Tuesday, October 31, 2006

Tautologia no gira-discos: #08

"No baile em que dançam todos
Alguém fica sem dançar.
Melhor é não ir ao baile
Do que estar lá sem lá estar".
(Fernando Pessoa, s/d)


Os 12" continuam a rodopiar, indiferentes à pífia espuma dos dias que passam:

Alex Tsiridis - Bouzouki Several EP (Gumption Recordings 06)

Phonique - What I fake EP (Souvenir Recordings 02)

V.A. Elaste EP1 - Slow Motion Disco (Compost Records 0230)

Angelo Battilani - Empty (Liebe Detail Recordings 014)

Jens Bond - La Sepia (Sender Recordings 063)

Quarion - Karasu EP (Drumpoet Community Recordings 04)

Wighnomy Brothers - Okkasion EP (Freude-am-Tanzen 029) (Weah! It`s the vibe of the fitzelbeat)

Loco dice - Harissa EP (Cadenza Recordings 013)

Audio Werner - Just wanna get down (Guido Schneider version) (Trapez Ltd. Recordings 050)

Bibliofilias

A coita de amor, segundo Francisco Buarque de Holanda (s/d), garimpeiro da alma feminina, em jeito de síntese do leit-motif de uma temporada inteira de Sex and the City:
"Quando você me deixou
meu bem
me disse para ser feliz
e passar bem.
Quis morrer de ciúme
quase enlouqueci
mas depois
como era de costume
obedeci."

Wednesday, October 25, 2006

Bibliofilias


"De tal modo me desvesti do meu próprio ser, que existir é vestir-me.
Só disfarçado é que sou eu".
(Bernardo Soares, s/d)

Palavras de Cotrim

A palavra.

Encaramos as palavras como uma tecnologia, um dispositivo que possibilita(para nós, de modo privilegiado) a análise, apropriação e modelação da natureza. Sendo o nosso idioma de expressão, no momento presente, o português, foi com ingénuo gáudio que recebemos a notícia da introdução de uma nova gramática do português, que entrará nas escolas, em epifânica unidade de currículo, com a designação de Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (
disponível aqui). Da leitura do compêndio constatámos que, em matéria de semântica frásica, os nomes uniformes podem ser, quanto ao género, epicenos, sobrecomuns e comuns de dois, e no que toca a propriedades semânticas dos grupos nominais, podemos identificar nomes não contáveis não massivos e, mais tarde, a definição de modalidade epistémica ou deôntica.

Em tempo histórico de evolução massiva da tecnologia, interrogamo-nos se a vida tem mesmo de ser assim, sujeitas que estão as palavras, anteriormente singelos redutos de humanidade, a obstinados cortejos sacrificiais.

Wednesday, October 18, 2006

Tautologia no gira-discos: #07

"Just leave all that is routine and common ways"

O 12" roda agora, ingénuo, sugerindo mutações estéticas e a abertura de universos cinemáticos de libertação e evasão. Nos últimos dias, o gira-discos tem-nos apresentado algumas tautologias
pensadas já em tempo de folha caduca. Fruta fresca que tanto nos apraz:

Thugfucker - Knight Rider EP (Thugfucker Recordings 02)
Plasmik - Eight to nine EP (Connaisseur Recordings 010)
Roxy Music - The thrill of it all (M.a.n.d.y. version) (White label)
Bloody Mary - Emma EP (Sender Recordings 062)
Booka Shade - Darko (versions I) (Get Physical Recordings 056)
Dave DK - Okinawa dance EP (Moodmusic Limited Recordings 017)
Tanzmann & Stefaniik - The basic needs EP (Moon Harbour Recordings 027)
Movementz - 29 calls EP (Sonar Kollektiv Recordings 117)
Rebecca Pidgeon - Learn to pray EP (Miso Recordings 07)
"Bets n`Bluffs" compilation exclusive tracks (Pokerflat Recordings LP 019)
Rockers Hi-Fi - Push push (M.a.n.d.y. version) (White label)
Marc Romboy - Telesto (Systematic Recordings Promo)
Samim - Eco (Moon Harbour Recordings 028)

Destaque para uma última tautologia que nos tem activado, de modo particular,
pessoalíssimas retóricas motivacionais: a composição Believer, de Carlos Bica.

