Friday, October 23, 2009

It`s a outlier!

Chá.

Bebemos chá,
ebulição exfusiante de perenidade,
uma infusão,
água quente em transacção,
uma criação ficcional,
elixir,
um precipício de divindade
que não faz bem
nem faz mal
aos anjos, às gaivotas,
aos défices decompostos
em pose de artista teatral.

Chá,
um jornal,
paraíso artificial,
visão de mictório,
conforto instantâneo,
acontecimento que nos sucede,
viral,
esvoaçando numa espiral
neutral,
inócua, frugal,
como um comprimido de Melhoral.

Self-disclosure

Apologia da permanência.

Fica,
como quem foge
de uma fuga
esboçada em frente,
fica,
aqui,
feliz,
como quem resiste
ao fulgor previsível
de frases feitas,
um torso feminino desfeito,
um filho
que rejeita vínculos
a figuras fraternas
demarcadas no peito;
fica,
há corpos que não se interpretam,
além da insondável
cumplicidade dos grupos,
das desilusões jovens
de verdades completas,
inconstantes fariseias
que, na sua irrelevância,
comovem plateias,
fica,
farsa falsa,
irrelevante de ti,
que assim me deixas ficar.

It`s a outlier!

Calçado.

Nós,
testemunhas de uma história,
células incautas que instigam parábolas
perante o absurdo do mundo,
a factura do imaginário,
fogo fátuo descido à terra,
somos escolhas,
pátios de censura
do que nos limita
aquém e além,
e se afigura mais complicado,
pecados de assento solto,
pudor desenvolto,
estendais e marquises,
coisas miúdas, pequenas
que se afrontam com desdém.

Um viver em desalento
afrontado
por um desespero despudorado
que tudo toma
e impregna,
pés com sapatos trocados,
apertados,
assim houvesse chinelos,
a suspensão da acção,
do devir,
testemunha de uma outra história.

Tuesday, October 20, 2009

Self-disclosure

A matéria de Demócrito.

Consciência,
matéria em movimento
infinitamente descontínua,
torrente de imagens
em atropelo
de um universo
incompreensível,
escrito,
talvez,
numa letra parcialmente ilegível,
onde delegados
em hordas de
átomos eternos reunidos em reboliço,
como se ninguém tivesse
que ver com isso,
espaços em vazio
velam pela decadência
de uma massa anómica,
desconhecida,
que nos usurpa a atenção
em instantes breves,
um depósito de substância inerte,
galões enfermos,
átomos unidos na tépida fervura,
que assim se dão a conhecer
uns aos outros,
traçando caminhos ínvios
de vidas pessoais,
sentimentais,
de quem não se imagina molécula,
na afronta do sentido da realidade.

Sunday, October 18, 2009

Self-disclosure

Artwork: Keisuke Tanaka (2009)



O cultivo da inquietação
.

Na ânsia de futuro,
porque não olhamos só para a frente,
sentindo continuamente
o inferno submerso
da impossibilidade de um reverso,
um regresso,
apelo indomável de uma inquietação
que ao futuro pedimos,
promessa de um devir convexo,
melodia de fim de história
na qual tropeço,
um resíduo
que não
corresponde ao desígnio
que lhe peço.

It`s a outlier!

Dança de salão.

A ingratidão da memória,
e do que termina
ligeiramente mais cedo,
assevera a possibilidade de me poder
chamar aurélio,
e não me recordar,
por não ter chegado a tempo de o saber.

A recuperação de nomes,
uma obsessão,
é uma maleita postural da alma
face à realidade desbotada
em cinzento,
tonalidade da imolação
da carne rosada,
que se experimenta
em actos de vigília,
volteio, contrição,
arquétipo de uma dança de salão,
de mulheres,
deuses-arcanjo na terra,
com seus honorários,
ovários
contestatários,
futuro fértil
que se cria
para quem é delgado,
entoe harmonias
e possua calçado apropriado.

Assim que danço
depressa me canso,
deverá ser do que
calço
no encalço
de uma
democracia
quase instantânea,
sempre pronta a erguer
coisas que se vejam
e dancem.

Thursday, October 15, 2009

It`s a outlier!


Lápis-cinzel: Um estudo sobre a possibilidade de influência da realidade.

As relações
entre o conteúdo e o tempo
são, por vezes, no empalidecer,
configuração de especial interesse,
terreno
cuja pastoral importância
nunca nos é verdadeiramente dada a conhecer.

