Tuesday, January 20, 2026

It's an outlier!

 


Artwork: Work in progress (Starjammers, 2026).




Écran, treva banca.


O écran tornou‑se a superfície dominante da experiência humana contemporânea, uma membrana luminosa que promete transparência mas que, paradoxalmente, produz uma nova forma de opacidade: uma treva branca.

A digitalidade constitui um operador decisivo desta transformação, na medida que os media digitais, ao expandirem o espaço disponível para o estabelecimento de relações sociais, a consumam de modo fragmentário. Recriam, de forma subtil e invisível, um espaço de convivência e escolhas que parece ilimitado, mas que é, na verdade, um espaço de contacto, não de comunhão, um espaco de simultaneidade cacofónica, de solipsismo ruidoso, onde a ânsia de reconhecimento e validação se converte em solidão monitorizada, e a multiplicidade aparente de escolhas oculta uma gramática de repetição.

Vivemos num quadro sociocultural marcado pela ubiquidade de possibilidades de inscrição de informação: tudo pode ser registado, partilhado, arquivado, mas tudo é, em simultâneo, evanescente. O deslizar infinito do dedo no écran é o gesto paradigmático desta economia espectral: voraz, fugaz, incessante. Cada imagem surge para desaparecer, cada frase aparece para ser substituída, cada presença é apenas promessa de uma outra presença por vir.

A condição humana, (hiper)mediada por écrans, aproxima‑se de modos de existir tecidos a partir de um acumular de sombras, vestígios, de ecos de ecos, de reverberação incessante, que marcam uma distância em relação ao que poderia ser elemento substantivo da experiência do presente. Somos, de certo modo, neo‑escravos de um mundo de sombras, como na alegoria de Platão, mas agora voluntários, fascinados pela cintilação da luz que tomamos por realidade. 

O sujeito encontra‑se imerso numa hipertrofia de imagens e significantes, onde o signo, o sentido e o sema estão em débito permanente. É o apogeu do simulacro, da estereotipia, da fraseologia oca, do que que César Aira denominou de 'mudez do êxtase': uma abundância que empobrece, uma saturação que paralisa, hifenizando a presença, tornando a existência furtiva. O pós‑humano não delimita apenas, neste sentido, a coexistência com máquinas dotadas de variações de inteligência, mas também a possibilidade do humano ser progressivamente substituído por um mecanismo, de se encontrar palavras em circulação destituídas de sujeito, operações sem testemunho, um débito de falas na primeira pessoa.

O ícone, elemento mínimo do contacto digital, condensa esta lógica, não remetendo para uma pertença, uma memória partilhada, um gesto de aproximação ao outro. O ícone representa uma operação: convoca informação, controla a percepção, orienta o comportamento. É um signo que reduz o mundo a uma função, a memória que nele se inscreve não é memória do vivido, mas sim memória de um sistema de informação. O ícone é o contrário do símbolo: não liga, não funda, não reúne - activa, apenas.

A treva branca dos écrans não diz respeito apenas, nestes termos, a uma condição técnica, mas também a uma condição existencial contemporânea, redefinindo o modo como o sujeito se inscreve no mundo. A luz que emana dos dispositivos não ilumina o real, mas sim a possibilidade de proceder à sua substituição contínua: trata-se de uma luz sem mundo. A treva branca apresenta o excesso de luz, deste modo, como condição de privação na existência humana. 

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