Tuesday, September 29, 2009

Self-disclosure

Distância.


Histórias infinitas,
um tremoço
em alvoroço,
sombra ténue,
verbos e nomes
em arranjos liberais,
no espaço entre o pensar e o dizer,
universos paralelos
que respiram,
frugais,
fora de um real consistente,
o desalento
de gente
que rumina
amarguras,
e pede coisas,
ignorando
a verdade plácida
das suas sensações.

Um mapa do mundo,
este oceano maior de diferença,
o amor,
alvor desencantado,
religião que se organiza,
uma arte da usurpação
de verbos em alvoroço,
que nos coloca em falta
permanente,
comum horizonte de miséria,
este
interdito inefável,
o resgate de
um tremoço
cru e étereo em demasia,
sob a terra,
uma infância
tardia;
é tarde,
por certo,
para um dia
te poder vir a alcançar.

Wednesday, September 23, 2009

It`s a outlier!

O destino, por vezes, também nos acena.

Destino,
confidente distante,
porque me queres e me acenas
a mim,
os amigos não se
querem por certo assim,
em episódios,
interregnos de sentido espúrio,
regras em desuso,
pratos grandes
de bacalhau e grão contuso,
um aroma desbotado
a jasmim.

Moderadamente feliz
o petiz
obtuso,
que assim se diz
feliz;
uma vida inteira,
e o destino,
enfim,
acenou para mim.

Destino,
se te queres meu amigo,
não me acenes assim,
temporariamente,
episodicamente;
fico a pensar
que é premeditado,
bacalhau assim demolhado,

felicidade
que assim cheira a jasmim.

Tuesday, September 22, 2009

It`s a outlier!

Escala.


Na caixa dos desejos
chora-se às prestações,
para que assim
pareça mais barato,
em inscrições
conciliadoras,
o emprego
de um cinzel
de nome fel.

Indivíduos
tendem a dar por si
em circunstâncias perigosas,
com uma caixa
e desejos
que deflagram em flor,
e seus olhos
vertem uma melancolia infinita,
e suas bocas,
invólucros de resguardo
abertos para gritar,
estão cheias de terra
virgem,
que se presta
a adolescer.

Sorriem perante este recuo
de deus,
e a possibilidade de
retraímento físico da alma,
exacta, compacta,
alma idêntica,
quadrada,
à caixa de desejos
com suas inscrições
infinitamente pequenas,
numa escala certa,
agora em versão
revista e aumentada.

Thursday, September 17, 2009

It`s a outlier!


Um estudo sobre a multidão eleitoral e o candidato político: Uma mão-cheia de ideias-chave.
[a partir da obra "Psicologia das Multidões", de Gustave le Bon (1896, pp. 108-112)]


1. Os homens em multidão tendem para a equalização mental, num movimento fundamental de inferioridade mental de todas as colectividades. O sufrágio de 40 académicos não é melhor que o de 50 aguadeiros, se estiver em causa uma questão de natureza geral. Os homens em multidão eleitoral, colectivo de indivíduos encarregue de eleger os titulares de certas funções públicas, caracteriza-se, como outros colectivos, pela fraca aptidão para o raciocínio, a ausência de espírito crítico, a irritabilidade, a credulidade e o simplismo.

2. O eleitor aprecia que os seus anseios e vaidades sejam lisonjeados; o candidato deve bajulá-lo e fazer as promessas mais fantásticas. Se fala para operários, as injúrias aos patrões nunca são de mais. É inútil, evidentemente, procurar qualquer simulacro de prova, dada a fraca aptidão para o raciocínio de uma multidão. A justificação que emprega argumentos não colhe frutos, ao invés da resposta a afirmações caluniosas com outras afirmações igualmente caluniosas, dada a eficácia da sugestão e do contágio na modelação das crenças de uma multidão. A coisa afirmada consegue, através da repetição, instalar-se nos espíritos ao ponto de ser aceite como uma verdade demonstrada.

3. O programa escrito e apresentado pelo candidato pode prometer sem receio as mais amplas reformas. No momento, os exageros produzem bastante efeito e não comprometem o futuro. O eleitor não se preocupa nada em saber se o eleito obedeceu à profissão de fé aplaudida e à qual deve a vitória.

