Monday, November 23, 2009

Self-disclosure

Artwork by Tim Burton.



O fim do silêncio
.

Sentados,
vemos sombras,
sentidos unívocos
que glosam
visões morais do mundo,
às quais interessam
as presenças reais,
a ditadura do inesperado,
zonas do pensamento
circunspecto distante de nós,
o fogo que ilumina a circunstância,
a natureza
e a cidade
interior,
vilania amnésica
que se transporta
quando já não existem começos.

O silêncio,
regresso ao tempo em que se nasce,
uma e outra vez,
devorado agora
com o cansaço da cultura,
é entregue à gravidade de um discurso
que se dissipa,
palavras entregues na narração
da matéria
de tardes transitivas,
interrompidas,
lugares de excepção,
onde,
sentados,
vemos sombras que ensejam
um novo começo.

It`s a outlier!

Renascimento.

Que bom seria
o mundo renascido
a cada dia,

e nós, libertos,
a renascer com ele,

com a surpresa
preparada de véspera,

dispostos

a dissolver
os opostos
de um mundo nascituro,

a travar combates
com ira e isenção,
na renascença de um dia
regenerado,

uma possibilidade
aceite com agrado,
que bom seria,
uma eterna,
redutível,
segunda oportunidade.

Tuesday, November 17, 2009

Self-disclosure

Artwork by Tim Burton.


Fuga
.

Sobre a realidade
que pulsa e
magoa,
hostil,
com enlevos e enganos,
existe na patologia do adulto
uma vontade de organizar
um caminho de fuga
da dor e do vazio
que a todos pertence,
uma encenação de uma alma grande,
que saiba sorrir sem rede,
face a fotografias
tépidas
dispostas entre flores
e mesas de fórmica,
revestimento nobre
que forja um ressentimento.

A fuga,
um caos sensível e domesticado,
em tardes comuns,
episódios de buscas pessoais
pastorais,
sobre uma realidade residente,
que se interroga e molesta,
na participação de um corpo dissidente,
respiração esparsa
em silêncios unânimes,
um pânico vago num caminho de fuga,
parêntesis
exclamado que agudiza,
talvez,
o que realmente importa.

Enfim:
há uma fuga que, como uma frase,
aparenta não ter um fim.

Self-disclosure

Pausa.

Não saber de probabilidades
e da resolução de incógnitas,
perturba o câmbio
das coisas que madrugam,
e de canetas de feltro
que executam descontos a
termos superlativos.

O mundo que nos acontece,
uma e outra vez,
aviva o cinzento iludido,
casas inteiras de esperança
com realce de luz fluorescente,
e suas janelas exaustas
que se abrem para o vazio.
Avançamos sobre a ausência,
nús
como num primeiro
encantamento,
resolutos
como quem conhece
a origem de
desenhos sós
erguidos no céu.

Não conseguimos uma pausa,
que, por uma vez,
mantenha o mundo presente.

Wednesday, November 11, 2009

Palavras de Cotrim

O lençol da princesa.

Há uma princesa
dentro de cada um de nós,
que pretende ser escutada
entre afagos e
afectos indefectos,
reais,
que nos digam que a nossa princesa
é diferente,
que vale a pena
a idolatria,
e o risco,
dizer-lhe as frases até ao fim,
totais e completas,
como os segredos
sussurados
em lençóis,
que protegem
da subtracção do outro,
na sua diferença manifesta,
em olhares que buscam
sinais contrários,
num retorno
sem tecto,
em ruínas,
assim estamos,
princesas,
enfim,
num fim,
um desfile de
imagens habitadas
de rigor,
mulheres caídas
sôfregas,
dores sugeridas
que não se esperavam
inteiramente.

Haja assim princesas em nós,
e lençóis insuspeitos que ofereçam
palavras
e
encosto,
matéria real
de conforto,
que não ceda
aos segredos
sussurados em
algodão horizontalmente disposto.

Monday, November 02, 2009

Self-disclosure

Da ascensão ao céu.

Amor,
menino que morde
a leveza erguida do chão,
com a vivaz elegância
de um limite
desfeito em ridículo,
como as vezes em que pensamos
ser felizes em tempo de vida,
um instante
de súbita ascensão aos céus,
surpresa inaudita
que avança,
manhã fora,
pelo alvor da cidade.

Palavras de Cotrim

Sublinhar.

Quente, solar, centrípeta,
a percepção grávida
afunda-nos
em detalhes imensos,
que poderiam ser menos,
não fosse a gestação espantosa,
elefante carmim
que a engorda,
vaporosa,
e assim nos ocupa,
fazendo-nos querer sublinhar e tomar notas,
de acordo com a conveniência.

Sublinhar uma percepção que engravida,
dar ênfase,
tentação ilusionista,
a urgência de contar,
deixar recado à consciência
de onde deverá regressar mais tarde.

Self-disclosure

A escolha de um assunto.

No abandono da privacidade,
fazemos opções
de rendição à ignorância,
uma escolha,
um assunto,
um embaraço que se devolve,
do qual se desconhece
a origem da inutilidade;
assim se iniciam diálogos,
correspondendo ao estereótipo
distante
dos afectos rendidos
ao primado da razão.

Falando de assuntos escolhidos,
elevamo-nos da rasura da ignorância,
reconhecendo com absoluta certeza
o detalhe da nossa condição,
o outono perpétuo de sermos nós próprios.

Palavras de Cotrim

Controlo.

Porque falamos,
pensamos que controlamos
a realidade
na sua completa
totalidade.

Na realidade,
falando verdade,
ensaiamos uma
continuidade,
para que o existir
tenha então
uma finalidade.

As palavras nítidas
são, porém,
poucas e falham,
na sua primordial ambiguidade.

Falamos, então,
um pouco mais,
e a percepção,
na sua qualidade,
retoma o seu lugar cognitivo:
repensamos que controlamos
a realidade
na sua completa
totalidade.

Palavras de Cotrim

Leitura.

A pretexto
de ler um texto
no seu contexto,
perde-se o ensejo
de um sorriso mudo,
literal
que,
a seu tempo,
conta um tempo,
que é o seu,
isto quando o tempo nos diz
que já é tempo
de denúncia
do mosaico largo e cínico
que nos corrompe a alma.

Uma fatalidade,
o tempo de leitura,
recurso sacrossanto
assim descrito
em pranto,
céu de prata que nos transcende,
trágico e inexorável,
pois há sempre quem morra pelo caminho.