Friday, January 23, 2026

Wednesday, January 21, 2026

Palavras de Cotrim.

Autoria.




Designação atribuída,
nos idos dos séculos XIX e XX,

a uma síntese pessoal
do pensamento


(e da história).

Tuesday, January 20, 2026

It's an outlier!

 


Artwork: Work in progress (Starjammers, 2026).




Écran, treva banca.




O écran tornou‑se o ambiente dominante de relação com o mundo: uma membrana-superfície luminosa que se oferece como transparência, produzindo, em simultâneo, uma opacidade de contorno inaudito - uma treva branca. 

A digitalidade constitui um operador decisivo desta transformação, na medida em que os media digitais, ao expandirem o espaço disponível para o estabelecimento de relações sociais, a consumam de modo parcelar, fragmentário. Recriam, de forma subtil e invisível, um espaço de convivência e escolhas que parece ilimitado, mas que é, sobretudo, mais uma instância de contacto do que oportunidade de comunhão, um espaço de simultaneidade cacofónica, de solipsismo ruidoso, onde a ânsia de reconhecimento e validação se converte em solidão monitorizada, e a multiplicidade aparente de escolhas oculta uma gramática de repetição.

Vivemos num quadro sociocultural marcado pela ubiquidade de possibilidades de inscrição de informação: tudo pode ser registado, partilhado, arquivado, tudo tudo é, em paralelo, evanescente. O clique voraz, o deslizar infinito do dedo no écran apresentam-se como gestos paradigmáticos, elemento motriz nesta economia espectral. Cada imagem irrompe para de pronto desaparecer, cada frase aparece para ser substituída, cada presença é apenas promessa de uma outra presença por vir. A condição humana, (hiper)mediada por écrans, aproxima‑se de modos de existir tecidos a partir de um acumular de sombras, vestígios, de ecos de ecos, de reverberação incessante, que marcam uma distância em relação ao que poderia ser elemento substantivo da experiência do presente. Somos, de certo modo, neo‑escravos de um mundo de sombras, como na alegoria de Platão, mas desta vez por vontade própria, fascinados pela cintilação da luz que é tomada por realidade. 

O sujeito encontra‑se imerso numa hipertrofia de imagens e significantes, onde o signo, o sentido, o sema, se encontram em débito permanente. É o apogeu do simulacro, da estereotipia, da fraseologia oca, do que César Aira designa de 'mudez do êxtase': uma abundância que empobrece, hifenizando a presença, tornando a existência e a participação na esfera pública furtiva. O pós‑humano delimita, neste sentido, a coexistência com máquinas dotadas de variações de inteligência, e a possibilidade do humano ser progressivamente substituído por um mecanismo, de se encontrar palavras em circulação destituídas de sujeito, operações sem testemunho, um débito de falas na primeira pessoa.

O ícone, elemento mínimo do contacto digital, condensa esta lógica, remetendo e representando uma operação: convoca informação, controla a percepção, orienta o comportamento. É um signo que reduz o mundo a uma função, a memória que nele se inscreve não é memória do vivido, mas sim memória de um sistema de informação.

A treva branca dos écrans situa-se, deste modo, além de uma condição técnica, descrevendo uma condição existencial contemporânea, redefinindo o modo como o sujeito se inscreve no mundo. A luz que emana dos dispositivos evoca a possibilidade, aparentemente infinita, de se proceder a uma sua substituição contínua, apresentando o meio digital enquanto motor imóvel. A treva branca apresenta o excesso de luz, nestes termos, como condição de putativa privação na existência humana. 

Tuesday, January 13, 2026

It's an outlier!

Quarenta.





ante o excesso inebriante,

a verdade
daqueles que têm pouco
(e riem):


o rosto aceso do pescador
ao receber a graça do rio,

a cisma do lavrador
com o aprumo dos carreiros,

o almoço do trolha
num andaime,
a quarenta metros de altura.

It's an outlier!

Proposta de anúncio para a promoção da região do baixo mondego.





onde 
a paz do arroz 

inebria.

It's an outlier!



Artwork: Fala bonito (Starjammers, 2025).





Emojis, migalhas de bolo.



A letra impressa já não ocupa o lugar que lhe coube no século XIX. Desde os anos de 1960, o seu relevo tem sido deslocado pelos preceitos da imagem e pela lógica da digitalidade, que instauram uma ecologia comunicacional pós‑literária, pós ou para‑textual, onde o texto constitui um modo possível, entre outros, de inscrição de um agora designado conteúdo de comunicação.

Em 1992, Marshall McLuhan e Bruce Powers anteciparam esta mutação ao falarem da retribalização de uma aldeia global (('The Global Village: Transformations in world life and media in the 21st century') enquanto possibilidade de retorno ao sentido tribal da polifonia, a um sincretismo de vozes que se sobrepõem como um coro em torno de uma fogueira invisível. A comunicação digital, ubíqua, tem vindo a intensificar este efeito coral, dissolvendo fronteiras entre emissor e receptor, entre voz e eco, entre intenção e reverberação.

É neste cenário que o emoji emerge como figura exemplar, prototípica, condensando diferentes traços da pragmática comunicacional contemporânea: a velocidade, o imediato, a voracidade, o assombro da instantaneidade. Um emoji dura quanto tempo? Ler - 'legere', no sentido de escolher, colher, recolher - exige, implica tempo. O emoji opera na lógica do impacto instantâneo, sem sequência, sem demora, sem o intervalo necessário à sedimentação do sentido.

