Monday, May 22, 2017

It`s an outlier!

O riso dos autarcas.



No jornal, há muitas fotografias de autarcas.
Seis sete oito, a rir, de barba feita, agitando os braços prontos para o trabalho.
O riso dos autarcas apazigua, tranquiliza. Quem o vê, fica com a ideia
de que dominam segredos úteis, benesses vindouras, uma felicidade ainda por vir.
Por isso, os autarcas riem. Um riso escolhido, sadio, esplêndido, próprio de quem
domina os arames ténues da sorte, as razões do vazio escavado dos dias.
Quando não estão no jornal a rir, os autarcas vão a feiras, a reuniões, inauguram, sentam-se. Sentados, os autarcas dizem palavras, umas a seguir às outras. Coesão, inovação, desenvolvimento. As frontes moles, tingidas pela fortuna, praticam a amenidade, o polimento das superfícies. Depois têm fome. De lampreia, de cabrito, de moelas.
Quando vejo, nos jornais, o riso dos autarcas, sinto quase sempre o rosto rude.


It`s an outlier!

Saber ver.





lá vai o olho,
a medir o ouro da ilha
ainda longe.

lá vai o olho,
pondo cada coisa
onde depois mora a flor.

lá vai o olho,
a ver
como o tempo passa.

lá vai o olho
a ver
o que os olhos vêem:


pontes
onde o vento se demora,

casas
onde a eternidade
dura,

o passado,
glosado
por um grande número de outros.




Thursday, May 18, 2017

Palavras de Cotrim.

Pragmatismo.



A verdade é o que faz acontecer
o que se quer que aconteça.

It`s an outlier!

Minúcias.



Agora vejo,
mais nítido que o zero da régua,
os sábados
os domingos de pedra,
assim silenciosos
nas alturas.

Vejo 
como o tempo se demora,
em movimentos mínimos,
nas vozes que farejam defeitos.

Agora vejo
o grão adverso,
o dente miúdo lavradio,
dos amores que se trancam em casa,
sem pele alguma,
a discutir viennettas.

Self-disclosure.

Um grande desígnio (XCIV).



(gostas muito de ir a um jardim que tem no meio um lago antigo.
passamos muitas vezes por este jardim.
no outro dia, ao passarmos por lá, alguém perguntou
o que há lá que te faz gostar tanto deste jardim.
a tua resposta: o papá).

Tuesday, May 16, 2017

Self-disclosure.

Um grande desígnio (XCIII).



(tenho confirmado em mim o jeito bruto do arado da memória: já não me lembro, com detalhe, dos teus primeiros dias, da tua primeira voz.
se perguntam como foi, como eras, invento o silêncio como motivo. já não me lembro. 

medes, por estes dias, noventa e um centímetros. calças o vinte e três. tens dois anos há dois dias. escolhes o que queres calçar, o que queres comer (arroz).

dizem que estás gorda, que estás alta, que és esperta, que és parecida com uma prima, com um primo, com uma avó, com a mãe, que já devias falar. invento também a este respeito, o silêncio como motivo. para mim, és parecida com um ovo que há nas nuvens. dizes muitas coisas que não vêm ainda nos prontuários: bô-ôbo-pau-pe-pis-cha-chi-pai-tata-chacha-ôuto. continuo a ir contigo à piscina, agora numa pista ao lado. já fazes as orelhas de coelho, o nariz de palhaço, o sapinho, a satinha, o avião.

é preciso saber aceitar o zero da régua, que nos diz de méritos rasos. um dia, por certo, não me ocorrerá o que já nos dizes por estes dias: outro, outra, já está, aqui, em pé, de pé, ao pé, no chão, mais.

gritas por mim, por estes dias, às seis da tarde, às onze da noite, às quatro da manhã, como se eu fosse para ti uma necessidade primordial: para ver melhor o roger, os balcões, os comboios, os cavalinhos, para passear o winnie the pooh, ouvir o salvador e aquele disco do aguinaldo ferreira, para dobrar o papel, cantar o ovo e o pinheirinho, para agachar e flectir o joelho, embalar e mudar a fralda ao bebé, para pedir o termómetro e os dedinhos de massa, para calçar os chinelos da mãe, cair da cama da cadeira da bicicleta, para assobiar e andar no carrinho do supermercado, para comer fiambre e do farelo das gatas.

és hoje, em mim, sem incêndio, um fundamento. saio à rua com a alegria acesa, crédulo, navegando a todo o pano o muro alto dos dias.

gostava muito de não a esquecer, a alegria).

Tuesday, May 09, 2017

It`s an outlier!

Viver em edifícios.



(I) Viver em edifícios é bom.

Dá para falar,
para pensar,
para mijar, 
para arquear as sobrancelhas.

Nos edifícios,
há maridos mulheres e filhos,
prenhes de crença
na bondade
das telhas.


(II) Quem vive em edifícios vai pouco à rua.
Viver lá dentro deve ser bom, portanto.

Para quem vive em edifícios,
ir à rua é um acontecimento.

Assim, quem vive em edifícios anuncia quando vai à rua:
- olha, vou ali à rua num instante.


(III) Quando vai à rua,
aquele que vive em edifícios
tende a dirigir-se a outros edifícios,
em particular,
aqueles que têm,
por baixo no meio por cima,
um pingo doce, 
um barbeiro,
uma pastelaria.

Ir a pastelarias é bom.
Há muito ar lá dentro.
Dá para planear as férias.

E para pedir aquele pão
que fica duro enquanto se guarda o troco.




Friday, May 05, 2017

Self-disclosure.

 Um grande desígnio (XCII).


(perguntam-nos muito se já falas. há apelo ao incentivo da tua fala.
há sorrisos nas quadrículas quando o fazes. haverá, depois, uma mudança:
quando cresceres, irá ouvir-se um incentivo, pedidos expressos provavelmente,
para que te mantenhas calada).


Tuesday, May 02, 2017

Self-disclosure.

Um grande desígnio (XCI).



(ouvimos há dias, na fila para pagar o pão, mais umas quantas palavras de vida eterna,
que agradeci com um sorriso que trago preso, por vezes, aos cimos escondidos da testa:

- se o senhor precisar de ganhar dinheiro, tira fotografias à sua filha e depois faz calendários.)

Self-disclosure.

Um grande desígnio (XC).



(das coisas que ficam, que poderão ficar na - minha - memória.
fazes dois anos daqui a uns dias. alguém perguntou quem queres que vá à festa.
a tua resposta: o papá.)

Self-disclosure.

Uma grande razão (X).




(quem te vai conhecendo diz-nos diz-te que és sossegada, que não te queixas de nada.
não me incomoda em muito a apreciação sucinta: tens, terás tempo e, quiçá, bons motivos, para o fazer no futuro).

Self-disclosure.

Uma grande razão (IX).



(é possível que haja quem acabe por ser pai, para poder sentir, por uma vez na vida, a atenção típica, distintiva, que se dedica a quem vence, a quem triunfa).