduos, o espírito curioso das populações, no espaço de um horário de abertura prudente, articulado num cartaz que expressaria a sua utilidade efectiva.

Pensou em dotar o instituto de uma porta, mas como no essencial o instituto era uma mesa, e a aparição de uma porta poderia redundar, aos olhos dos passantes entediados, numa desnecessária ideia de luta de classes,
ter uma mesa e uma porta pareceu-lhe excessivo.

O instituto a fundar seria a mesa, ou teria uma porta. A porta abria e fechava, o que poderia conferir dinamismo e um sentido de rotina ao quotidiano que se pretendia povoado no instituto. A mesa, em si, oferecia a possibilidade de dotar o estacionamento de ideias de uma estrutura previsível, invenção que atenderia o propósito de um instituto pujante, reformador, com a vitalidade própria de uma matéria recentemente criada.

Houve um dia em que ele pensou fundar um instituto, e no intervalo do pensamento ouviu um ministro augusto, excelente de competência no preenchimento de formulários, a afiançar, contundente no seu interesse constante, que bom, mesmo bom seria ir ver o mundo, renovando talvez assim a existência em termos amplitude alusiva, isto dito num buffet de carnes frias - o que aclara o rosto a quem assim se propõe dizer o estado alteroso do tempo.

Houve um dia em que para ele se sedimentaram os servos, adiadas as mesas, os sonhos, os departamentos, num quadro de economia aguada, ele teve mais frio do que esperança, a agonia das coisas acabadas.
Nos lábios, três sílabas declinaram o desânimo - foda-se.

Thursday, January 12, 2012

It`s a outlier!

Quando caminho, rezo um terço.

Ele vinha trôpego, no passo próprio de um desiludido com a moralidade vaga
do sistema de classes. Aparentava alguma ansiedade, queria talvez chegar a
alguma parte sem aviso. Fitava o horizonte onde me encontrava,
enquanto tentava acalentar o passo. Ao olhar o multibanco, escorregou no
mosaico ainda sujo do vómito festivo da véspera. Ao reestabelecer-se, acenou,
tendo eu ficado com a sensação de que aquele aceno me era dirigido.
Duas senhoras levantaram-se, rígidas, queixaram-se dos netos, de uma artrose,
sem preocupação de estilo ou metafísica. Ao olhá-lo de novo, ele tinha ganho uma outra cor,
e cumprimentava agora para quem tinha acenado, uma vénia eucarística - Bom ano, bom ano, bom ano.
Pareciam conhecer-se há muito, nas dores que o abraço inteiro não acrescentava.

Isto pode não ter sido nada, mas pareceu-me ter percebido uma insinuação de deus,
- sujeito em que se insiste como explicação, em histórias, apesar da micro-electrónica
e da engenharia de materiais - naquele percurso, a espera, o cumprimento delicado, apesar da
intempérie, em todas as suas feridas.

Palavras de Cotrim

Artwork: Untitled (Kurihara Takuya, n/d)




celeste-cardona.

Cruento insulto que pousa nas dores primárias do povo,
assim se pode dizer uma sorte sem prejuízo que nasceu naturalmente
mesmo e exactamente para isto, sujeito de hábitos que ficam bem em toda a parte.

Friday, January 06, 2012

Self-disclosure

Artwork: Last supper dogs (Tim Roeloffs, n/d)






Someday my time will come.



quem conheces
que te faça falta

escreve-o num papel
pelo tempo que te for preciso



neste exame
não copies

falas de ti
das tuas coisas


tens tempo
vai por partes


nenhuma coisa
se vê toda
juntamente

quando terminares
dobra o papel

duas vezes

para que não te esqueças
que o que realmente interessa

(está lá dentro
lá dentro)

não se vê do lado de fora

Palavras de Cotrim

Inteligência Emocional (uma introdução).



o que ela não diz é tão importante como o que ela diz.

Friday, December 23, 2011

Self-disclosure

2011: A ilusão de preencher o lugar vazio.


Quando os dias se findam em número, as pessoas fecham os olhos, juntam as mãos, cansadas da economia da medicina, nos seus limites de concordância com a expectativa correntia.

No momento do balanço putativo, em que volta a disposição para pôr as contas em dia, importa partilhar o encontrado com mágoa delicada, e neste ver o confronto com a sombra e o lugar vazio, o desconforto do que foi, a generosidade do que ficará, possível reminiscência calorosa que o futuro acalentará nas suas contradições, o melhor filme, o melhor momento, aquela sopa, importará ter lá estado para acreditar, vamos tentar dizer, fazendo uso do mais apto fungo da fala.

Do que em nós gostaríamos que ficasse, damos conta no abaixo listado, registo em número de onze que partilhamos com um sorriso e o mais particular apreço.


1. Feijoada no Escoural, açordas na Bebé.
2. Ela. A correr, a correr, a correr.
3. A primeira meia-maratona, e o sorvete que lhe seguiu.
4. A hipótese de redenção num pacotinho de leite de Rita Blanco.
5. Smallville Records, sempre. E o EP absurdo do Todd Terje na Running Back.
6. Sábados de manhã. Lentos, lentos, lentos.
7. Gin tónico.
8. Kjell Askildsen.
9. Futebol à meia-noite de quinta-feira, um pequeno e inesperado prazer.
10. "Um pouco de morte" de Joaquim Manuel Magalhães, cinco euros nos Aliados, e um panado no Marinheiro de seguida.
11. O riso livre de amigos, vislumbre de humanidade, concreta comunidade posta à margem, no sinistro protagonismo dado a alegóricas abstracções, o mercado, a europa, a banca, mil milhões de euros.

Palavras de Cotrim

Ideograma.


O real, uma mesa larga posta em cena,
é o cuidado posto no lanche que a mãe prepara ao filho,
é o que acontece quando me seguras na testa,
estando eu prestes a vomitar o bacalhau
onde tanto investiste na véspera,
que tanto demorou a demolhar,
a ti, que tens sempre tanta pressa.