A comunicação digital privilegia a compressão e o sincretismo multimodal, a amálgama que tudo reduz a gestos uniformes, mínimos. A expressão tende à taylorização, como se cada sujeito fosse apenas um operador de um repertório pré‑definido. A ecovocalidade torna‑se dominante: o eco importa mais do que a voz. O que circula não é tanto a intenção autoral, mas sim a reverberação social, o share, o retweet, a repetição que substitui a emissão. Daí a pergunta: um emoji é ainda uma voz, portadora de conteúdo e intenção, ou é apenas eco, um resíduo protésico de expressão, desprovido de progenia, que se propaga como migalhas de um bolo?

Juan Villoro ('No soy un robot', 2024) identifica, entre os desafios culturais contemporâneos, a proliferação do multímodo, a possibilidade de combinar formas de comunicação que antes eram estanques. Outro desafio, porventura ainda mais sensível, é a possibilidade de fazer sentido a partir de um fragmento. A cultura digital exige que articulemos migalhas, que hierarquizemos uma miríade de partes desprovidas de um horizonte de integração evidente. Um novo primitivismo emerge: a leitura aos saltos, o ziguezague, a dispersão, a quebra da sequencialidade. A comunicação prossegue por entre lacunas de compreensão, o sentido sempre tangencial, sempre provisório.

Jacques Rancière, no seu 'La parole muette'/'O livro aos pedaços' (1998) lembra que um fragmento não é uma ruína. A migalha não é o bolo, mas também não é o seu fim. Talvez seja este o modus operandi do emoji: uma unidade mínima na ecologia comunicacional contemporânea, onde o sentido se constrói por aproximação, por via de ecos, de justaposição, de reverberação.

Tuesday, January 06, 2026

Self-disclosure.


Artwork: Fractal
(source: unknown, 2025).






Ver, ser visto.




há um outro naquele que sou.

um pouco antes de mim,
este outro entre outros
dá-se a ver,


diz-me a alegria de um sim,
diz-me que não estou a sós.

It's an outlier!


Artwork: Menor
(source: unknown, 2025).





Não conformidade.






De acordo com Susan Sontag, o humano terá começado no momento em que o corpo - o corpo próprio, o corpo do outro - se tornou um problema.

Problema em sentido forte, exigente de interpretação, cuidado, decisão: antes deste limiar, o corpo não era ainda uma questão, constituindo apenas um acontecimento da natureza, tão próximo e evidente como o alternar da noite com o dia.

No horizonte pré-histórico, a ausência de ritos funerários estruturados reforça o sentido indicado: o corpo morto não convocava ainda uma economia simbólica, não exigia escolhas, não instaurava dilemas. A morte era um facto, não um acontecimento carente de mediação.

Maurice Merleau-Ponty ajuda a aprofundar a compreensão desta mudança cultural, ao sugerir que é pela vulnerabilidade do corpo que o mundo se acende, definindo-se não como um objecto entre objectos, mas sim enquanto condição de possibilidade de se ser tocado pelos outros, pelo mundo.

A noção de um corpo digno define, nestes termos, uma conquista recente na história da cultura humana. A dignidade do corpo não deriva da sua excepcionalidade, mas sim da sua exposição ao mundo, da possibilidade de ser tocado, ferido, de com ou a partir dele se poder fundar o comum. E é desta possibilidade, tão relevante quanto frágil, que decorre, inciso, um sentido de dignidade: não como tremor ou acidente, mas sim como lugar de fundamento.

Possivelmente atendendo ao exposto, a agência funerária servilusa informou, em comunicado recente, terem sido observadas 'zero não conformidades' em cinco normas que certificam a 'excelência' da sua actividade, plasmada em serviços como 'chamadas de conforto', 'in arboriam' (uma árvore por evento fúnebre) ou a transmissão online de um funeral. 


No ano de 2025, a agência servilusa realizou mais de 6800 funerais e 8800 cremações, um serviço em crescendo, é indicado, para benefício e alívio dos cemitérios. A agência opera diferentes centros funerários a nível nacional: em 2024, anunciou a construção do futuro centro funerário da maia, com projecto de arquitectura de souto de moura.

No momento do anúncio, foram indicadas como distintivas, a existência de tarifas competitivas e a capacidade de concretização de 800 cremações por ano.

Saturday, December 06, 2025

It's an outlier!


Artwork: KLF_what time is love (Starjammers, 2025).







PCP.



o mar,
sempre o mar,

operário da distância.

Monday, November 10, 2025

It's an outlier!

Latifúndio de seu natural.






a eternidade 
dura muito tempo:





augúrio

que favorece
os acontecimentos

e o inevitável.

Friday, November 07, 2025

Palavras de Cotrim.

Defesa nacional.






duzentos
trezentos
inimigos:

uns à mesa
outros à porta,

esquecidos 
no pequeno
ar da boca:


um frio de uvas
que garante tropas.

Tuesday, October 28, 2025

Palavras de Cotrim.

Negociação (uma definição breve).





fazer um
com o outro,


tomar
a osmose
como
propícia.