Thursday, May 19, 2016

Self-disclosure.

Um grande desígnio (IX).


(ver-te caminhar pela primeira vez, deixa em mim, inesperada, a inconveniência de uma angústia específica. se por um lado, caminhar é sinal que os percentis não estarão avariados, por outro lado, é presságio de uma outra etapa que se inaugura, sem apelo ou possibilidade de regresso. mais chão, menos colo, maior afastamento, distância física. tentando abrir o postigo à lentidão do tempo, ocorreu-me há pouco um final de dia em que fomos para a rua, porque eu estava carente de ver o benfica com o sporting. estive todo o tempo contigo ao colo, em pé, porque não tinha o teu carrinho. lá fomos, ainda assim, ao café. já não havia lugar sentado: nas mesas já se viam duas rodadas de minis. vimos, juntos, muitos azulejos durante o tempo do jogo. bebemos uma água com gás. dividimos o pão que havia. eu em pé, tu ao colo. o jogo, lá ao fundo, garrido, a induzir efeitos nos homens).

Wednesday, May 18, 2016

Self-disclosure.

Um grande desígnio (VIII).



(ontem, fomos levar juntos o lixo à rua. no regresso, dissémos adeus ao contador da luz, brincámos com um ananás, brincámos com o meu umbigo. tu sempre com a mesma atenção compenetrada, verosímil, como se algo de absolutamente decisivo estivesse a acontecer).

Friday, May 13, 2016

Palavras de Cotrim.

Tinder.



No saldanha,
ao almoço,
homens casados comem alheira.

Jogam tinder*,
entusiasmam-se,
enquanto esperam a sobremesa.



* Um jogo on-line que simula uma boite. Joga-se com o polegar, e não há consumo mínimo.

Self-disclosure.


Artwork: "Momsy"
(Starjammers, 2016; Série "Eu hei-de encontrar o real")





Um chuto de bico ao segundo poste.
(Doze meses de Eduarda)



(I)

Imagino-te,
aos dezasseis,
a mergulhar,
de cabeça,
nas piscinas.

Imagino-te,
aos dezasseis,
com vontade de acordar cedo.

Imagino-te,
aos dezasseis,
a sorrir,
com jeito para o futuro.

Imagino-te, 
aos dezasseis,
livre de soberba,
a querer saber 
o que é, de facto,
um protão.

Imagino-te,
aos dezasseis,
com o teu iban,
um fogo esperto,
a dançar o frescobol.

Imagino-te,
aos dezasseis,
a ir aos sítios -
a quiaios,
a odeceixe,
ao baleal,
ao baleal,
ao baleal.

Imagino-te, 
aos dezasseis,
a ler um livro,
segurando-o
com as mãos.



(II)

Imagino-me,
aos cinquenta,
no monte,
com a liana,
a fazer o pino.

Imagino-me,
aos cinquenta,
a ouvir-te dizer alto,
o que um dia
por extenso te disse:
fernando;
assis;
pacheco.

Imagino-me,
aos cinquenta,
a sorrir.

("Capaz de sorrir",
escrevi hoje
no currículo, 
escasso,
tão escasso em saberes úteis:
culinária;
engenharia;
programação)



(III)

Sorrir
foi sempre para mim um esforço, 
saber o que fazer
à cornucópia da fraqueza:

Ser simples.
Ser afável.
Ser manso.
Tentar, no tempo certo, o chuto valente à baliza.



(IV)

Tentei muito o chuto em lugares de nome mítico,
esforçado sempre para que, sem replay,
o chuto parecesse harmonioso, constitutivo, natural.


Um dia*, 
dei um chuto decidido, certo, certíssimo,
um glorioso chuto de bico ao segundo poste.


Sorri hoje, ainda há pouco,
pelo segredo que um dia aprendi,
sentado, suplente,
num pelado do louriçal:

- Se te sentires valente, chuta de bico ao segundo poste.
Não falhas.





* há exactos doze meses, dizem no calendário as quadrículas.


Wednesday, May 11, 2016

It`s an outlier!

Programa eleitoral.


(I)

Porque sabemos: 

que a política a coisa pública

exigem curvaturas,
vilegiatura, recolhimento,
o confronto preparado
longe
de merendários
turísticos,


vamos:

procurar
a justa medida
na repartição dos benefícios,

procurar
a justa medida
na repartição dos sacrifícios,

acabar com os muito pobres
acabar com os muito ricos,

questionar
o prato que é servido
como ração,

pedalar com força,
e apurado sentido de dever.



(II)

Porque:

tudo o que é em si imoderado
possui uma base instável,

e é sabido o gosto
daqueles que
possuem as chaves dos países

por discutir
as portas estreitas
que dão acesso às confrarias, 


não vamos:

esquecer a etimologia.


(III)

Em latim,
ministerium designa o "ofício do servo":

um ministro
é aquele
que se esforça por se tornar o menor de todos, 

é aquele
que se esforça por servir.

Sunday, May 08, 2016

Palavras de Cotrim.

Muito (uma definição breve).



"Muito" é um termo que designa um tipo particular, pouco comum, de dinheiro.

Friday, May 06, 2016

Palavras de Cotrim.

Melhoria contínua.



A "melhoria contínua", difundida no universo empresarial, desde os idos da década de 1980, enquanto norma preferencial de comportamento, define uma configuração ética, um "espírito" que incita o trabalhador a manter, em contínuo, uma condição de envolvimento desperto.

Incutindo um desconforto específico, um sentido de dever difuso, encantatório, a "melhoria" que assim é sugerida como preceito no plano do devir, projecta-se no tempo como necessidade perene, um requisito duradouro, irredutível.

