O écran tornou‑se o ambiente dominante de relação com o mundo: uma membrana-superfície luminosa que se oferece como transparência, produzindo, em simultâneo, uma opacidade de contorno inaudito - uma treva branca.
A digitalidade constitui um operador decisivo desta transformação, na medida em que os media digitais, ao expandirem o espaço disponível para o estabelecimento de relações sociais, a consumam de modo parcelar, fragmentário. Recriam, de forma subtil e invisível, um espaço de convivência e escolhas que parece ilimitado, mas que é, sobretudo, mais uma instância de contacto do que oportunidade de comunhão, um espaço de simultaneidade cacofónica, de solipsismo ruidoso, onde a ânsia de reconhecimento e validação se converte em solidão monitorizada, e a multiplicidade aparente de escolhas oculta uma gramática de repetição.
Vivemos num quadro sociocultural marcado pela ubiquidade de possibilidades de inscrição de informação: tudo pode ser registado, partilhado, arquivado, tudo tudo é, em paralelo, evanescente. O clique voraz, o deslizar infinito do dedo no écran apresentam-se como gestos paradigmáticos, elemento motriz nesta economia espectral. Cada imagem irrompe para de pronto desaparecer, cada frase aparece para ser substituída, cada presença é apenas promessa de uma outra presença por vir. A condição humana, (hiper)mediada por écrans, aproxima‑se de modos de existir tecidos a partir de um acumular de sombras, vestígios, de ecos de ecos, de reverberação incessante, que marcam uma distância em relação ao que poderia ser elemento substantivo da experiência do presente. Somos, de certo modo, neo‑escravos de um mundo de sombras, como na alegoria de Platão, mas desta vez por vontade própria, fascinados pela cintilação da luz que é tomada por realidade.
O sujeito encontra‑se imerso numa hipertrofia de imagens e significantes, onde o signo, o sentido, o sema, se encontram em débito permanente. É o apogeu do simulacro, da estereotipia, da fraseologia oca, do que César Aira designa de 'mudez do êxtase': uma abundância que empobrece, hifenizando a presença, tornando a existência e a participação na esfera pública furtiva. O pós‑humano delimita, neste sentido, a coexistência com máquinas dotadas de variações de inteligência, e a possibilidade do humano ser progressivamente substituído por um mecanismo, de se encontrar palavras em circulação destituídas de sujeito, operações sem testemunho, um débito de falas na primeira pessoa.
O ícone, elemento mínimo do contacto digital, condensa esta lógica, remetendo e representando uma operação: convoca informação, controla a percepção, orienta o comportamento. É um signo que reduz o mundo a uma função, a memória que nele se inscreve não é memória do vivido, mas sim memória de um sistema de informação.
A treva branca dos écrans situa-se, deste modo, além de uma condição técnica, descrevendo uma condição existencial contemporânea, redefinindo o modo como o sujeito se inscreve no mundo. A luz que emana dos dispositivos evoca a possibilidade, aparentemente infinita, de se proceder a uma sua substituição contínua, apresentando o meio digital enquanto motor imóvel. A treva branca apresenta o excesso de luz, nestes termos, como condição de putativa privação na existência humana.