Tuesday, May 26, 2009

Self-disclosure

Engenheira (em 4 actos).

No seu quadril
repousam delicados segredos do mundo.
Por vezes, também,
gatos e uma manta.
Mas os gatos fogem, narcisos,
e os quadris, cândidos,
não foram feitos para isso.

Pão do dia.
Pão com côdea.
Fiambre, do normal.
Sumo em pó, para a azia.
Água por somar.
Não está mal
O pão é d`hoje e cheira a queijo,
Nestes dias, é assim que vejo
o rendimento de inserção.

A Maria vai-com-todas,
porque nada tem que fazer.
Uma flor
disponível e transparente,
Que assim se dá a cheirar
Um dia
Ainda vai murchar.

Tristes aqueles
Que tudo buscam para ontem.
A vogal, consoante
o deferimento
é lugar de imposto singular
um rendimento,
lento padecimento,
prazer sem efeito a registar.

O já, imperativo roliço,
é o novo refrão.

Um dia, à descendência
chamarei Engenheira

só para arrepiar caminho
na Loja do Cidadão.


Um dia, a Engenheira
fará as coisas sempre até ao fim.
Um dia, não haverá fim
para as coisas
que ela terá de fazer.

Saturday, May 16, 2009

Tautologia no gira-discos: #023


Pequenas peças de contenção franciscana - sem cenografia ou adereços - ecoam no velho gira-discos, deixando a quem as ouve, no seu pulsar encantatório, o trabalho de atar as pontas.

Num tempo estético onde a energia, a intensidade e o culto da superfície aparentam ter substituído a parcimónia, a elegância e a economia de meios no ideário das músicas feitas para ouvir e dançar, minuciosas cadências em câmara lenta preenchem o silêncio. Protocolo à parte, desta fruta repetimos sempre:

Zwicker - Songs for Lucid Dreams LP (Compost Black Label)
Junior Boys - Begone Dull Care LP (Domino)
Selected works from Permanent Vacation LP (Permanent Vacation)
Steve Bug - Collaboratory LP (Pokerflat)
NightDubbin`LP (DFP & Idjut Boys) (BBE)
Break SL - Citywasteland LP (Philpot)



Self-disclosure

Interregno.

O mundo, pelo que se vê, estará, talvez, em intervalo.

Dos apetites de Berlusconi, às viagens secretas de Jardim, passando pelas incólumes façanhas de Loureiro, e
pelo apelo mediático aparentemente inesgotável da figura de Obama,
Gente há que aparenta viver no seu próprio jardim-de-infância.

Estar vivo, é hoje, um exercício lúgubre, mais violento, virulento para o Homem-médio.

Até um milhão na conta do erário partidário, não conta, pelo que se atesta.
E mais uns milhares bastarão para repôr zelosas Ildas,
gente boa que se quer no umbigo burocrático da federação-europa.

BPN. Lopes da Mota. BPP.
Maizena.

Assim se vê, um mundo em intervalo.

Os infinitos pessoais são reduzidos.
A ignorância é normalizada, banalizada.
Quase todo o diálogo é pose, é evento, é performance.
Turpor. Muito perfeito, aborrecido, dispensável.

Será, talvez, um caso de saliência na percepção. Uma hipérbole mediática.
Para conselhos e orientação, valha-nos o Borda d´Água.

Como diria Nelson Rodrigues, a alegria continua a ser um estado leviano,
a consumir e encarnar, acrescentamos, com particular decoro e moderação.

Palavras de Cotrim

Normopatia.

Pretender previsibilidade e constância para a existência é pedir demais à inocência.
(nota: não utilizar como motivo em diatribes de café, no caso do interlocutor possuir um vínculo laboral com uma entidade pública)

Palavras de Cotrim

Vulnerabilidade.

Um estado primordial para o desenvolvimento artístico.
O criador deve construir a sua casa sempre à beira do abismo.
Uma condição a ser experimentada, talvez, por outras classes que visam o desenvolvimento, seja ele de que espécie for.