Palavra profetisa,
minha juíza,
verdade poetisa
em papel,
primeira
narrativa reflectida
no confronto de
moinhos,
barriga lisa
de vereadores recrutados,
heróis ciclopes desavindos,
na influência da realidade.

O conteúdo dos signos
é matéria esotérica
para o olhar comum,
lápis de percursos vetustos,
memórias turvas,
que cinzelam,
com asseio,
homenagens a autores de
conteúdos fidalgos,
que, na medula,
se revelam profundamente intestinos.

Longos lápis bastardos
que, na brava dança da influência da realidade,
nos vão atropelando a todos.

It`s a outlier!

Exemplo.

A título de exemplo,
uma ocorrência
particular,
uma vez,
um planalto singular
sucedeu agora mesmo,
sem legados de generalização.

Os exemplos que assim se tratam
a título de ocorrência,
são janelas de luz
que se abrem sobre as palavras
instaladas no real.

Os exemplos, como agora,
provocam acontecimentos em diálogos penosos,
pontos de fuga,
expiação da falta e do pecado,
desfilar
de horrores mundanos,
estados produtivos de insalubre
mundividência
que não se deixa catalogar.

Saturday, October 10, 2009

It`s a outlier!


artwork: Kreyol by Akatre Lab (2009)


O arremesso
.

É sempre assim em territórios de cultivo:

O arremesso do amor-bonomia
para um horizonte distante,
endereço de silêncio dorido,
equidistante,
sem recurso a transplante,
meridiano da urgência romântica,
uma invariante constante;
falando de banalidades,
um pudor que caminha
sozinho em cena,
se perpreta o alarve arremesso,
usando mapas
e pullovers em bico,
juntando água,
matéria de choro,
arrependimento
e circunstância,
quadros móveis,
vis horizontes distantes
do que não se vê,
palavras meias sugeridas,
armários gordos de meias
apartadas do que lhes interessa,
um desvio,
entorse de cerâmica fresca;

é sempre assim o arremesso
de matéria inerte, indefesa,
em territórios de cultivo.

Palavras de Cotrim

Omnisciência.


Que os pássaros se insurgem
lá fora,
com as condições de verdade,
já o sabemos,
como todas as outras coisas
que, pela sua natureza,
se esforçam por ocupar
o fugidio limbo da consciência
das pessoas que procuram a sombra,
destemidos fugitivos,
sem preocupações de geografia,
da crueldade de uma vida falhada,
longínqua infância castrada,
tempo avestruz,
a míngua de silêncio,
descendentes primogénitos,
omniscientes do seu útero,
relações entre cérebros,
contenção na possibilidade de existência.

Tuesday, October 06, 2009

It`s a outlier!


A Teoria dos Grandes Homens: Uma revisitação.


A meditação precoce
sobre um corpo plebeu
institui,
desde cedo,
um epicentro carnal
da cultura
sobre a gravidade que existe,
manifestação-evidência
de preconceitos
em quantidade,
e da possibilidade de haver
um pouco mais de tudo.

Há homens que,
assim se diz,
são grandes,
os homens, não os corpos,
invólucros de insuspeita contenção.

Um acréscimo ficcional,
convicções festivas
forjadas
na penumbra de um blastocisto,
corpos acreditados
de grandes homens,
que,
logo pela infância,
têm dúvidas e bolos de canela,
e encenam poses no adolescer.

Grandes homens,
que se fazem caros e raros
em auditórios encantados,
escolhendo ênfases
em coreografias decisivas,
signos que dispensam justificação,
e sofrem derrames
e
crónicas canónicas
no ocaso da existência
de seus imberbes corpos plebeus,
que nada fazem para
merecer semelhante trato.

Self-disclosure


Artwork: Dhooon by Erina Matsui (2002)



Tímpano.

Escutar,
primado poético
em formato minguante,
sintético alento
doméstico,
fracasso patético,
coisas vãs
que se assimilam
na desmesura
da entrega ao destino.

Rápido e súbito,
o assédio dos tempos escolhidos,
sublime
celebração da surdez,
felicidade,
um engodo da agonia,
elevação catastrófica do risível,
panelas ao lume,
um tímpano,
membrana-fantasma que redime
as agruras da decadência,
fronteira vaga,
fiel,
um acidente,
interlúdio
à espera de um erro
que se presta
a acontecer.

Trágica densidade
que escuta
tristezas sem objecto,
numa deriva sonâmbula
sem desespero,
limbos etéreos,
silêncios longos,
lugares vigorosos
à espreita
do infinitamente possível.

Um tímpano,
membrana que escuta
o terror de um
cerco constante,
e nós,
indefesos,
também.