Friday, July 22, 2016

Self-disclosure.

Um grande desígnio (XXVII).



(apareces muitas vezes com coisas por abrir.
pacotes de gelatina. espuma de barbear. um desodorizante em promoção. o livro do urso baltazar.
deverá ser isto, também isto, que os pais fazem pelos filhos. 
abrir coisas. dúvidas, portas, telefones, atilhos, porrinhas).

Self-disclosure.

Um grande desígnio (XXVI).



(esperavas há já algum tempo junto do lancil do passeio.
quando me aproximei, deste-me a mão e, com ajuda, subiste o passeio.
esperavas por mim. fizeste-me sentir útil, por momentos. ocorreu-me, inesperada, a lembrança de um trabalho de meses que me custou, sem aspas, brio e mais algum cabelo. no momento da sua conclusão, foi-me dito, sem aspas, que entretanto alguém tinha pensado, e o que era tido como útil, necessário, não era afinal "aquilo").

Friday, July 15, 2016

Self-disclosure.

Um grande desígnio (XXV).



(ontem conheceste o kelly.
o kelly referiu, ao conhecer-te, que a catarina, ao conhecê-lo, gostou muito dele.
ocorreu-me perguntar quem é a catarina, mas pareceu-me que também ficaríamos bem assim.
o kelly é das pouquíssimas pessoas que me trata por joão vasco, fazendo anteceder sempre o nome, independentemente do tempo, lugar ou ocasião, da interjeição "ó" ("ó joão vasco").
o kelly, quando te conheceu, ia apanhar o comboio das cinco menos dois para ir tomar banho.
ninguém saberá ao certo quantos anos o kelly tem. provavelmente, ele próprio também não. o que só lhe fica bem.
quando se despediu, o kelly riu-se, um riso específico, o riso próprio de quem detém segredos raros, que só o seu detentor conhece. como quem o conhece sabe, o kelly já conheceu muitos deuses na terra).

Palavras de Cotrim.

Orientação para o cliente.



A um homem, um vendedor de automóveis fala de potência.
A uma mulher, sugere autonomia e simplicidade de estacionamento.
Às famílias vende espaço de arrumação.
Aos gestores sugere poder.
Aos futebolistas, imagem.
A um idoso, direcção assistida.

Self-disclosure.

Um grande desígnio (XXIV).



(um resumo breve do teu primeiro dia com catorze meses:
andaste trezentos quilómetros de carro.
comeste framboesas. 
conheceste o kelly, que já conheceu muitos deuses na terra.
um senhor, de passagem, disse "olha esta aqui", e não se referia a uma moto-enxada.
passaste numa casa do benfica, e ouviste as vantagens em ter benfica tv. 
trocaste de fralda numa casa de banho onde apontaste para uma sanita. uma senhora partilhou, à saída, um tratado sintético de sociologia - "não há aqui fraldário, isto é de outro tempo; as mulheres agora também trabalham".
mostraste interesse por um contador de água.
ajudaste uma senhora a fechar uma porta.
numa livraria, um senhor pediu uma fotocópia e disse que tens os olhos clarinhos. 
foste à bruaá, e saiste de lá com um mocho que se ri, amarelo e verde.
foste dormir às vinte e três e trinta, e eu, depois, ensonado, sentei-me a respigar o teu dia).

Self-disclosure.

Um grande desígnio (XXIII).



(tens uns óculos que pedes, por vezes, que te sejam postos com urgência.
os óculos vieram com uma sopa à lavrador que pedi há uns tempos num balcão do macdonalds. quando te pomos estes óculos, sorris, olhos nos olhos, como que a perguntar como te ficam. dizemos sempre que são uns óculos que te dão super-poderes.
são os óculos da super-eduarda, que depois corre e aponta para uma fralda.
não o saberás, presumo, mas sempre que te ponho estes óculos, soluço um pouco por dentro. deverá ser, penso depois, ao olhar para eles, dos seus insondáveis super-poderes).

It`s an outlier!

Artur.



O senhor artur tem hoje sessenta e um anos.
Ao fim de quarenta e seis anos de trabalho, pediu em março passado, a reforma.
Passados alguns meses, recebeu, pela primeira vez na vida, um subsídio de férias.
Nesse dia, para comemorar, pagou uma travessa de pica-pau a um primo, que sempre o ajudou muito.