Palavras de Cotrim

A vidinha.

Mihaly Csikzentmihalyi sublinha a importância de cada pessoa saber encontrar o seu apelo ("calling") interno, que o ponha em sintonia consigo próprio e o faça fluir de modo autónomo e criativo. Trata-se, noutros termos, da necessidade de confrontar lugares e localizações de classe pré-estabelecidas, interrogando modelos, padrões e estilos de vida que são dados, de modo anómico, pela história, pela tradição, pelo brando fluir natural dos dias - a assim denominada vidinha, por exemplo. Como defende Martin Seligman, o importante é passar-se de tentativas de se ter uma vida "boa", para um esforço (hermenêutico, por certo) de construção de uma vida "com sentido". A ditadura tem agora outros protagonistas, portanto.
A este propósito, Luís Fernando Veríssimo apresenta-nos, na sua série "Poesia numa hora destas?!", esparadrapos de eficácia diversa, para a cicatrização de padecimentos da alma. A consumir de modo desregrado, toma diária, várias vezes ao longo da vida:
"Essa sensação de segundo turno,
de desânimo generalizado,
e que de alguma maneira
fizeram você de bobo?
Não esquenta: Edu Lobo.
Contra a enxaqueca,
leia Rubem Fonseca.
Contra coriza e desdita,
ouça a Maria Rita.
Contra aflição e lumbago,
leia o Saramago.
Ninguém te ama, ninguém te quer?
Ouça o Charlie Parker.
Tudo é torto, tudo é tosco?
Ainda bem que tem o João Bosco.
Contra tudo o que amola,
use Paulinho da Viola.
Contra medo do Opus Dei,
use Billi Holiday
Contra tudo o que é dark,
ouça e leia Chico Buarque".

Thursday, October 12, 2006

Palavras de Cotrim

Fadiga crónica.

Com o desaparecimento das grandes ficções ou narrativas ideológicas que sustentaram os tempos modernos, a emergência correlativa da mercadorização da experiência sensorial e a expansão dos mercados da alma, o indivíduo, entregue que está a si próprio, entrará crescentemente em colapso. O articulado é de Alain Ehrenberg. Subscrevemo-lo: gerir a economia do destino pessoal é uma tarefa de complexidade não despicienda; a sobrevivência à errância e ao paradoxo da estrutura da existência, um motivo de decepção e perplexidade acrescida. Viver todos os dias, nestes termos, cansará cada vez mais.

O ser humano é, em rigor, a única espécie com a capacidade de se projectar e perspectivar no futuro. Pelo constatado, tem valido de muito.

Palavras de Cotrim

Ambição.

Lembrando o epigrama de Cavafy, a ambição, uma motivação inacabada, é tentar. Tentar sempre.

Sunday, October 08, 2006

It`s a outlier!

A alegoria dengosa e genuína do cronista Luís Fernando Veríssimo.
O seu verbo, sorridente, é por nós sorvido, com prazer e candura profiláctica.
Mais destas sumaríssimas conotações, por favor:
" - Um dia, meu filho,
disse o velho índio
indicando o topo das árvores
como quem afasta um véu,
- Tudo isto será céu".

(L. F. Veríssimo, in Poesia numa hora destas?!, s/d)

