Tuesday, April 26, 2016

Palavras de Cotrim.

Liberdade.


Com acento verde-místico, atrevido, a montra anunciava que em abril teria lugar a semana da liberdade. Dez por cento de desconto em tudo, incluindo sandálias.

Visando, talvez, o estímulo precoce, uma mãe, de olhos postos na montra,
pergunta ao filho se sabe o que é a liberdade.

O filho pensa um pouco, e responde:

- Sei, sim. Liberdade é o que sentimos, quando num café há internet de borla.

Self-disclosure.

Um grande desígnio (IV).



(ontem brincámos com o bidé, um mistério em loiça ainda por desvendar. o bidé, no último mês, tem assumido um aparente lugar de destaque na hierarquia das tuas necessidades. quando brincamos com o bidé, tendo a tomar a ocasião para praticar, finita, a minha imaginação, e, em abstracto, a contrariedade. com o bidé, procuro demonstrar-te a existência de contrários. se pretendes abrir o ralo, procuro demonstrar-te que o ralo, sem o teu dedo preso, mantém intacta a sua vocação funcional. se abres a torneira, falo-te do desperdício que a ausência de propósito tipicamente representa. se me dás o piaçaba, digo-te que, se não o fizesses, ficaríamos ambos melhor. sem o prever, dou por mim hoje a olhar o bidé durante longos períodos de tempo. penso na tua curiosidade enquanto possibilidade de beleza, sobre o brilho escuro das pedras. sanitana - leio no bidé. penso no que poderia estar a fazer em alternativa. não me ocorre nada melhor).

Tuesday, April 19, 2016

Self-disclosure

Um grande desígnio (III).


(este fim de semana, morreu uma senhora que gostava de ti. tinha oitenta noventa anos, segundo se soube ao certo. para esta senhora, tu eras a menina que vinha. a menina veio hoje, perguntava com o coração. nas vezes em que te via, erguia os braços e sorria. para ti. o sorriso que as avós treinam, de manhã cedo, esperando os brilhos de domingo, das janelas que deixam abertas para ver os netos chegar. esta senhora sempre pegou em ti com muito cuidado, um cuidado que pareceu vir sempre de outro tempo, um cuidado que víamos no modo como ajeitava o corpo, a manta, na cadeira de rodas, antes de te embalar)

Saturday, April 16, 2016

Self-disclosure.

Um grande desígnio (II).



(hoje, à hora do almoço, comeste sopa de peixe frango tomate milho cenoura pão e um bocadinho de queque que era muito doce. apontaste, depois, com fervor, para um sinal que estava numa porta, para um rolo de papel, para uma factura, para a minha orelha, para uma porta fechada, para uma menina que disse olá, para um balão vermelho, para um bolo de aniversário, para um doutor na televisão, para uma botija de gás, para um portão fechado, um tronco de limeiro, para uma água das pedras, para uma excursão de espanhóis, a última página do expresso, para a prateleira mais alta do armário, para a lil a chegar ao longe, para um cão. é glorioso, não o deveria esquecer, quando for tempo de pedalar com mais força: o teu primeiro entusiasmo, intacto, prodigioso, primordial. adormeceste, entretanto. tens uma nódoa no vestido. reparo no teu dedinho que aponta. reparo melhor no teu dedinho que aponta. é preciso contar-te as unhas).

Friday, April 15, 2016

Self-disclosure.



Um grande desígnio (I).

(é uma da manhã. fizeste há pouco onze meses. dou-te leite para ver se consigo adormecer. seis colherinhas, cento e oitenta mililitros. bebes ávida como se fosse a primeira vez. deito-te no berço. levantas-te. queres ir comigo. aos sítios. vamos para o quarto ao lado. dou-te uma bolacha maria, torrada, redonda, normal. olhas a bolacha. pegas na bolacha com as duas mãos, como se fosse um guiador. olhas para mim, pareces apreciar o que te sucede. trincas a bolacha com um dente da frente. dás a bolacha para que eu também a trinque. dás a bolacha para que a lil a trinque. eu trinco a bolacha. sorris. pões  dois dedos na boca. vais adormecer daqui a pouco. é uma e vinte e oito. a lil dorme. respira profundamente)







Thursday, April 14, 2016

Palavras de Cotrim.