Palavras de Cotrim.

Da cultura "Just feel it".

Nas lógicas que coca-colam hoje o mundo vivido, o excesso e o valor das imagens existentes sobressaem como traços distintivos. Espaços e objectos irrequietos, múltiplos, apelativos, extasiam sincréticos os sentidos. Trata-se de uma lenta recomposição das estruturas de dominação social, de uma inflexão nas ficções que regulam os interesses e o comportamento. Valoriza-se a experiência única, exclusiva, a "sensação", o contacto face-to-face, como signos de distinção de uma particularidade.

Daí a importância do rótulo, da embalagem, da superfície visual, do uso, da usabilidade - estímulos ardilosamente programados para a exaltação dos sentidos.

O repertório das aspirações últimas é-nos, afinal, interior - a auto-realização, a intimidade, o contacto, a interacção. Trata-se, em certa medida, de uma revisitação do sensacionismo proposto por Pessoa, uma "reengenharia de sensações" que reduz o mundo e a cultura do "outro" a uma sensação do "eu".

Tudo o que se passa - aqui e agora - passa-se em mim.
Just feel it.

Self-disclosure.

Um grande desígnio (XXII).




(já comeste hirudoid, bepanthene, protector solar, comida de gato, mustela, a etiqueta adesiva de uma banana chiquita. já passeias na rua o teu cãozinho sem pêlo. já consegues ver de pé, da janela, cinquenta vizinhos a discutir na rua.

já consegues fazer-nos pensar, que isto de ser pai até está a correr bem).

Self-disclosure.

Coisas que deveriam fazer pensar.



o riso imenso de quem governa.
ao domingo, uma efervescência benigna.
as pendências do passado.
aqueles que, com a caução sanitária de estatísticas, martelam o futuro.
os brejos ubíquos da globalização.
haver melocotón.
porque é o lucro tributável.
uma vasta noite de acalmia, à mão de colheita certa.
os administradores de doze empresas.
a utilidade, em tempo de tecnofilia, de pensar, de tentar saber pensar.
a incessante tutela da realidade, na sua curvatura fina.
a importância do discernimento.
a egolatria - a indiferença - a apatia.
um desempregado com um cv.
a dificuldade de crescer lento, como uma árvore.



[última actualização: 15/Jul/2016, 00:08]

Wednesday, July 13, 2016

Palavras de Cotrim.

Das "capelinhas".



"Funcionários da verdade" - assim eram conhecidos os funcionários que integravam a máquina burocrática da igreja medieval. João XXI, papa de Avignon (1316-1334), contava com cerca de quinze mil destes funcionários, copistas, soldados, clérigos de todos os níveis. Era este intransigente grupo de "funcionários da verdade" que assegurava o consenso social, a adesão e o cumprimento de rituais de devoção, o enquadramento dos "fiéis" em áreas restritas.

A posse feudalística de domínios de saber assegurava a esotereidade de um conhecimento "especialista", assumindo estes domínios a feição de "capelas" ou de baronias que estabeleciam fronteiras entre grupos, e regulavam a circulação dos saberes e dos poderes existentes.

Importava assegurar a esotereidade, a restrição do acesso a conhecimentos ilustres, condição de geração de "pequenas sociedades emproadas" (Duby*, 1992), pela acção dos "funcionários da verdade" que asseguravam, em círculos restritos (as "capelas"), a monofonia autoritária, adestrando a inteligência dos "fiéis" nos sentidos considerados admissíveis.

Os tempos mudaram - há que acreditar. Persistem, porém, indícios, nos modos de acesso e de manutenção do acesso a grupos, a associações, a organizações, a empresas, de recriação do "sagrado", da "baronia", na vida de todos os dias.



* Duby, G. (1992). A história continua. Porto: Asa.

Palavras de Cotrim.

Mouco.



o sucesso legitima a prática.

só o sucesso entusiasma.
só o sucesso salva.

só há argumentos de facto ouvidos,
quando há fotografias nas notícias,
sucesso nas pautas,

quando se ganha.