Thursday, September 29, 2016

Palavras de Cotrim.

Conferência.


Enquanto rotinas instituídas no quotidiano, a conferência, o colóquio, o "summit", o encontro de "topo", o grande simpósio internacional, desempenham hoje uma função semelhante
à anteriormente desempenhada pelas feiras medievais (de Certeau*, 1984).

A conferência, o colóquio, o "summit", o encontro de "topo", o grande simpósio internacional constituem, como as feiras medievais, lugares de trânsito, de transacção, de encontro (de palestrantes, especialistas, "speakers" vindos de várias partes), de exposição de "produtos" (saberes, poderes, relações, comunicações), de celebração da existência e da pertença a um "grupo", a uma "comunidade", do aparato inerente ao seu dinamismo mítico.

A celebração toma forma por via de ritos sofisticados de comunicação, de interacção, cuidados de cenografia e um protocolo dramatúrgico específico estruturam um "pitch", isto é, as estratégias de "auto-apresentação", de gestão das primeiras impressões (Goffman*, 1959): a existência de um palco, de bastidores, de uma plateia, o investimento em dispositivos de iluminação, de projecção, de tradução instantânea, as merendas de permeio, o microfone que amplifica a prédica, o programa "social".

No regresso da feira, os participantes olham com satisfação a cesta farta em produtos endógenos resultantes da expedição. Interrogam, depois, o calendário em busca da próxima edição.


*
de Certeau, M. (1984). The practice of everyday life. Berkeley: University of California Press.
Goffman, E. (1959). The presentation of self in everyday life. NY: Anchor Books.

Monday, September 26, 2016

Self-disclosure.

Um grande desígnio (LII).


(este sábado, acordaste às três e trinta da manhã. tinhas fome. bebeste um pucarinho de leite. surgiu, depois, um problema: o amanhã ainda não tinha chegado. uma informação que recebeste com notada indiferença. a hora era boa para brincar. brincámos, assim, com o pé, com os dedos do pé, com o dedo grande do pé, com um interruptor, desenhámos um quadrado e depois um rectângulo, no jornal da véspera, nas imediações da testa do durão barroso. às cinco e um, na rua, os jovens, infinitos, bebiam um resto de vinho tinto monsaraz. adormecemos, por fim. o amanhã, afinal, estava quase a chegar).

Self-disclosure.

Um grande desígnio (LI).


(é muito importante, leio, vejo, ouço, penso:
correr atrás de uma bola,
subir o muro,
ter um amigo,
ter um lugar secreto.

é muito importante, para o futuro do futuro, da estima, do intelecto: 
promover o corpo
em queda,
em relação,
em movimento).

Thursday, September 22, 2016

Self-disclosure.

Um grande desígnio (L).



(depois de te ter, tenho observado uma diferença, um fastio em crescendo no olhar:
uma vigilância menos condescendente das práticas, dos dogmatismos de circunstância,
do determinismo histórico que apresenta um caso, uma situação, um objecto, como indispensável, como incontornável.

há menos tempo e paciência disponível para a treta. para livros de treta. o filme de treta. o consumo de treta. a conversa de treta. a política de treta. a ciência de treta. o futebol. os fundos estruturais. salvar bancos. as rihannas. as novidades gourmet. gin a dez euros.
as notícias. as notícias de última hora. as notícias na televisão. a televisão.

a treta: o truque, o fogo fátuo, o artifício. ler o link, o resumo, a badana, mas não o livro. 

dei por mim especialmente tocado pelo terceiro lugar do manuel mendes na maratona paraolímpica. quarenta e cinco anos, quarenta e dois quilómetros, trinta e cinco graus.
o jornal do dia seguinte enfatizava: "manuel mendes, amputado do braço esquerdo desde os dez anos". o manuel agradeceu aos amigos, à família, ao treinador, ao patrão.
o marcelo, em modo algorítmico, debitou a enésima felicitação. 

escrevo-o, para não me esquecer. sorrio cada vez menos. poderá acontecer que mude.
há demasiadas ficções societais).

