A melopeia popular. Gostamos de Adília Lopes.
"Tanto
a lamentar
E tanto
que andar
Tanto
que chorar
E tanto
a fazer
O a fazer
desfaz-se
Desfaz-se
a face
Folhas
de alface"
Adília Lopes, in Poemas Novos, 2004 (& etc).
Elementos de cultura táctil. Procedimentos analíticos. Artefactos da vida mundana. A vida como arte de encontro. Da descoberta. Uma aprendizagem em redondilha maior. Um convite à partilha - com um grilo que tem fome de elefante.

Num universo social pontuado pelo esboroar dos referenciais de identificação totalitários e maximalistas de outrora, o blogue emerge enquanto espaço de criação e confecção do "eu".
Um espaço de recreação e ensaio de um projecto alternativo de existência - um "online self", como designam os estudiosos contemporâneos do tema.
O blogue representa, quase sempre, um espaço de mediação entre aquilo o seu autor faz e aquilo que gostaria de fazer; entre aquilo que é e aquilo que gostaria de ser.
Reside aqui o hipotético fascínio pelos blogues e pelas possibilidades que estes apresentam.
Uma operação de pantomina e "bricolage", portanto.
Ricardo Araújo Pereira é guionista, e cultor de escrita miscigenada.
Analisa o útil e o fútil; o urbano e o paroquial; o mundano e o erudito; o pícaro, o opaco e o banal.
É, neste sentido, um “boundary crosser”. Sem altivez de pretenso intelectual.
Em textos recentes confirma a largura da sua análise social, efectuando, primeiro, um reparo crítico ao meneio de nádega da cançonetista Ana Malhoa, para, de seguida, comentar a `verve` do analista político José Pacheco Pereira.
Para Ricardo Araújo Pereira, existem, neste preciso momento, poucas coisas mais urgentes do que visitar o sítio oficial de Ana Malhoa:
“Há várias representações de nádegas na história da arte, desde a esteatopigia da Vénus paleolítica até às Três Graças, de Rubens. Porém, nenhum artista teve a ousadia de representar o rabo como Ana Malhoa.
Refiro-me, especialmente, à fotografia em que, de fato-de-banho e saltos altos, a cantora exibe o rabo agarrada a duas cadeiras, enquanto dirige ao espectador um olhar desconfiado por cima do ombro.
Uma observação cuidada do rabo (e eu fi-la) revela uma faixa branca, não crestada pelo Sol, na base das nádegas. Essa faixa láctea é todo um manifesto. Como se, por intermédio do rabo, Malhoa nos dissesse: `Possuo umas nádegas tão fartas que até o Sol tem dificuldade em tisná-las todas`.
Quantas mensagens há, por essa Internet, mais interessantes do que esta?”
Em texto seguinte, Ricardo Araújo Pereira assimila a figura de José Pacheco Pereira, reputado e reconhecível analista político nacional, aos semideuses que Álvaro de Campos descreve no seu “Poema em Linha Recta”:
“[José Pacheco Pereira] Nunca levou porrada, nunca foi ridículo, nunca fez vergonhas financeiras.
O Pacheco Pereira não se espanta, não se aleija, não tropeça, não duvida, não hesita, não ri.
O Pacheco Pereira não faz um gesto que não o enobreça, não tem um prazer que não o edifique, não cede a um vício que não seja, vendo bem, uma virtude.
O Pacheco Pereira nunca escreve com as mãos sujas.
O Pacheco Pereira é um homem carregado de sentido.
O Pacheco Pereira cheira magnificamente da boca.
O Pacheco Pereira nu é belíssimo (...).
De manhã, à hora a que a generalidade dos homens está a fazer a barba, o Pacheco Pereira está a pendurar poemas no blogue.
E pendura-os com a mesma burocracia nos gestos com que os outros homens fazem a barba.
Os homens não fazem comentários à barba e o Pacheco Pereira também não comenta os poemas.
Os homens não se emocionam com a cara escanhoada e o Pacheco Pereira também não se emociona com os versos.
Deus livre o Pacheco Pereira de ser tomado por uma das emoções humanas.
O Pacheco Pereira exibe poemas como aqueles senhores, na rua, exibem os genitais.
Abre a gabardina e mostra um soneto.
Baixa as calças e revela uma ode”.
A escrita de Ricardo Araújo Pereira resgata sorrisos honestos em vários tipos de personagem social. O neo-burguês. O proletário. O Vasco Pulido Valente (que constitui um conjunto singular). O herói de província. O ígnaro empresário industrial.
Ricardo Araújo Pereira é, assim, um `outlier`.
(Nota: Os textos aqui parcialmente apresentados, encontram-se em versão integral no blogue do colectivo “Gato Fedorento”).
O intelectual.
Luís Fernandes, cronista portuense e um dos pioneiros da Banalogia portuguesa, fala-nos amiúde de um género social, várias vezes enunciado no espaço da palavra pública, mas nunca convenientemente escrutinado no seu conteúdo: o intelectual.
No contexto da sua Escrita Perecível (Edições Afrontamento, p. 52), vem preencher, em definitivo, a lacuna analítica até agora existente, apresentando-nos um intrincado gradiente da conduta intelectual:
“O pequeno intelectual rebola-se no grande intelectual, tinge-se com as tintas com que este pinta o mundo – enseba-se nele. Devora-o e come-o, roendo-lhe os livros e os artigos. Serve-o, já deglutido, em pequenas postas na conversa erudita, com o que consegue criar admiração no intelectual mais pequeno do que ele – o pequeníssimo. Caracteriza o pequeníssimo intelectual o facto de passar a admirar o pequeno, que lhe serviu a refeição regurgitada, em vez de dirigir o seu ímpeto conhecedor ao grande intelectual, que é a fonte e não o empregado de mesa.
Prosseguindo, falaria agora do intelectual muitíssimo pequeníssimo, que só aspira a que o convidem para tertúlias dirigidas pelo pequeno intelectual. O pretexto da tertúlia, esse, já sabemos – é o grande intelectual.
Foi por isso que Sócrates bebeu cicuta e outro grego, cujo nome não recordo mas hei-de perguntar a um intelectual, vazou os olhos, e outro ainda foi viver para dentro de uma pipa”.