4. O candidato que descobre uma fórmula nova, bastante destituída de significado preciso, e por consequência adaptável às mais diversas aspirações, obtém um sucesso infalível.

5. Pode suceder que o candidato seja inteligente e culto; mas isso é-lhe, de um modo geral, mais prejudicial que útil. Quando demonstra a complexidade das coisas e procura explicar e compreender, provoca a mobilidade excessiva dos apóstolos, esbatendo a violência e a intensidade das suas convicções.

Perante o valor actual do rímel, e o investimento em consultores e analistas que se esgotam na descodificação da motivação subterrânea de um candidato, não deixa de surpreender, pensamos, a actualidade destas elaborações que datam do final do séc. XIX.

Self-disclosure


Mobilidade.


Agora,
que o futuro vem de longe,
em recipientes vagos de candura,
sublima-se
o amido,
uma reserva
que liberta fármacos
e cura a varicela
de homens hipnotizados
por uma ideia,
verdade demonstrada,
pela qual se fizeram
apóstolos,
e a massa inconsciente, perplexa,
imita.

Incrustada instalação do espírito,
o amido,
fascínio aureolado
que paralisa a faculdade crítica,
uma doutrina
que ergue estatuária hirta
a semi-deuses
de fome tísica
e sombras roxas.

O amido,
farelo dos orgãos
que se demonstra,
é uma comoção
que nos aprova
e decreta
um estado
concreto,
desperto,
de alerta,
que desperta
apóstolos
e ideias feitas
de véspera.

É o fragmento de amido
que me faz ir
ter contigo,
e assim respiro,
em função da
raridade e dos acasos
da excitação.

Monday, September 14, 2009

Self-disclosure

Viés.

Assim mesmo,
em invólucros
de temperaturas uterinas,
homens
que leêm na diagonal
conspiram,
em variações sobre o reconhecido,
contas de somar
das quais
resulta sempre menos,
num caminho fora
rumo a casa.

Nestes lugares de exílio,
a minúcia do plausível
encantamento doméstico,
protagonista de aparente
erudição infinita,
é uma febre
detentora de um momento,
um arquipélago
de exigência
diagonal
desligada dos ciclos da natureza,
que uniformiza
todos os minutos,
variações que são
de coisas já existentes.

São homens que atravessam fronteiras,
que dão as mãos,
corpos e olhos
e desenham tangentes ao anódino,
amores plurais
fetais,
leituras diagonais
que nos fitam
de soslaio,
no embaraço
e na desordem do desejo,
sonâmbulos
esgotados,
no cativeiro da sua literalidade.

Wednesday, September 09, 2009

Self-disclosure


Autonomia.


Viver,
uma rua de um município que nos é próprio,
é um acto de deflação,
um súbito encontro romântico
que não nos foi
comunicado,
o retorno à mercearia
de obsessões
em buscas inquietas
de um produto há muito esgotado.
Uma insistência melancólica,
esta rua que teima
em nada nos dizer,
a perda e a discórdia,
o privilégio,
fachada de contenção,
explicação do vulnerável,
exactamente,
diariamente,
e ir adiante
da crueldade dos factos,
no desequilíbrio do destino,
com migalhas de ilusão
de uma rua escolhida,
varrida,
um ecossistema frágil,
um esconso ritual de
sobrevivência
com mochilas de escola
e os pés húmidos
em alguidares.

Viver,
ser capaz de nomear,
de invocar
a perda e o vulnerável,
a guerra que espreita sempre ao perto,
um expediente funcional
que nos diz que sim,
que há uma rua
de um município
que nos é próprio
e isso bastaria,
exactamente,
diariamente,
para ir adiante
da crueldade dos factos.

Sunday, September 06, 2009

Self-disclosure

Sistema límbico.

Emoções,
eventos nucleares e paralelos,
invadem-nos
com o cheiro triste de uma
praia que se finda,
alheada de um mundo condicionado,
exacto na sua monotonia;
virulentos absurdos
estes,
compósita variação
abandonada nas traseiras do imaginário,
silhuetas em cinzento fosco,
fragâncias de fluência furtiva,
um estado
constante residente
em corpos-nação
de rebordo marginal
a branco, preto
e baço.

Self-disclosure

Pigmalião.

