Thursday, September 14, 2017

Palavras de Cotrim.

Entusiasmo.





É um estado de ânimo que ocorre raramente.
O termo decorre, como tudo o que dura, do grego antigo.
Significa "ter os deuses dentro".

It`s an outlier!

Para que serve a psicologia.





Serve para tentar descobrir em mim (mesmo) uma espécie de alívio.

Palavras de Cotrim.

Categorização.




A diferença, a tipicidade, a semelhança, constituem exemplos de critérios de definição da realidade, de posicionamento face à realidade, de normalização, de categorização social.

Categorizar serve um propósito de descrição e de classificação - de preferências, de interesses, de lugares de classe (Pinto & Queiroz*, 2010). Porquanto assegura a continuidade da acção, o efeito de conformidade que a categorização suscita, apresenta as categorias em uso como explicações necessárias, referentes informativos de facto.

Uma categoria social refere um objecto (social, natural, digital), simplificando-o. Disponibiliza um guião para a acção, para a preservação da ordem institucional.

Categorizar visa a utilidade, não a exactidão. Uma categoria social não representa uma essência, uma natureza. Comporta um efeito de estilização. É fundamentalmente arbitrária (Leyens & Yzerbyt*, 2004 [1997], p. 277).

Oferece uma sensação (ilusória) de escolha, de controlo (Leyens & Yzerbyt*, 2004 [1997], p. 84). Define uma possibilidade de abreviar o raciocínio.

À irrupção (fulgorante) de novas categorias, de novos grupos, de novos comportamentos, associa-se a necessidade de as poder dizer, de as poder afirmar, colocando-as de imediato em trânsito.

Um dizer imediato, mais alegórico do que denotativo, define uma prática (social e cognitiva) que se inscreve numa lógica deceptiva, uma lógica "pós-enfim-qualquer coisa" onde as palavras-ídolo, as figuras-signo salientes, poderão ser, a cada momento, já outras, uma prática cujos referentes importa interrogar, neste sentido, ao altifalante.



*

Leyens, J.-P., & Yzerbyt, V. (2004 [1997]). Psicologia social. Lisboa: Edições 70.
Pinto, J. M., & Queiroz, C. (1990). Lugares de classe e contextos de aprendizagem social, Cadernos de Ciências Sociais, 31-143.






It`s an outlier!

"Eu é que sei!": Oposição, fragilidade e retraimento no universo operário.




Saber com o corpo, conhecer com o corpo, representa um modalidade de conhecimento específico, que contribui para enformar práticas e estilos de vida, a acção de grupos socioprofissionais particulares que constituem, em termos históricos, um referente significativo, nevrálgico, no quadro das relações laborais mantidas em Portugal.

A "memória do corpo" constitui uma dimensão fundamental na cultura destes grupos profissionais (Monteiro, 2014, p. 56). Quando o trabalho "sai do corpo", saber colocar as costas, saber usar as mãos, ver fazer para ganhar "o jeito", constituem práticas rituais. Aprender "a arte" por mimese, para dar depois "o ser à obra" (Monteiro*, 2014), define um modo de aquisição de um "senso prático", de saber(es) que não se encontra(m) contido(s) num texto. 

Quando o trabalho "sai do corpo", "o jeito" que se ganha oscila o dom e o destino, incentivando o estabelecer de ligações fusionais entre o que se "faz" e o que se "é", entre usura, possessão e despossessão, na relação que é estabelecida e mantida com o universo do trabalho.

A exaltação do "gosto" e do domínio da "arte" representam, neste contexto, uma instância de auto-justificação, uma economia de grandeza particular que é atribuída às virtudes da técnica oficinal. Oferece um contra-fogo, uma ética prática que sublima a assimetria experimentada no quotidiano, promovendo a reclusão dos indivíduos num ideal de integridade pessoal ("ser marceneiro limpo"; "ter a mão singela"). 

