Tuesday, May 22, 2018

Self-disclosure.

Acender os amigos nas bobines do pensamento.



(como riem os amigos
quando lhes abro a porta)



e pois que me tem sido dito
que isto dos amigos,


o melhor é guardá-los desde cedo
em dois palmos de água:


são rosas
são raros
são isso


são como um par de asas

Self-disclosure.

Termo certo.





tenho trinta e oito anos
e saudades de um livro que me queira para noivo.


falta-me as cegonhas que há em ninhos
a caminho da geria.


falta-me o palito prenhe de um referente.

falta-me as alegrias
que à mesa se dizem assim por alto,
um pente sujo de mato nos fundos da intendência.



um dia hei-de ir de bicicleta até ovar.
um dia hei-de deixar de contar os meses.

Palavras de Cotrim.

Discreto.




Ouvido ontem a meio de uma praça:

- Pois, ele é de facto discreto. Não tem luz própria.

Palavras de Cotrim.

Ajuntamento.



A notícia informava, sumária: a primeira edição do curso tinha sido um sucesso, ao permitir juntar formandos motivados em torno de temáticas.

É sempre bom quando há sucesso, e quando as pessoas se juntam.
Seja em torno do que for.

Self-disclosure.

AP 130.




À boca da manhã resta ainda no vagão um aroma mínimo aos ratings que alguém discutiu na véspera.

Alguns partem depois do amor, ainda de noite, depois de uma zanga breve desapontada. Lembram agora os matos por onde a canção lhes foge.

No vagão segue um recheio de gravatas, de rimel, de primeiras pessoas ditas no singular. Um ou outro agita as abas do nariz. Com os dedos sérios no côncavo da mão, vão falando como se fala, antes de se entrar em cena.

Suspiro, penso que estou triste. Levo as mãos aos bolsos, ajeito a dúvida na costura dos olhos.

No lugar da frente, segue uma senhora que marcou duas semanas de férias em outubro. 

Está a tentar marcar, entretanto, uma semana para o natal, uns dias pelos santos, e uma segunda-feira antes de um feriado municipal. 

Ao meu lado, uma senhora sublinha e-mails em voz alta, um senhor anota vozes de mando em escrituras. O nuno telefona entretanto à senhora. A senhora diz-lhe coisas de relevo para a sua felicidade. No vidro, a voz deles toma enfim a quietação própria de quem concorda. O senhor ao lado suspira, fala de musgo de pedras, faz contas de cabeça. Insiste particularmente em si mesmo.

No vagão, as senhoras vestem-se com redes, com rendas. Sobre a haste do pescoço, as bocas dos senhores são pequenos búzios de silêncio.

Desce um fio de sol na persiana. As pedras estão junto das bocas junto dos ouvidos, as mãos dormentes dividem o lugar da sombra. Alguns rostos afeitados descansam um pouco acima do chão. Nos dias moços, frequentaram (vê-se) a alegria. Há neles hoje um muro alto de idade e de ventos.

Ocorre-me que podia aproveitar a ocasião para praticar o gráfico de barras. Mas a senhora do lado entretanto fala. A senhora e o nuno, e a senhora, e a água a correr-lhe dos olhos depois de muito tempo.

Andar de comboio permite as rezas, uma certa inclinação da cabeça. Permite, ténue, um instante de exílio em que nos pensamos. Vê-se melhor os caminhos, os prodígios. O coração deixa de correr.


Thursday, May 10, 2018

It`s an outlier!

Um país adiado.




Sobra pouco hoje em Portugal, removida a celebração de circunstância, a lauda de auto-promoção, o panfleto estendido nas tábuas.

A glorificação do epifenómeno como razão de fidelidade indiscutida traduz um país sentado à beira do caminho, um simulacro de democracia, um exercício da acção política que se esgota na discussão de superfícies, de futuros anteriores, de saberes de enxertia, do alicerce de coisas paradas.

Poderá traduzir, noutra perspectiva, a ausência de opções que se experimenta no contexto de uma modernidade importada, de uma civilização em segunda mão, curta de mangas (o eça novecentista ainda tão perto da flor dos acontecimentos), ocupada a praticar a socialização da pobreza, uma condição necessária para generalizar, em termos sociais, um sentido particular, ortogonal, de dependência.