Wednesday, October 04, 2006

Palavras de Cotrim

Sedução.
A necessidade de aprovação e consideração social coloca qualquer pessoa numa posição vulnerável, dado que a interacção é um investimento de risco, e a retórica de quem seduz nem sempre permite atingir os objectivos propostos.
Um par de estudiosos do tema, Jones e Pittman, designou de estratégias de "auto-apresentação", em 1982, os comportamentos de um indivíduo motivados pelo desejo de manter ou aumentar o poder sobre o outro, através da indução de atribuições sobre si próprio.
Estes autores distinguiram cinco estratégias principais: 1) o aliciamento; 2) a intimidação; 3) a autopromoção, 4) a exemplaridade, e 5) a súplica. A primeira destas estratégias, o aliciamento, reveste-se de particular relevo no contexto floribélico actual, estruturado pelo culto do superficial, do acessório e imagético, do pindérico, previsível e circunstancial, na medida em que a atribuição que o actor procura introduzir no seu interlocutor é, precisamente, a ideia de que "ele é uma pessoa de quem se gosta".
Contudo, ao procurar recolher gratificação e cair nas "boas graças" do outro (descrevendo-se de modo lisonjeador, proferindo elogios e miúdas palavrinhas de apreço, ou fazendo-lhe favores), o indivíduo corre o risco de ser visto como um impostor, um conformista ou subserviente. Um pechisbeque, portanto.
Reside aqui o nó górdio do "dilema do sedutor": quanto mais intensos são os motivos que me levam a aliciar o outro, maior é a probabilidade que ele se questione sobre as verdadeiras razões do meu comportamento...

Sunday, October 01, 2006

Tautologia no gira-discos: #06

"O amor é um sentido", assim disse António Maria Lisboa.

Este é o lugar onde o amor, eminência parda de múltipla e vária fome, apresenta um sentido - o swing robótico, linear e vertical. Deixamos abaixo algumas hipóteses de afeição e enamoramento:

Mike Vamp & Clé - Maisonette (Steve Bug version) (Dessous Recordings 065)
Jimpster - Seventh Wave (Dirt Crew rework) (Freerange Recordings Promo)
Latex - The Porcupine (Rebelone Recordings 07)
IchundDu - Hey (Souvenir Recordings 01)
Jens Bond - Rocket Queen (Highgrade Recordings 034)
Azzido da Bass - Lonely by your side (Booka Shade version) (White Label)
Luciano - Blablabla (DNP Recordings Promo)
Henrik Schwarz - Imagination Limitation (All versions) (K7! records Promo)
Depeche Mode - Martyre (Booka Shade Dub) (White Label)
Lazy Fat People - Shinjuku (Wagon Repair Records 017)
Alexander Roland - Auftrieb EP (Karmarouge Records 021)
Daniela Stichroth - Chest in the attic EP (Meerestief Records Promo)
Florian Meindl - Glichty Katie EP (Resopal Red Records 09)

Self-disclosure

Iterações R.E.M. #01

Vejo senhores de gravata regimental.
Um discurso providencial.
Corpo disforme de bom comensal.
308 municípios em Portugal.
Almoços, reuniões. Distrofia salarial.
Uso salubre de português funcional.
Não consigo dormir.
Um regime boçal.
Com saúde na probabilidade, um bacanal.

Bibliofilias

Quando cruzou os 40 anos, Arthur Schopenhauer (1788-1860), o artífice da filosofia eternamente apoquentado, passou a dormir durante o dia durante períodos cada vez mais longos. A justificação que deu para tal facto não é de natureza bioquímica ou circadiana:
"Se a vida e a existência fossem um estado agradável, então toda a gente encararia de modo relutante a aproximação do estado inconsciente do sono, e alegremente sairia de novo dele. Mas verifica-se exactamente o contrário, uma vez que toda a gente se deixa cair no sono de boa vontade, e sai dele contrariado".

Palavras de Cotrim

Sociometria.

Do apetrecho adequado à aferição da qualidade das relações e do papel dos sujeitos, num dado sistema social, boa tinta tem sido vertida desde os esforços iniciáticos de Moreno, na já distante década de 1930.
Nos seus "Exercícios de Estilo", editados pelas memoráveis Edições Estampa em 1971, Luiz Pacheco, o auto-designado escritor maldito, aflora o assunto, entre dois copos meio-cheios e meia dúzia de farpas ao regime opressor, falando-nos, em particular, do intento classificador do "Homem que calculava".

No verbo capaz de Pacheco, "(...) o homem que calculava começou a classificar os amigos e conhecidos em duas categorias opostas:
a) Os que queriam que ele se empregasse;
b) Os que lhe achavam graça mesmo assim".

Cheiro a familiaridade, três décadas volvidas, e demais vínculos de trabalho e relação mal achados: o copo continua meio-cheio.