A directriz gestionária que constrange o corpo activo (a racionalização dos gestos, a definição de gestos "legítimos", o uso obrigatório de luvas, de auscultadores, de máscara, de botas de protecção) é vivida como imposição, como ameaça à distintividade pessoal, às possibilidades de afirmação de si, um constrangimento externo que tem lugar ao nível do último (do único?) reduto de autonomia pessoal: o próprio corpo.

Os auscultadores: não se ouve ruído, mas não se ouve o colega. A máscara de protecção: não se inspira pó, mas não se fala com ninguém. A procura de deflexão, de oposição face ao proselitismo gestionário, à ordem oficial percebida como constrastante com a autenticidade de um "senso prático" adquirido de forma paulatina, encontra diferentes formas de expressão: o retraimento, o esquecimento deliberado da indicação hierárquica, a afirmação de auto-suficiência ("Eu é que sei! Mas alguém manda em mim?").

Saber com o corpo, conhecer com o corpo, proporciona revelações práticas, intuitivas, sobre "o mundo da vida", dispensando a avaliação reflectida das circunstâncias, o planeamento deliberado da acção. A fábrica "faz bem". No estaleiro de uma obra, "aprende-se o que é a vida". A fábrica, a obra: uma e outra contribuem para o cumprimento circunspecto de um destino, de uma "vocação". A cirscunpecção, o conformismo apresentam a experiência da vida e da posição operária como sendo bastas vezes marcada pela espera passiva, pelo "realismo desencantado" (Monteiro, 2014, p. 113), a indiferença agnóstica - modos de dissuasão temporária das asperezas da realidade.

A vocação, a virtude "artística", oficinal, opera como fundamento de práticas sociais e culturais, de uma economia moral específica, mais intuitiva do que calculada, mais pressentida do que planeada, que visa manter o valor atribuído ao trabalho que "sai do corpo", a uma taxonomia de saberes oficinais, ao valor do domínio de uma "arte", à cumplicidade fusional, solidária, estabelecida com um grupo de semelhantes.

O sacrifício, o controlo normativo estabelecido através do grupo, a tendência para o conformismo, a preferência pela ratificação colectiva, a percepção cirscunspecta do tempo e do futuro ("o meu futuro é ter um bocado de sorte e não ter grandes doenças"), o realçar da prática, a depreciação de saberes teóricos, abstractos, intelectualizados ("não fazem nada"), a procura de fechamento, de refúgio, de auto-exclusão num arbítrio cultural autóctone, constituem exemplos de referentes de orientação moral no universo operário.

Há futuro quando há dinheiro. O futuro apresenta-se frequentemente como um luxo, uma dúvida, uma possibilidade que se reduz. O dinheiro regula as relações que se estabelecem com o espaço, com o tempo, com os outros. O dinheiro permite ir ao futebol, ao café, permite "pôr o pé fora de casa". Há que ganhar dinheiro, há que "fazer pela vida".

O fechamento e a auto-exclusão sinalizam a fragilidade de uma condição marcada pelo constrangimento, decorrendo desta circunstância o estabelecimento de rotinas de convívio e sociabilidade restritas ("gosto de estar entre a minha gente"), e a tentativa de fuga, de subtracção ao contacto com lugares onde uma comparação penalizadora (face ao falar, ao gosto, ao estilo de vida celebrado no espaço público) seja possível. Em momentos particulares, a procura de distância é entrecortada por estratégias de sobre-investimento na apresentação social: usar "roupa nova", lavar o carro, servir o vinho guardado para dias de festa.

A importância atribuída a diferentes sortilégios (a sorte, o azar, o destino, a maldade) transcrevem uma condição de constrangimento, uma "vida em estado de urgência" (Monteiro, 2014, p. 212), a incapacidade (indiscutida) de fazer face às insinuações de um agente de opressão poderoso - que pode ter ou não um rosto concreto, visível. Trata-se de um terreno fértil para a conspiração anónima, a circulação de sentimentos de malevolência (a inveja), redutos de protecção ontológica que transmitem uma sensação de explicação e de controlo temporário dos acontecimentos: "Quando o infortúnio e a dor são comuns, (...) e a pobreza e a moléstia são violentas, é excelente a oportunidade de se cumprir o anseio de que aconteça um mal a alguém"(Ashforth*, 1996, p. 1208). A carência não suscita, dificulta, ao invés, o auto-domínio, a neutralidade afectiva.