Palavras de Cotrim.

Das relações à distância.


As pessoas falam hoje com intensidade para écrans que trazem no bolso do casaco.

Retomando David Foster Wallace (1996): há treino específico para quem quiser parecer autêntico.

A disponibilidade imediata, a gratificação instantânea, a escala "global", aparentemente inesgotável, de "totalidades virtuais", criam uma ilusão de intimidade e de proximidade, um simulacro de pertença a uma comunidade, a uma rede firmemente entretecida que vence, aparentemente, o incómodo da distância (Elliott & Urry, 2010).

Para Thompson* (1995), as relações sociais são, crescentemente, experiências vividas através de múltiplas mediações. Protagonizadas pela distância e pela tecnologia, em  particular. Elliott* (2015) refere, a este propósito, que a experiência da intimidade assim vivida constitui uma ilusão, resultante de interacções "para-sociais", na medida em 
que a interacção dissociada de um encontro, de co-presença física, gera, tipicamente, uma idealização do "outro", a identificação projectiva ancorada em falsas impressões de 
reciprocidade.

O écran, a rede, são exemplos de espaços de substituição, de "compressão" (Harvey, 1989) e deslocamento qualitativo da distância, espaços que possibilitam o exercício da 
intimidade, de uma "conjugalidade limitada" (Singly, 2007).

As pessoas trazem depois o amor cansado, no balcão da ryanair, no alfa pendular, na goma dos lençóis, nas fotografias.



*
Elliott, A., & Urry, J. (2010). Mobile lives. London: Routledge.
Elliott, A. (2015). Identity troubles. London: Routledge.
Harvey, D. (1989). The condition of post-modernity: An enquiry into the origins of cultural change. Oxford: Blackwell.
Singly, F. (2007). Sociologia da família contemporânea. Rio de Janeiro: Editora FGV.
Thompson, J. (1995). The media and modernity: A social theory of the media. Cambridge: Polity Press.
Wallace, D. F. (1996). Infinite jest. Boston: Back Bay Books.

Tuesday, September 20, 2016

Self-disclosure.

Um grande desígnio (XLIX).



(por estes dias, és uma menina que vai vai vai vai vai, e que depois diz adeus com a mão, ao fundo, como o john wayne, na curva da estrada).  

Palavras de Cotrim.

Da economia da decepção.



Para Harvey* (1989), a experiência da condição "pós-moderna" resulta de um sentido difuso de "compressão" do espaço, da contracção do horizonte temporal (de futuro) que lhe surge associado.

À contracção deste horizonte de expectativa, surgem associadas, em termos manifestos, múltiplas práticas quotidianas: a aceleração (Rosa*, 2013) dos processos de transporte, de comunicação, de produção; a natureza temporária, volátil (Berman*, 1983), de produtos, de relações, de contratos; a importância do "momento" (Eriksen*, 2001), do curto-prazo e o declínio correlativo de uma cultura que valoriza a latência e os tempos de espera (Tomlinson, 2007); a importância da "promoção" incessante, que confere "tracção", "tráfego", um fluxo de utilizadores, visibilidade; as técnicas de simulação, de virtualização, de "aumento" da "realidade disponível"; a tecnologia que, de modo instantâneo, transcende, diluindo, referentes e fronteiras (físicas, geográficas, sociais, organizacionais); a efemeridade das "modas", dos desejos, das necessidades. 

Neste quadro "pós-moderno", a frustração, a decepção do desejo, são urdidas, pensadas, mobilizadas, por métodos deliberados.

A depreciação de um produto recentemente disponibilizado, a sua degradação célere, a "compressão" planeada do seu "ciclo de vida", contribuem para o tornar antiquado, menos desejável, antes mesmo de se atingir um estádio de consumação, de maturação da sua hipotética virtude. Por consequência, no plano volitivo, o desejo individual permanece insaciado, por responder, motivo de persistência de um sentido de insegurança e de desapontamento, vivido e apropriado como motivo de continuidade biográfica e de afirmação social.

