Friday, December 09, 2016

It`s an outlier!

Beber chá.



Beber chá é bom.
Limpa.

Beber chá é bom.
Mas não anima a praça.

Friday, December 02, 2016

Self-disclosure.

Um grande desígnio (LXX).


(vens por vezes com o bacio para o corredor. olhas em volta. sentas-te e esperas.
esperas como quem espera por um prato de rojões ou de arroz de lampreia.
a este propósito, regressei a freud, no outro dia. fazia anos nesse dia. trinta e sete.
pediste neste dia o bacio. neste dia, no bacio, avistou-se pela primeira vez uma novidade. uma dádiva, diria freud, como os livros dizem que freud dizia. para freud, até aos três anos, a atenção da criança centra-se nos processos de eliminação. quando se inicia o estímulo do uso do bacio, a criança pode expressar aprovação, rebeldia ou agressão, retendo ou libertando a "oferenda", a sua dádiva para o mundo. digo assim que tive de ti uma atenção especial, no meu dia de aniversário).

Palavras de Cotrim.

Liberalismo económico (uma introdução breve).




As pombinhas da catrina andam de mão em mão,
vão parar a quintas novas,
ao pombal do senhor joão.

Por serem as quintas muito estreitas,
e a catrina não ter asas para voar,
as pombinhas andam, andam, andam,
enriquecem quem nos mercados,

sem beira nem patrão,
as consegue apanhar.


Self-disclosure.

Um grande desígnio (LXIX).



(disseste adeus, na terça-feira, ao senhor que seguia do lado de fora do camião do lixo.
o senhor sorriu. disse-te também adeus.

há em ti hoje um entusiasmo, quando passam os camiões do lixo.
talvez seja da sua aparência burlesca, luzidia.
talvez seja dos paramentos fluorescentes dos senhores.
talvez seja dos vincos que surgem no rosto daqueles que se ocupam do (que se diz) que não interessa.

talvez os senhores que seguem nos camiões do lixo sejam os teus primeiros super-heróis.

parecem planar sobre o chão, nas curvas, a grande velocidade. com a boca cheia.
dizem adeus. 
não têm medo.
não têm medo do que os outros já não querem).

Tuesday, November 29, 2016

Self-disclosure.

Um grande desígnio (LXVIII).



(vens por vezes com o bacio para o corredor. sentas-te e esperas.
olhas em volta. esperas como quem espera por um prato de rojões ou de arroz de lampreia).

It`s an outlier!

Saber perguntar.



somos,
por vezes,
muitas vezes,
penúltimos:

na carne no osso, 
nos artifícios do espanto,
da interrogação.

Self-disclosure.

Um grande desígnio (LXVII).



(no dia seguinte ao nascimento da Antónia, dormias já de bandolete, pareceu-me apropriado ir correr até ao alto do bom jesus. para ver o que de lá se via.
eram dez da noite. estavam doze graus. seriam dez quilómetros. uma aflição de névoa.

no início, levava - já o sabia - o corpo o miolo o juízo, moídos. quando começou o pináculo da subida, passaram por mim oito ciclistas, que disseram para eu ir, que aquilo não era nada. eu fui (eu e a dúvida).

comecei a sentir o sangue solto, domando ténue a língua esdrúxula do pensamento. 
o corpo o miolo o juízo, moídos, afinal não eram nada.
comecei a sentir um conforto distendido, uma vontade de dar apertos de mão.
pensei, por momentos, no futuro. o escuro parecia assinalar um segredo, uma distância - reverente, episcopal.

o caminho que importa fica quase sempre longe.
no caminho, sobra, quase sempre, um resto, a mesquinhez do que é possível. 
o corpo o miolo o juízo, moídos, afinal, não são mesmo nada.

na escadaria final, comecei a ver coisas. coisas que não sabia.
a presença activa, erradia, do espírito.
o favor do silêncio inoperante.
uma senhora roliça, um senhor careca,
a dar beijos em francês,
atrás de uma capelinha).

Self-disclosure.

Um grande desígnio (LXVI).



