Monday, July 24, 2017

Self-disclosure.

Gelados a sete euros na marina de vilamoura.



Uma vez, comi um gelado na marina de vilamoura.

Naquele tempo, ir à marina de vilamoura era, em si mesmo, um acontecimento, uma actividade que se programava. Havia lá barcos. Ouvia-se falar inglês. Tinha de se escolher a roupa. Chegava-se e depois levava-se o corpo a apontar sabores stracciatella.

Naquele tempo não havia fake news, startups, millennials, problemas com os dias loureiro, com os eucaliptos. Ou melhor, talvez houvesse, mas não se fazia disso notícia.

Praticava-se, como hoje ou no tempo de novecentos, uma preferência nacional:
a defesa intransigente, oligárquica, de uma vantagem adquirida.

Um incêndio era dito, como hoje, tratar-se de algo "inevitável".
As palavras têm o poder oblíquo de fazer acontecer coisas.
Há palavras que trazem dinheiro de longe.

Como não havia ainda likes, comer um gelado era exactamente isso.
Uma pessoa comia um gelado, e, nos dias seguintes, dizia-o:

"No outro dia, fui comer um gelado à marina de vilamoura.
Paguei sete euros por um cone e uma bola com sabor a bolacha maria".

Self-disclosure.

Um grande desígnio (XCIX).




(há imagens que parecem ser instruídas por uma cintilação particular, imorredoura.
ver-te correr. ouvir-te dizer babete. perceber que já usas os bolsos das calças).

Sunday, July 23, 2017

It`s an outlier!

A bíblia do benfica.



Na semana passada comprei um livro.
Um acontecimento raro. Um acontecimento importante.
Pedi uma factura para poder anotar no verso
um fio de voz falante na cabeça.

Aguardava vez para pagamento, quando uma senhora, que também o fazia,
me confidenciou dúvidas sobre o que lhe poderia suceder de seguida.

"É que nunca comprei um livro para mim. Vou sempre à biblioteca".

Nas mãos levava um volume extenso, de aparência cuidada, majestosa. "A bíblia do benfica".

Na capa, um autocolante assinalava, fulgorante, um aparente mérito da obra.
"Contém prefácio do rui costa".


Tuesday, July 18, 2017

It`s an outlier!

Lá, onde a pedra assenta.



as pessoas precisam de cuidados para crescer
as pessoas precisam de cuidados para aliviar a culpa

as pessoas precisam de cuidados para praticar a felicidade





Self-disclosure.

O choro é inconclusivo.



Chorar, na sua bondade química, é uma actividade que goza de elevado prestígio social.

Chorar define uma forma própria de praticar a infelicidade, de acender as frases que são propriamente ditas.

Chorar, diz-se, alivia. É, será talvez das nuvens que o choro traz para a frente dos olhos.

Às vezes, sonho que estou a chorar. Um choro pleno de possibilidades por cumprir.

Acordo, quando deixo de o fazer.

Fico depois por ali, a pensar,
no sonho, no choro, sem conseguir chegar a uma conclusão.

It`s an outlier!

Horário de verão.




Ontem, às três menos cinco, sete senhoras foram de férias.

À saída do serviço, 
as sete senhoras que iam de férias
despediram-se de sete senhoras que não iam.

Tinha havido sonhos no serviço, naquele dia, 
sonhos daqueles que se contam alto, para que os outros acreditem.


Ontem, às três menos cinco, à saída do serviço, 

as sete senhoras que iam de férias disseram às sete senhoras que não iam de férias,
que iam, felizmente, de férias.

As sete senhoras que não iam de férias sorriram uma alegria que não era sua.


Aquele tinha sido um dia de carregos lânguidos.
Um dia de saia justa, um arejo diferente.

Ao almoço, as senhoras pediram sobremesas.
Arroz doce, farófias, melocoton.
No final, compraram uma raspadinha. 

Ao longe, as sete senhoras que iam de férias reluziam.
Estavam maquilhadas, naquele dia.

It`s an outlier!

Mal de boca.




As bocas dizem muitas coisas
que os olhos prontamente desmentem.


As bocas asseguram depois,
aos olhos de quem passa,
que vão tentar melhorar.

Monday, July 17, 2017

Palavras de Cotrim.

Pobreza.




Na semana passada, na conferência, depois dos bolinhos,
alguém apresentou um professor especialista.

Depois de ser apresentado, o professor especialista sentou-se,
e, movendo um dedo no écran táctil, 

explicou,
em quinze minutos,

a pobreza.

Palavras de Cotrim.

Doutoramento.




Referi há dias a um meu avô que estava a tentar concluir um doutoramento.
Este meu avô tem hoje uma bengala, uma fala viva, o filho de sempre, netos e bisnetos, noventa e cinco anos. À minha confidência, respondeu que no tempo dele não havia nada disso.

Deveria ser uma coisa boa, portanto.

It`s an outlier!

Uma profunda admiração.




os livros dos rodrigues dos santos são muito vendidos.
os livros dos rodrigues dos santos são muito doados para quermesses, para vendas em segunda mão.

Tuesday, July 11, 2017

Self-disclosure.

Um grande desígnio (XCVIII).




(há hoje uma pessoa que gostas especialmente de ver.

perguntas amiúde por ela, quando ouves, em qualquer parte, uma porta a abrir, uma campainha. quando a vês, mostras o que tens, contas novidades, mostra as tuas feridas.

é isso: falo de uma amiga. a zezé.

digo-o assim, para um dia, no futuro, me ajudares a dizê-lo melhor: a zezé foi, talvez, a tua primeira amiga. a zezé é especial, porque não sou eu nem é a mãe. é uma pessoa especial com quem tens as tuas coisas. a zezé sabe tocar viola. usa uma bata branca. é alta. usa óculos. é diferente. 

fomos vê-la no outro dia. parecias, em parte, decepcionada. a zezé estava com outras pessoas. percebeste que a zezé, a tua amiga, além das tuas, das vossas coisas, tem também as suas coisas. 

no dia seguinte, quando acordaste, parecias trazer a mão direita a esfregar a tua pequena vasilha. não o percebi de imediato. pensei, denotativo, que seria algo cutâneo.
tinha ainda a imaginação pouco atenta, trôpega. perguntei-te se estavas aflita. disseste-me apenas, com intocado entusiasmo: zezé.

é isso: estavas, como a tua amiga, a tocar viola. tenho procurado perceber, desde então, porque me suscita isto uma pequena falha tectónica na cabeça.

pensei vê-lo há pouco, ao olhar os auscultadores usados de um estudante de medicina.
a cabeça ressente-se, por dentro, com a mudança. com o ganho. com a perda.
um ganho, para ti, de mundos, de possibilidades de decepção, de alegria.
uma perda, para mim, do que poderá haver de mim em ti, dividido agora (e doravante) por outros.

a divisão é importante, porque representa um limite à minha capacidade de controlar,
de poder evitar, por exemplo, que entristeças.

pensei, entretanto, no que vamos fazer na próxima vez que formos a pé à baixinha.
vamos à olímpio medina comprar-te uma viola).

It`s an outlier!

Persistência da memória.




É preciso saber guardar a bala,
para que a memória prossiga atenta.