Desejo, logo sou. Consumo, logo sou. Trata-se de um modelo económico assente na rotinização programada da novidade (Thiele, 1997), e, no essencial, na decepção (Bauman*, 2005), na não-satisfação sucessiva, deliberada, do desejo, de desejos múltiplos, cruzados. O desejo que gera desejo, o consumo que gera consumo, a necessidade que gera necessidade.




Bauman, Z. (2005). Liquid life. Cambridge: Polity Press.
Berman, M. (1983). All that is solid melts into air: The experience of modernity. London: Verso.
Eriksen, T. (2001). Tyranny of the moment. London: Pluto Press.
Harvey, D. (1989). The condition of post-modernity: An enquiry into the origins of cultural change. Oxford: Blackwell.
Rosa, H. (2013). Social acceleration: A theory of modernity. New York: Columbia University Press.
Thiele, L. (1997). Postmodernity and routinization of novelty, Polity, 29, 4, 1-30.
Tomlinson, J. (2007). The culture of speed: The coming of immediacy. London: Sage.

Friday, September 16, 2016

Self-disclosure.

Um grande desígnio (XLVIII).


(deixar-te na creche, fechar a porta e ir, é um acontecimento violento. não a escondo, não a procuro esconder, a angústia infligida pela separação. nestes momentos, há um pensamento que experimento com especial urgência, aquilatando a espessura dos muros, uma febre incandescente no espírito: seja qual for o motivo que solicite a necessidade de separação, hoje ou depois de amanhã, importa garantir que se trata de um motivo válido, incontornável, producente. se o motivo dito em equação for o trabalho, o motivo não poderá ser apenas o trabalho, o trabalho porque-sim, o trabalho das nove-às-cinco-e-quem-vier-depois-que-feche-a-porta. se o motivo dito em equação for o trabalho, deverá ser o trabalho zeloso, empenhado, o trabalho bem-feito, exigente dos melhores cuidados possíveis. para que a separação e a angústia se justifiquem, para que na cabeça meã se me acalme, por momentos, a febre, e te possa olhar, no regresso da noite, de frente).

Self-disclosure.

Um grande desígnio (XLVII).


(resumo breve de uma utopia privada, imaginada, de um pequeno acto de resistência: ter trinta e muitos anos, ascendência familiar rural, periurbana, formação em humanidades, interesses em humanidades, procura de trabalhos que a e os valorizem. ter filhos, querer ter filhos, mais do que um. em dois mil e dezasseis. em portugal, país de atavismos, de reverências, de trabalhos escassos, de baixos salários, de pensões vitalícias).

Self-disclosure.

Um café moderno.


No último domingo, de passagem em busca de granitos, parei num café junto à estrada. 

Perguntei por águas de litro. Comprei um pacote com quatro bolachas, anunciado a cinquenta cêntimos. O senhor zé perguntou-me se era da zona, o que fazia, para onde ia. 
Elogiou as bolachas, as melhores que há, disse, atendendo ao meu destino.
Elogiou-me, depois, um elogio despojado que pareceu ser já de um outro tempo. Disse que gostava muito da minha maneira de ser, e, por esse motivo, ofereceu-me, para a água, três copos de plástico.

Ao fundo, numa mesa corrida, discutiam-se as vantagens de ir a jogo com uma manilha seca. Em serpins, no "café moderno", não se lêem, ainda, links, telemóveis. Ao balcão, lê-se o jornal da véspera, compra-se chicletes de mentol, chocolate regina.

Monday, September 05, 2016

Self-disclosure.

Um grande desígnio (XLVI).



