Artwork: Fala bonito (Starjammers, 2025).
Emojis, migalhas de bolo.
A letra impressa já não ocupa o lugar que lhe coube no século XIX. Desde os anos de 1960, o seu relevo tem vindo a ser deslocado pelos preceitos da imagem e pela lógica da digitalidade, que instauram uma ecologia comunicacional pós‑literária, pós- ou para‑textual, onde o texto já não constitui o fulcro, apenas um dos modos possíveis de inscrição de um agora designado conteúdo de comunicação.
A letra impressa já não ocupa o lugar que lhe coube no século XIX. Desde os anos de 1960, o seu relevo tem vindo a ser deslocado pelos preceitos da imagem e pela lógica da digitalidade, que instauram uma ecologia comunicacional pós‑literária, pós- ou para‑textual, onde o texto já não constitui o fulcro, apenas um dos modos possíveis de inscrição de um agora designado conteúdo de comunicação.
Marshall McLuhan e Bruce Powers, em 1992 ('The Global Village: Transformations in world life and media in the 21st century'), anteciparam esta mutação ao falarem da retribalização de uma aldeia global enquanto retorno ao sentido tribal da polifonia, a um sincretismo de vozes que se sobrepõem como um coro em torno de uma fogueira invisível. A comunicação digital, ubíqua tem vindo a intensificar este efeito coral, dissolvendo fronteiras entre emissor e receptor, entre voz e eco, entre intenção e reverberação.
É neste cenário que o emoji emerge como figura paradigmática, condensando vários traços da pragmática comunicacional contemporânea: a velocidade, o imediato, a voracidade do clique, o assombro da instantaneidade. Um emoji dura quanto tempo? Ler - 'legere', no sentido de escolher, colher, recolher - exige, implica tempo. O emoji opera na lógica do impacto instantâneo, sem sequência, sem demora, sem o intervalo necessário à sedimentação do sentido.
A comunicação digital privilegia a compressão e o sincretismo multimodal, a amálgama que tudo reduz a gestos uniformes, mínimos. As possibilidades de expressão tendem à taylorização, como se cada sujeito fosse apenas mais um operador de um repertório pré‑definido. A ecovocalidade torna‑se dominante: o eco importa mais do que a voz. O que circula não é tanto a intenção autoral, mas a reverberação social, o share, o retweet, a repetição que substitui a emissão. Daí a pergunta: um emoji é ainda uma voz, portadora de conteúdo e intenção, ou é apenas eco, um resíduo protésico de expressão, desprovido de progenia, que se propaga como migalhas de um bolo?
Juan Villoro ('No soy un robot', 2024) identifica, entre os desafios culturais contemporâneos, a proliferação do multímodo, a possibilidade de combinar formas de comunicação que antes eram estanques. Outro desafio, porventura ainda mais sensível, é a possibilidade de fazer sentido a partir de um fragmento. A cultura digital exige que articulemos migalhas, que hierarquizemos uma miríade de partes desprovidas de um horizonte de integração evidente. Um novo primitivismo emerge: a leitura aos saltos, o ziguezague, a dispersão, a quebra da sequencialidade. A comunicação prossegue por entre lacunas de compreensão, o sentido sempre tangencial, sempre provisório.
Jacques Rancière, no seu 'La parole muette'/'O livro aos pedaços' (1998) lembra que um fragmento não é uma ruína. A migalha não é o bolo, mas também não é o seu fim. Talvez seja este o modus operandi do emoji: não um resto empobrecido da linguagem, mas sim uma unidade mínima na ecologia comunicacional contemporânea, onde o sentido se constrói por aproximação, por via de ecos, de justaposição.

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