(conheci a mãe há onze anos, com dois rolos de papel higiénico desfiados na cabeça [um dia, quando já beberes cerveja, conto-te a história por inteiro]. neste tempo, a mãe diz que nunca me viu comprar cuecas. é um facto. uso as mesmas oito cuecas tipo trusses há onze anos. têm vindo a pedir sucessão.

constatei na semana passada que, onze anos depois, não é fácil encontrar quem venda cuecas tipo trusses. estou, também aqui, em desencontro com os usos dominantes, correntes. as que existem, e aparentam poder durar pelo menos uma década, custam quase dez euros. é, como dizem os especialistas em assuntos diversos, um investimento. sempre que o assim dito investimento me tenta, ocorrem-me de pronto outros destinos a assumir como prioridade alternativa.

na semana passada, por exemplo, saí decidido a comprar duas, três cuecas.
quando cheguei a casa, trazia fraldas e uma estrelinha de chocolate para te tentar fazer sorrir).

Wednesday, November 16, 2016

Self-disclosure.

Um grande desígnio (LXV).


(já não sei quando começaste

a subir a cadeira,
a pedir o gira-discos,
a apontar o nariz,
a dar a mão no passeio,
a deitar os meninos,
a dizer adeus ao longe,
a pôr o papel no lixo.

tenho aprendido contigo.

contigo tenho experimentado a ignorância,
a sensação de ser especial, significativo, o que te procuro apresentar.

um sinal de trânsito, o cesariny, o pina, uma pata de veado,
o tampo de uma mesa, o fernando assis pacheco,
um disco do frankie knuckles, uma esfregona,
a helena almeida, o billy ocean, amendoins,
um jogador de futebol da distrital.

parece que temos segredos em comum.

o mar da murtinheira. o escoural. o pirolito na piscina.
o vital moreira que pára para te ver. 
a madonna ("you must be my lucky star").
o frescobol.
água das pedras.
comer feijão, milho, ervilhas.
a tua vasilha.

adormeceste um dia com um original que me ocorreu no polibã - "a minha naninha".

("eu faço a minha naninha / eu faço a minha naninha / a minha naninha é pequenina / é pequenina / mas é minha / mas é minha").

vomitaste, como os amigos íntimos fazem, para cima de mim.
sorriste quando um dia te disse, útil, "volfrâmio".
corremos juntos dez quilómetros no seixal.
carreguei-te vezes e vezes, às três da manhã, escada acima, em alfama.
contigo ao colo, eu e a mãe subimos uma montanha em são miguel.
vimos um sporting benfica, eu de pé contigo ao colo, à espera que a mãe chegasse.
comemos uma tosta. o jogo ficou empatado.

corres hoje para mim, quando me vês ao longe.
eu pensava que isso só acontecia nos écrans de televisão.

tens dezoito meses, e agora, uma irmã.
a Antónia. para sempre.

quando a viste em casa pela primeira vez, desapareceste.
voltaste depressa. com uma chupeta.
disse-te um segredo ao ouvido ("obrigado").

escrevo isto, como sempre, para tentar não esquecer.
e, desta vez, também para te agradecer.

tenho experimentado como uma sorte rara (tão rara),
a tua companhia, a atenção que tenho tido. 

já não sei o que era antes de te conhecer).

Self-disclosure.

Um grande desígnio (LXIV).



(entraste há dias, por tua iniciativa, na retrosaria bruxelas.
uma senhora pegou em ti e falou-te, como se conhecessem há vinte anos.
disse que os teus olhos valem dinheiro.
a senhora deverá saber o que diz.
era, como tu, uma senhora arejada, de braga, de são vítor).

Self-disclosure.

Um grande desígnio (LXIII).



(tens demonstrado avanços significativos nos conhecimentos de anatomia.
o pé, a cabeça, o nariz, a orelha, a vasilha.
estás quase pronta para ir fazer o harrison, para ir lá pôr as cruzinhas.
o harrison não sabe onde é, para que serve a vasilha.
a vasilha é uma região de abastança que circunda o umbigo.
serve para um pai pousar a cabeça quando se sente aflito).

Monday, November 14, 2016

Self-disclosure.

Alma.



Talvez a minha alma 
não seja como vem no catecismo.

Talvez seja:

um quarto de brincar,
um coração lá dentro.

Tão perto,
tão lento.