"É a prática que faz o artista": o fim de uma prática, de uma "arte", de um ofício, corresponde a uma morte, a uma morte social. A desvalorização da "arte" é a negação do "artista". Trata-se do domínio de um valor (pessoal, social e económico), outrora existente e partilhado como sendo indiscutível, que é colocado em dúvida.

A cessação de uma maneira de fazer é também e sobretudo a cessação de uma maneira de ser. É o próprio direito a crer que é colocado em dúvida. 



(para a liana)







*

Ashforth, A. (1996). Of secrecy and commonplace: Witchcraft and power in Soweto, Social Research, 63 (4), pp. 1183-1234.

Monteiro, B. (2014). Frágil como o mundo: Etnografia do quotidiano operário. Porto: Edições Afrontamento [fonte primária das expressões verbais e excertos apresentados].

It`s an outlier!

Xennials, Centennials, Millennials: Do apodo de circunstância.



A cintilação da classificação, da identificação, da pertença.

A necessidade de forjar, em permanência, novos ícones, novas figuras-signo, palavras-ídolo, categorias de classificação social que autorizem, com força e efeito de realidade, novas necessidades de consumo, de produção, outras integrações, tecno-excitações, a afirmação de diferenças.

Xennials, Centennials, Millennials: categorizar serve um propósito de descrição sintética, de diferenciação - de preferências, de interesses, de comportamentos. Porquanto assegura a continuidade da acção (de consumo, de produção), a ilusão de conformidade que a categorização assegura, apresenta as categorias em uso como explicações necessárias, referentes informativos de facto.

Xennials, Centennials, Millennials: categorizar visa a utilidade, não a exactidão. Define uma possibilidade, mais alegórica do que denotativa, de abreviar o raciocínio. Categorias e categorizações destinadas a forjar, primeiro, uma distintividade, depois a decepção.

A decepção: as palavras, as figuras-signo destinadas a estabelecer um efeito de saliência (de um grupo, de um comportamento) são já outras.

As palavras têm um efeito disruptor em relação ao que "é", no presente.
Soam a novo, disponibilizam definições, justificações, índices de singularidade alquímica.

As palavras asseguram subtilezas teleológicas. Encantam, entusiasmam, transfiguram (a realidade). Tendo a seu favor a distribuição de poder vigente, asseguram a sua própria verificação, em termos materiais, ao realizarem (tornarem real, palpável, verdadeiro) o que enunciam, pelo simples (f)acto de serem enunciadas.

As palavras, muitas vezes, abrem leitos, fissuras, e novos continentes ("realidades", "verdades") surgem. As palavras constituem, em si mesmo, uma "prova de existência" de uma "realidade".

Baby Boomers. Geração X, Y, Z. A Geração Silenciosa, a Geração Boomerang, a Geração Peter Pan. Xennials, Centennials, Millennials.

Palavras que visam a abertura de leitos, de fissuras.
Apodos, recortes demográficos de circunstância, veículos de injunção procedentes de lógicas, de discursos "pós-enfim-qualquer coisa": "eles" (os Xennials, os Centennials, os Millennials) aprendem, consomem, trabalham, relacionam-se de forma diferente.

A procura de distância individual face à urgência do condicionamento externo.
Institucionalismo não, personalismo: um desafio à ortodoxia, à retórica, à praxis de gestão, de produção, em uso numa empresa.

E o marante lá vai cantando, na rádio litoral do centro:
"toca toca toca / toca a tua sineta / eu gosto de te ouvir tocar / a tua sineta".

Friday, September 08, 2017

Self-disclosure.