Objectivos.


Para Robert Merton* (1938), o ideário liberal norte-americano distingue-se pela celebração da divergência de comportamento, a possibilidade de existência de indivíduos, de autonomias, a ênfase concedida a um objectivo no qual se investe. 

O objectivo, e, mais especificamente, a sua elevação relativa, o êxito que é definido, sem artesania ou curvaturas, como sucesso pecuniário individual, é tido como sintoma de pensar avançadíssimo.

À luz do que designa de "evangelho do êxito" norte-americano, face visível correntia das lógicas íntimas do capitalismo empreendedor, Merton salienta que, neste fórum, falhar um objectivo não é sinónimo de fracasso ou de delito.

Estes são, em si, socialmente tolerados, ao invés da inexistência de objectivos, da visão pequena das coisas, a aspiração singela, rarefeita, daquele que, ao negligenciar a importância do êxito, é visto como estando a prescindir de si próprio.


* Merton, Robert K. (October 1938). "Social Structure and Anomie". American Sociological Review 3 (5): 672–682.

Monday, April 11, 2016

Palavras de Cotrim.

Caparro.



Pratico
a juventude
no corpo da prosa,
dias a fio,
todos os dias,

fazendo perigar as forças.


Pratico
a juventude
no corpo da prosa,
dias a fio,
todos os dias,

para ser mais osso ainda.

It`s an outlier!

O problema de Coimbra.


Cheira pouco a startups na rua.

It`s an outlier!

Talho Cardoso e Neves.


Nos nomes dos talhos,
ficam bem os apelidos.

Sunday, April 10, 2016

It`s an outlier!

Domingo.



As pessoas visitam-se.

Abrem capots,
comparam garrafeiras.

Tentam, de novo,
o sexo mítico
prometido nos filmes.

Thursday, April 07, 2016

Palavras de Cotrim.

Venda.




Vender: uma perícia difícil. Uma venda, ubíqua hoje pela expansão ininterrupta dos lugares de comércio, tende a decorrer, não tanto da apresentação viva de uma mercadoria, dos seus atributos distinguíveis, mas sim, do controlo hábil dos motivos individuais, da circunscrição das escolhas possíveis, segundo minúcias aritméticas invisíveis eruditas. 

Na venda, o inglês, uma menção oblíqua ao estrangeiro, a acrónimos de parentela científica, aferventam viçosos o desejo, os motivos (vapores íntimos), as necessidades susceptíveis.

Dizem os estudos, a história, as práticas: a carne é fraca, volúvel, ressentida. Gerar, gerir na flor da carne a aparição de novos desejos, é, nos balancetes, uma garantia de mais-valias.

O homem que interroga, há minutos, uma montra, irá sentir-se subitamente acometido por uma necessidade, que experimentará como nova, sua, urgente, íntima. Irá apressar-se, convicto, numa compra - distintiva, afirmativa.

Sentirá um alívio, temporário, da sua fraqueza.

Tuesday, April 05, 2016

Palavras de Cotrim.

Aceno.


Ao domingo, à tardinha, os pais levam as filhas ao comboio.
Quando elas vão, eles, de barba feita, esperam, secretamente, um aceno, uma atenção.

Elas, as filhas, acenam pouco, cada vez menos.
Eles, os pais, não sabem porquê. 


Ao domingo,
nos comboios,
no rosto das filhas
bate o mais pequeno dos ventos.

Ao domingo, à tardinha,
os pais regressam a casa,
pensam nas suas filhas,
nas suas mães,
partindo,
chegando longe,
em certa condição menina.

Tratam, entretanto, do lixo.
Limpam uma caleira.


Ao domingo,
nos pais,
no seu coração,
vai surgindo,
triste,
íntima,
uma distância.