Claques, paróquias, capelinhas. O meu, o teu, o nosso, o nosso, o nosso. A actuação dos marta-soares relembra o pernicioso efeito de despossessão apenso aos sistemas de representação política: a falta de controlo dos representados sobre a actividade de quem, em teoria e na prática, os representa.

Sobra pouco, de facto, quando os cuidados (os recursos) se reúnem em torno de uma mesma operação litúrgica: conter, por todos os meios possíveis, a possibilidade de discussão, de profanação da ordem existente.

Assim se abrevia o sonho, assim se abrevia a esperança, assim se adia a possibilidade de dar um estado de nação ao pensamento.

It`s an outlier!

Não sofra mais por amor.




Nos para-brisas, o professor bambo indica ser um especialista. Em problemas de amor, de ossos, de dinheiro. Garante resultados em cerca de setenta e duas horas.

Nos para-brisas, o professor bambo apresenta-se como professor. Esclarece depois que sabe ler a sorte, e que sabe muito sobre o amor e o espírito deixado livre nos açucareiros.

Para o professor, o amor, como a sorte, é sempre novo, é como a parte de dentro de uma luva. O professor sabe que o amor gosta de se demorar à porta. Pousa por ali o ouvido e deixa por vezes nos corpos uma gelatina. O professor sabe-o, e por tal, previne-o nos para-brisas: o amor tem um espinho que é, muitas vezes, o mais fundo no teatro estreito da alma.

A alma: o professor também sabe muito sobre a alma. Trata-se de um grão sincero, onde, a certas horas, um vento novo nasce e o professor consegue ouvir o mar bravio de uma recordação.

O professor poderia dizer o mesmo sobre o amor. Depende dos para-brisas.

It`s an outlier!

Um arame em volta.




No começo do mundo
dizem que havia um milheiro
que tinha um arame em volta.


Nesse tempo,
chovia de manhã,
e chover não era ainda uma notícia.


Desse tempo,
ficou um vento preso no arame
de onde se ergue hoje
um pó muito fino,


para alegria dos barcos,

dos morros e dos pássaros.

Palavras de Cotrim.

Andaime.



Vejo três homens que pintam e andam no cimo de um andaime.
Todos eles são infinitamente magros.
Dou por mim a pensar se aqueles homens andam naquele andaime por serem magros,
ou se serão magros por andarem no cimo de um andaime.

Self-disclosure.

Um grande desígnio (CXXVIII).



(enquanto possibilidade de constrangimento do exercício de um sentido de liberdade individual, a existência de uma regra suscita, por necessidade, a identificação de uma via de escape, de um contrafogo. há uma dimensão de risco e de fascínio que se vertebra em torno daqueles que personificam um desvio à regra, apresentando-se contra os ventos da convenção, da tradição, dos rigores legais instituídos.

conhecer o desvio, a possibilidade de desvio, as suas eventuais consequências, pode definir, em si mesmo, uma aprendizagem, contribuindo para a regulação da ação e das motivações individuais. aparentemente, este fascínio pode constituir-se desde cedo, prolongando-se até horas tardias. há em ti, por estes dias, um encanto pelos meninos que se portam mal, os meninos que fazem, como dizes, batota:

- pai, aquele menino está a portar-se mal. vamos ali ver o menino a portar-se mal.)

Self-disclosure.

Um grande desígnio (CXXVII).



(- pai, pai... eu queria ir ver uma vaca.)

Self-disclosure.

Um grande desígnio (CXXVI).



(ontem, sem aviso prévio, perdi por momentos o pé ao ouvir-te cantar para mim tudo o que querias.
querias cantar os parabéns ao elefante e à girafa. sozinha. estávamos no chão da cozinha de volta das regras de um jogo de dominó, livres dos rigores da classificação, do julgamento ortopédico.
começaste a cantar e a acompanhar com palmas. não consigo descrever o vento que então subitamente se fez sentir. foi uma daquelas horas em que as luzes como que se acendem, em que a vida que se vive parece ser a de um outro.
enquanto cantavas, olhei-te nos olhos, e vi uma fragilidade que me surpreendeu. cantavas, cantaste os parabéns para mim até ao fim, sozinha.
a fragilidade que pensei tua era afinal  minha. era eu a pedir uma vida para os teus sonhos).