Uma grande razão (XIV).




(a semana que passou foi a tua primeira semana de creche. duas, três, quatro horas por dia.muito choro, arroz e feijão no babete. durante esta semana, fui-te buscar em função do estabelecido. muito choro, sempre, o comportamento que terás disponível, talvez, para reclamar.

pesas nove quilos, tens nove meses e vários dias. um nif, iban. dormes pouco, já foste um dia à piscina. muito choro, menos choro,  sucedem-se, todos os dias, as conversas que visam a normalização. conversas institucionais. conversas de corredor, de balneário, de balcão.

"choro normal", "já aponta" - lê-se no teu boletim de utente.)

Self-disclosure.

Um grande desígnio (CVIII).




(já espreitámos para dentro de uma caixa de correio,
já subimos a uma árvore,
cantámos - ai - uma lágrima da luisa sobral.

tentamos, por este dias, beber leite pelo copo.
apontas no livro o menino que está triste.
pedes uvas (sem caroço, sem caroço).

por ti, tento manter o olhar atento.
sempre grato, sempre pronto, sempre crente.)

Self-disclosure.

Out-of-office.




Esta semana pus um dia de férias.
Aproveitei: o país não celebrava nada, ninguém ia ser condecorado.
Neste dia saí, fui ver queixos para a rua.

Acredito cada vez mais nas virtudes do chão, da madeira, do vento.

Olhar por muito tempo os olhos de uma coisa.

Palavras de Cotrim.

Hoje.





É o que hoje conta.

Self-disclosure

Um grande desígnio (CVII).




(nomear as coisas, ouvir nomear as coisas, confere-lhes um efeito de saliência, de realidade - um efeito, por vezes, inaudito, imprevisto. como sugeriu Wittgenstein, as (minhas) palavras contribuem para delimitar a (minha) realidade. as coisas tornam-se salientes quando são ditas. existem.

há dias, enquanto viamos um grupo de jovens a praticar a hierarquização anacrónica (estavam envolvidos, assim se ouvia, "na praxe, na praxe, na praxe"), tentei uma vez mais que dissesses o teu nome.

a rotina não varia muito:
qual o nome da mana? "é-a-tóia".
e o nome da mãe? "liliana".
e o teu nome? "tu". insucesso, de novo.

retomei a rotina:
quem sou eu? "o-pai".
qual é o meu nome? "pai-joão".

nomear é um modo de fazer existir - Wittgenstein, de novo.

eu existo. eu sou o "pai-joão".)

Wednesday, September 06, 2017

Self-disclosure

Um grande desígnio (CVI).




(a semana passada fomos à festa.

na festa, 
afagámos a roda de um tractor que era da minha altura,
vimos um rancho que canta uma tradição desde dois mil e quinze,
fomos aos insufláveis, para ver se seria ali que partias a cabeça.

a dada altura, quiseste ir ver o "carrocel olímpico".
lá chegados, perguntei a um senhor se podias andar numa chávena que o carrocel tinha.

o senhor indicou-me um cartaz, não enunciou qualquer palavra:
"no carrocel olímpico, crianças e adultos, todos pagam, todos andam".

agradeci ao senhor a indicação muda, sucinta.

eu tinha fome. o senhor, possivelmente, também.
fiquei sem vontade de andar dentro de uma chávena.)

Tuesday, August 29, 2017

Self-disclosure.

Um grande desígnio (CV).



(por estes dias, muito do que procuras fazer tem dado uso ao ladrilho frágil da minha paciência. puxo-te, por vezes, a orelha.
sempre que o faço, o teu olhar perdido diz-me que não o deveria fazer.
quando o faço, recolhes ligeiramente o corpo. 
quando o faço, percebo-te indefesa, incapaz de perceber o que te está a suceder.
quando o faço, saliento apenas a minha incapacidade, a incorrecção do meu descontrolo.

quando o faço, saliento apenas a crença subterrânea num ditado antigo - a letra com sangue entra.)