(é difícil, no presente, encontrar em portugal uma "casa" que nos seja própria, onde seja possível fazer habitar o sentido de futuro, incentivar o sonho, preservar a reciprocidade como norte ético de comportamento.

há, rangente, um embargo do futuro, da esperança, pequenas mortes silenciosas ruminando almoços em marmitas. uma torrente de idolatrias é proposto, no quotidiano, como fonte larga de consolo, afoitezas, novidades de alto género, indispensáveis. todas elas em tudo diferentes da esperança: o
futebol, o consumo, o prazer, o entretenimento, a juventude, o écran, o "défice", a "pensão vitalícia", a economia financeira, a técnica, o empreendedorismo vagamente aristocrático. Ao não conceberem alternativa, impõem-se como formas de coacção simbólica, de desertificação do imaginário, de vontades perenes de abraçar o hipotético, o minoritário.

adérito sedas nunes retratou o portugal contemporâneo como uma "sociedade dualista em evolução", marcado pela coexistência de atrasos e de progresso, de défices na repartição do rendimento disponível e dos elementos utilitários de civilização, e a persistência de estilos de vida "carecentes da capacidade de absorver e difundir eficazmente o progresso". trata-se de um retrato que data de mil novecentos e sessenta e quatro. ocorre propôr o dualismo e a reprodução social de desigualdades como verdadeira instituição e símbolo nacional ("portugal: país de salários baixos, de pensões vitalícias").

em agosto de dois mil e dezasseis, trezentas e trinta e duas "pensões vitalícias" foram pagas em portugal, por obediência a "critérios legais objectivos". há uma lista que espelha, com lacrimoso detalhe, os protagonistas de quarenta anos de democracia, os detentores do alguidar do garimpo.

a enésima nomeação de um qualquer mário-ruivo é noticiada com desenvoltura, não como uma escoriação, mas sim como acontecimento de relevo, fundamental. recordo, a este respeito, antónio aleixo*, como um teu bisavô um dia fez, num prolongado suspiro: o truque, o expediente, o comércio de favores, serão já, em português corrente, uma ciência.

a manutenção acrítica da mediocridade do "status quo" contribui para a estima dos poderes estabelecidos, a consolidação dos modos correntes de dominação,  que, paulatinamente, se cristalizam como um "novo normal", inescapável, uma inevitabilidade.

sinto-me por vezes diminuído, nos fundos da noite. nestes momentos, coloco o queixo no teu berço até ficar dormente, e vejo-te dormir.

o embargo do futuro e a correlativa desfuturização do presente constituem uma tragédia. o presente, formulado nestes termos, é figurado como eterno, lembrou orwell. quem controla o presente, controla o passado. quem controla o passado, controla o futuro, que é, no essencial, o presente.

há uma condescendência, um amor às pulsões de morte, uma reverência acrítica, secular, persistente, pela distância hierárquica (como sucede com a gravata, a distância hierárquica, em portugal, inspira um sentido de confiança, de presunção de competência, gera efeitos de tranquilização) e a assimetria das condições de origem. subsiste, no essencial, o medo nos desapossados, um medo de perder o que, ainda assim, se considera seu.

na dúvida em relação ao futuro, o constrangimento, o fatalismo, a nostalgia, o tributo ao passado, são um refúgio cognitivo, uma oportunidade de exílio temporário do pensamento. trata-se, porém, de espaços "negativos", que valorizam apenas condições de impossibilidade, e não ensejos íntimos de um "regresso a ítaca", de percorrer, como ulisses, o longo caminho em direcção a um sonho.

o futuro, dizem, é agora.
com o queixo dormente no teu berço, penso por momentos que gostava de saber fazer grandes balões com uma chiclete).




* "há tantos burros que mandam em homens de inteligência, que às vezes penso que a burrice é uma ciência". 

It`s an outlier!

Tónio.



Na serra, o tónio é um dos últimos jovens da aldeia.
Tem quarenta anos e sabe fazer nascer vitelos.
O tónio tem quatro ovelhas.
É conhecido como o tónio das quatro ovelhas.
O tónio gosta de viúvas.
O tónio gosta de uma viúva em particular, de nome alzira.
Aos domingos, por vezes, como os jovens, o tónio gosta de ir de mota até aveiro.