Em aspirações vagas
de orgãos rosados
e imortais,
miúdos ingénuos,
vindouros
na sua indisciplina interior,
exercitam competências inócuas
tendencialmente exactas,
alargando, sem escolta, a passada,
numa pretensão uníssona
de se ser quem ainda não se é.

De tanto se simular
um vento de feição,
talvez se concretize
uma realização compenetrada,
um passo largo, intuito cru,
que assim exista,
antecipando
o que natural
e concretamente,
seria de vir mais tarde.

A beleza é a expectativa,
- um sorriso do destino -
e não uma flor ou o mar,
ou a precoce ilusão de eternidade,
figuras de mitologia,
como sugerido nos poemas
de gente pálida,
num plebiscito indiscreto
que ninguém compreende,
mas que ainda assim,
são entendidos com entusiasmo
pueril
moralista
juvenil
jornalista,
de quem reporta
a antecipação inusitada,
os passos largos,
orgãos rosados,
uma flor,
o mar,
e tudo o que não poderia vir mais tarde.

Thursday, September 03, 2009

It`s a outlier!


Conto comunista.

Na indústria da esperança,
operários espontâneos
de louvada virtude
removem malas
de poços
de um pânico inútil,
um magma profundo
em altitude,
este aceno do pathos
que se louva e enreda
em histórias vindas de longe.

Uma tragédia
da geologia
da comunidade
que assim distende um magma
sem explicações
para os homens que não têm cuidado,
e contam
histórias de uma esperança
sugerida, contida
nunca avistada,
ao longe.

Nesta indústria,
a actividade deriva da planificação
do sonho e do optimismo,
que, centralizados, tudo dominam.
Todos contam, tudo conta.
Contos se contam, desde que contem
virtudes louvadas
de operários,
de sonhos de geologia comunitária,
um magma
que enternece,
e afunda malas em poços
para que os operários,
num pânico inútil,
tenham alguma coisa concreta para fazer.

Wednesday, September 02, 2009

It`s a outlier!



Um estudo para a sustentabilidade da Segurança Social (draft).



O tempo verbal é, pensamos, uma solução para a sustentabilidade dos sistemas de Segurança Social. Em particular, há que aferir a possibilidade dos verbos poderem apoiar a sustentar o corpo denso e tentacular do sistema referido, se indexados, no uso quotidiano, a diferentes tempos e modos de expressão.

O verbo "contribuir", em particular, legitima, a título de exemplo, esta pretensão. Vejamos:

No Presente do Indicativo que nos induz calvície prematura e desconfiança na bondade dos desiratos políticos, temos:

eu contribuo
tu contribuis
ele contribui
nós contribuímos
vós contribuís
eles contribuem

Se tal não for suficiente para o sustento e nossa segurança, temos também a geração vindoura, mantendo um laço inter-geracional, cuja presença é sempre bem-vinda para efeito propagandístico:

(Futuro do Presente do Indicativo)
eu contribuirei
tu contribuirás
ele contribuirá
nós contribuiremos
vós contribuireis
eles contribuirão

Do fardo já erguido, ninguém se livra, e com este argumento chegamos ao Imperfeito do Indicativo

eu contribuía
tu contribuías
ele contribuía
nós contribuíamos
vós contribuíeis
eles contribuíam

e ao Perfeito do Indicativo, o tempo preferido, porque perfeito, de quem contabiliza o pecúlio agremiado:

eu contribuí
tu contribuíste
ele contribuiu
nós contribuímos
vós contribuístes
eles contribuíram


E temos também os denominados jovens, que, com a sua esperança desenvolta e existência condicionada pela ilusão de eternidade e inconsequência de acção, um dia também poderão fazer parte do jogo do mútuo sustento social. Isto se o sistema não falir entretanto, não existindo quem os sustente até lá:

(Futuro do Subjuntivo)
quando eu contribuir
quando tu contribuíres
quando ele contribuir
quando nós contribuirmos
quando vós contribuirdes
quando eles contribuírem


Sugerimos, deste modo, a possibilidade de um correcto uso e escolha parcimoniosa de verbos empregues no dia-a-dia, em diferentes tempos e modos, proporcionar um acervo que nos dará guarida a todos, melhorando inclusivé a qualidade da flexão do discurso da população. Novas oportunidades, também estas, que urge considerar.