Da difusão oportuna de um espírito de "melhoria contínua", como sucede com outros preceitos de administração "participativa", que visam a qualidade "enxuta" ("lean"), "total", decorre um dispositivo particularmente engenhoso de (re)educação das motivações individuais, ao confrontar os indivíduos com uma "nova" realidade, ambígua, difusa, vaporosa: a necessidade de ter de lidar, no quotidiano, com tarefas que se definem, por natureza e por princípio, como sendo e estando (sempre) inacabadas, abertas, incompletas.

Self-disclosure.

Um grande desígnio (VII).



(houve um dia, em que eu, de saída, visivelmente à rasca, pus em mim o teu creminho, para que fosses, assim, talvez, um pouco mais comigo, quando o comboio passasse em pombal).

Thursday, May 05, 2016

Self-disclosure.

Um grande desígnio (VI).


(no que nos tem sido possível perceber, é muito do teu agrado estar com outros meninos, dar-lhes coisas, pôr o teu dedo num outro nariz. gostas de estar com meninos como tu, com meninos maiores do que tu, com meninos muito maiores do que tu. és uma menina muito dada, assim nos tem sido dito. gostas dos meninos, em particular, quando são muitos. há uns meninos com quem tens experimentado uma relação de especial afinidade. os meninos vermelhos que há nos semáforos. são muitos, de facto, os meninos vermelhos que há nos semáforos. e ficam por ali muito tempo, mesmo quando lhes dizes adeus. nos semáforos, por vezes, há também uns meninos verdes, mas esses têm sempre muita pressa. vão logo embora mal aparecem, e lhes tentas dizer adeus).

Tuesday, May 03, 2016

It`s an outlier!

Do amor.



Para Roussel* (1988), o amor tende a redundar, de modo aparentemente inevitável, em desapontamento, desencontros, na necessidade de realizar o luto pela erosão de uns quantos primeiros fôlegos de encantamento desmedido.

O amor origina, num primeiro estado nascente, uma divinização dos indivíduos, uma idealização do outro, que é investido da capacidade de satisfazer fantasias de gratificação ilimitada. O amor nascente instala os indivíduos num "mundo novo", num confronto sublimado com a realidade - trata-se de uma condição imaginária, transitória, que só pode originar, para Roussel, frustração, conflito íntimo, nostalgia.

O amor emerge para o indivíduo, neste sentido, como algo de novo, de absolutamente diferente, uma forma de espanto (no sentido primitivo de "relâmpago"), uma possibilidade de subversão do ordenamento íntimo existente, hipótese inicial de colusão, na relação com as referências instituídas.  

A colusão define, em termos fenomenológicos (Laing, 1961), uma das formas típicas de experiência da relação com o outro.

Na colusão, a relação é estabelecida "no" e "com" o outro. Considerando a sua natureza fusional, à colusão podem suceder outros modos de relação com o outro, mais equívocos, que expressam, de algum modo, possibilidades de desencontro: a "ilusão" (a relação é estabelecida "no", mas "sem" o outro); a "desilusão" (a relação é estabelecida "com", mas "sem" o outro); e a "evasão" (a relação é estabelecida "fora" do outro).

Face à ambiguidade que lhe é intrínseca, adjacente, Rilke evocou a experiência amorosa como um dos mais temíveis, árduos, difíceis empreendimentos humanos.

Numa perspectiva fenomenológica, que valoriza o amor enquanto experiência individual, o vivido amoroso define, como Hegel sugeriu nos idos do século XVIII, uma oportunidade, singular e escorregadia, de relação e de conhecimento para os indivíduos, que subitamente se poderão descobrir dotados de profundidades íntimas.

Do amor como forma de conhecimento, como definido por Hegel: um conhecer (de mim), que eu (re)conheço no outro.



* Roussel, L. (1988). La famille incertaine. Paris: Odile Jacob.
* Laing, R.D. (1961). The self and others. London: Tavistock Publication.

Palavras de Cotrim.

Souvenir.



Na baixa de lisboa, havia no início de abril,
cinquenta e duas lojas de lembranças de portugal:

galos de barcelos, camisolas de jogadores futebolistas, 
azulejos com pinturas de hostéis
e de lojas que vendem a três euros o pastel de bacalhau.

Monday, May 02, 2016

Palavras de Cotrim.

Guru.


O indivíduo-guru é, para o indivíduo-cliente do indivíduo-guru, uma figura carismática, excepcional.

Para o indivíduo-cliente do indivíduo-guru, o indivíduo-guru é percebido como detendo um conjunto de dons raros, brilhos mágicos, sobrenaturais.

Perante a incerteza que paira no presente sobre todas as coisas, o indivíduo-guru apresenta os problemas como simples, refere o sucesso como possível, celebra o seu método, entre vírgulas, como retalho de tecnologia reverencial.

Para o indivíduo-guru, o título que o apresenta (guru), é condição, desde o primeiro momento, de afirmação de uma diferença, de uma distância sedutora, que é experimentada de forma mística pelos indivíduos-clientes do indivíduo-guru.

O indivíduo-guru é portador de segredos proprietários, de méritos comerciais. O seu comportamento, em consonância, é, só pode ser, o comportamento típico de um agente detentor de possibilidades de salvação, um repertório de práticas caucionadas pela divindade, a crença dogmática, certezas ditas em modo dolby-surround.

O indivíduo-cliente do indivíduo-guru, apoquentado pelo muito que o incomoda - a necessidade, a incerteza, o seu desconhecimento incapaz - vê o indivíduo-guru, valoroso, a licenciar, a mandatar certezas. Pergunta ao indivíduo-guru se aceita pagamentos a sessenta dias.

O indivíduo-guru refere que sim, que é versado em diferentes práticas de adjudicação. E acrescenta uma última certeza: confirmado o pagamento, irá enviar, à borla, um dvd sobre técnicas de negociação.