Thursday, April 23, 2015

Palavras de Cotrim

Futuro.


É o que se procura
em balcões altos
e pisos de dança,

quando
nos corações ocorrem
fulgores astutos,

as estudantes de letras
dão beijos de língua
a rapazes
licenciados em engenharia.

Wednesday, April 08, 2015

It`s an outlier!

Ponte.


Um grupo de homens tristes
pensou um dia
fazer uma ponte,
para ver o que acontecia.

Decididos na audácia,
compraram madeiras, bonés,
fizeram planos, turnos,
medições,
correram riscos.

Um dia, ao início da tarde,
um dos homens tristes
disse que a ponte estava feita.

É estreita - ouviu-se.

Os homens tristes
eram diferentes entre si -
jeitosos de mãos,
o passado repleto,
uns tinham bigode,
outros cabelo postiço,
um era particularmente alto,
os outros nem por isso.

Os homens tristes
passaram a ponte,
do outro lado
havia um banco,
onde, sentados,
olharam a ponte,
já pronta,
feita,
sem reticências.

Os homens tristes
ficaram ali o resto do dia,
a pensar,
a olhar a ponte,
estreita,
para ver o que acontecia.

Wednesday, April 01, 2015

Palavras de Cotrim

Vivendas.


As vivendas são boas,
dão para a rua,
o que ajuda
os explicadores,
a moviflor,
o senhor do pão,
a chegar a horas,
a descarregar mobílias,
a deixar factura,
por favor.


As vivendas são boas,
têm janelas
e maridos,
que ao sábado,
vão para a rua,
adiantar trabalhos,
podar buganvílias,
dar aos braços
no jardim.


As vivendas são boas,
dão para outras vivendas,
têm estores que se abrem,
para os filhos,
de olhos mínimos,
espreitarem
os pombos
que voam para longe,
os vizinhos
que pedalam de pé,
atrasados, talvez,
para o comboio,
para uma grande ocasião.

It`s an outlier!

O que podíamos fazer a todos os dias-loureiro.


Pô-los a todos numa carrinha,
levá-los à tardinha para o alto de um monte,
dizer-lhes que aquilo por ali
é bom para perdizes,
deixá-los lá com um tacho de arroz,
uma esferográfica,
e meia dúzia de despachos sobre a tabuada,
ou outra coisa assim.


À noitinha, convidar alguns mários-nogueira,
para contar histórias aos dias-loureiro,
de como aprenderam a dançar
à sexta-feira,
nas grandes manifestações estudantis.


No final da romaria,
se os dias-loureiro perguntarem se a carrinha os leva a casa,
enunciar, de súbito, graves carências de potássio,
indicar de que não há, de facto, memória
do que os levou a todos ali.

Wednesday, March 25, 2015

Self-disclosure

24.03.2015, 11:21.



Hoje foi o Herberto,

e eu, tão ocupado,
em mangas de camisa,
não cheguei a tempo
de pedir desculpa

pelos pés que crescem longe,
o fogo que prendo
quando me falta a voz
nos prédios altos -

os trabalhos de grupo que
fazia em cartolina,

o meu avô sentado
a ensinar-me
a jogar à bisca,

a alegria de ter
os deveres prontos,
amigos que me esperam,

as minhas meninas de manhã,

as minhas meninas,
as minhas meninas.

Thursday, March 19, 2015

Self-disclosure

Vinco.


Já tive sonhos,
vários,
em numeral milhardo,

sonhos
conclusivos,
gramaticais,
onde vestia
segundo
modas descontraídas.


Um dia,
esperava o comboio,
as roupas de inverno
(certos praticantes delas),
tive um sonho 
que me ficou preso na testa.


Com as chuvas,
os apeadeiros,
o sonho foi,
no seu lugar
ficou um vinco,
que,
dizem os amigos,
me favorece
quando sorrio
nas fotografias.

Friday, March 06, 2015

It`s an outlier!

Senhores.


I.

Há senhores

que têm dívidas e cócegas no umbigo,
que fazem pontes,
que têm sonhos,
que pegam em pincéis, em canetas, em enxadas,
que não têm dúvidas e ao domingo usam gravata,
que se dizem senhores, e pedem por favor sumos e torradas, 
que não acreditam no domingo, e se sentam, tristes, por só saberem desenhar linhas rectas,
que conduzem comboios, autocarros, camiões, e apitam uns aos outros, como se vivessem todos na mesma casa.



II.

Por vezes, 

os senhores que têm dívidas ficam cansados, e pedem ao senhores que têm sonhos que desenhem um sol amarelo, para mostrar aos filhos que ficam no carro à espera,  

os senhores que fazem pontes falam com deus, e dizem-lhe que o que gostavam era de ser um daqueles senhores que sabem dançar nas festas,

os senhores que não têm dúvidas aborrecem-se, porque gostavam muito de saber ir à pesca.

It`s an outlier!

Arroios.


Na estação de metro, um adolescente olhava em frente, atento, um cartaz que enaltecia as virtudes de chorar.

Estava pálido - na véspera, soube que um dia também ele iria morrer.

Thursday, February 12, 2015

It`s an outlier!

A falta.


À terça-feira, habitamos sem jeito o que nos falta, considerando-o uma virtudeespecialmente tensa, justa, rigorosa, lugar de onde ecoa, insistente, o saber de que se morre muito, constantemente, de que morrem os amigos, deixando, difícil, um resto - aquela areia, que dura e seca, até ganhar crosta.

Saturday, January 17, 2015

It`s an outlier!

Artwork: Ulmeirense, 1990 (autor não disponível)




Maurino.


Havia jogo naquele dia.
Ele ia, pela primeira vez, à baliza.

Levou o melhor fato de treino,
cinza claro, de perna comprida.
Nesse dia, Ele faltou pela primeira vez às aulas,
antecipando o balneário

um futuro risonho em advocacia.

O jogo começou de súbito,
a testa dele reluzia.


Capaz, tinha recusado luvas,
gritava como os guarda-redes
gritam nos écrans de televisão.

À meia-hora, o maurino
ameaçou fiado o drible, o chuto,
no corredor central da avenida,
e Ele lá foi,
com os dentes e a catequese em dia,
um futuro na boca
que fechava e depois abria.

Hoje,
Ele janta couve-flor,
faz o control, alt, del,
fala do tratado de tordesilhas.

Quando chove,
ocorrem-lhe os
chutos do maurino,
acontecimentos solenes,
importantes,
discutidos nas cantinas.