Thursday, September 18, 2014

Palavras de Cotrim

Disfarce.

 

Um modo,
disponível a crédito ou em formato de aluguer,
de não ceder à lamentação.

It`s an outlier!

Bahia.

 

Em salvador da bahia,
num jardim da avenida da vitória,
várias crianças em roda
cantam o "atirei ao pau ao gato",
que dizem ser
uma canção de respeito em todo o mundo português.


 

Como explica o guia turístico,
no final de cada visita,
o que parece nem sempre é:


o "atirei ao pau ao gato"
é ensinado às crianças da bahia
como exemplo de agressão racista,
como se o gato fosse o índio,
como se o gato fosse uma vítima.



Wednesday, September 17, 2014

It`s a outlier!

Luzia.


A dona luzia tem oitenta e seis anos, três casas e uma reforma.
Vive num sotão, na pampilhosa, com um gato e um cão.

O filho, antigo fiscal de linhas no alentejo, disse um dia coisas à mãe.
Hoje, arruma carros de juízes e de advogados
no novo tribunal de coimbra.

A filha é secretária na câmara.
Quando pode, vai ao tribunal -
entra pelas traseiras,
cumprimenta o porteiro,
ajeita no soutien
os vinte euros que escondeu do marido.


It`s a outlier!

Joaquim.

 

O senhor joaquim está reformado.
Fazia contabilidades para empresas e particulares.

Vai todas as manhãs para o café,
com uma pasta e uma grande calculadora gráfica.

Lê o diário de coimbra e a bola.

Quando sente saudades,

olha o prédio em frente,
os jeitos de quem passa,

e na calculadora
apura o devido,
em matéria
de contribuição autárquica.

It`s a outlier!

Tarzan Taborda.


No outro dia,
enquanto assistia
a um novo episódio
da disputa dos antónios socialistas,


lembrei-me do tarzan taborda,
que comentava,

com especial fulgor de circunstância,
as lutas combinadas

que davam ao sábado na televisão.

Tuesday, September 09, 2014

Palavras de Cotrim

 Artwork: Yellow (Starjammers, 2014; Série "Eu hei-de encontrar o real")



 
Fogo de artifício.


O que é, não dura - esvai-se depois de se ver.
Porque o que é, é apenas o que se vê*.


 

* Formulação "ready-made" inspirada em Adorno, acerca da experiência social do tempo.

Friday, September 05, 2014

Self-disclosure

Armando.


Havia uma prima que escrevia muito bem, desde nova.

As pessoas liam o que a prima escrevia, e diziam-lhe que sim,
que só lhe faltava um bocadinho de potássio.

Um dia, a prima conheceu o senhor armando,
que, enquanto escolhia o vinho,
lhe perguntou porque não era o brasil apenas metade.

A prima, sem saber o que fazer com a pergunta,
provou o vinho, pensou na sua escrita,
e foi para casa aprender a fazer arroz
e a diluir baldes de tinta plástica.

                           
                                                                                                                   

                                                                                                                                       (para a Lil)

It`s a outlier!

Companhia.

Às onze e trinta, na mesa de sempre, os velhos dos olivais liam à vez as notícias,
trazendo uma chuva morna às colheitas de venda difícil.

Liam em voz alta, arriscando fraquezas de voz num infinito de metafísicas - o duodeno,
os elevadores em luanda, o mar da figueira, as fortunas aneladas, as famílias que têm de vender as pratas, os almoços de sandes quando o resto falta.

Começava a falhar a voz, quando chegou o doutor pavão, aluno de quinzes no antigo anfiteatro das químicas, com uma caixa de pastéis de nata. Com o doutor pavão, o ânimo regressou à mesa (o doutor pavão, dizem, faz sempre uma companhia do caraças).

Às dez para a uma, alguém perguntou pelo sporting. O doutor pavão falou de problemas de corrente alterna, invocando advérbios e verbos com força, veriam isso à tarde.

Voltaram para casa, certos de quem eram, certos de que voltariam, certos de que os esperavam.

Palavras de Cotrim

Pouco.


Parece sempre pouco, o que já se encontra feito.

Palavras de Cotrim

Globalização.


Ao invés de permitir a partilha de variações de sintaxe e modos de vida,
a globalização trouxe muitos servidores e relação pública,
a expansão do gosto e das tendências dominantes,
isto é, a pretendida diversidade deu lugar a uma crescente homogeneização.

Monday, August 25, 2014

Self-disclosure



 Artwork: Âncora (Starjammers, 2014 - Série "Eu hei-de encontrar o real")




Uma árvore muito alta.


Havia uma árvore muito alta,
que era dita amiga de boa sombra
em canções e em segredos.

Havia quem dela guardasse memória,

quem dela não fizesse história,
quem para ela não olhasse duas vezes.

Um dia, veio um homem que aparou a relva e fez
aparecer um muro, uma placa que a dizia importante.

Houve, no dia seguinte, uma inauguração,
vieram senhores esguios, de óculos escuros,

que sorriram com propósito,
e comeram muitas saladas

num pires que lhes sobrava da mão.

Nos dias que se seguiram,

vieram amigos, novos, antigos,
apenas para ver a árvore muito alta,

ao longe agora,
pois havia entretanto o muro

que se dizia feito para a proteger.

Com o tempo, a árvore muito alta, protegida,
foi sendo progressivamente esquecida.

Nas suas alturas menos escondidas
foram aparecendo agrafos, placards de anúncios,

ervas daninhas, asperezas.

Uma vez, um dia, uma mulher foi ver a árvore,

e, lembrada talvez da infância,
saltou o muro e enfiou-se lá dentro.

Ouviu-se uma espécie de fala,

própria das árvores que ficam à espera,
muito altas, ansiando por amigos.

A partir desse dia, os amigos, de visita,

viram que a árvore protegida, muito alta,
foi ficando cada vez mais pequena.

Nas traseiras da casa da mulher cresceu,

pouco tempo depois,
uma árvore muito alta,

onde a mulher anda de baloiço,
depois de fazer arroz doce
e guardar duas notas de cinco para dar aos netos.



                                                                                                          (para a minha mãe)

It`s an outlier!

Julho.


Em Julho,
o que fica são as noites tépidas,
quando os velhos de mangas cavas
se põem a contar as feições lendárias
das suas conquistas antigas.