Saturday, July 24, 2021

Self-disclosure.


Artwork: Estado da Nação (Julho de 2021).





Estado da Nação.



Foi dito como um grande sucesso, o que naquele dia ao longe, no púlpito, foi dito na assembleia.


Uma multidão de gente, grandezas de reino, abundância de fazendas.


Gente entretida a compôr o futuro, a sonhar com dentes brancos, com armários de parede inteira. Gente atestada de povo, a manobrar no microfone o prodigioso instrumento da língua. Gente a dizer coisas que aprendeu um dia a dizer, coisas em forma de coisa, sem tempo, imperecíveis: inovação, qualificação, Estado, serviços, resiliência.


Na assembleia, não faltaram, no correr do dia, as missas, os apelos, promessas de cisnes, de casas e vento largo, de novos tempos e conquistas épicas. Ouviu-se uma sucessão de rezas, de números, em relação à fortuna da nação que se avista: enredos distantes, um cálculo esperto de milhões, de malvas, de insígnias. Ouviu-se, enfim, um destino por cumprir, estrela de cinza perdida nos séculos: um pouco de mar, um pouco de verde, uma expiração azulada, uma lâmpada.


Uns e outros representam óptimos o papel de escolhidos talhados para grandezas. Na assembleia, renova-se, no correr do dia, a verdade, o sortido de queixos, para benefício do olho da clientela. À boca da noite, carros pretos saem para o viaduto em frente. Lá dentro, com as luzes acesas, homens e mulheres comentam as filas, os tamanhos do corpo, as férias. Nas varandas da assembleia, os partidos ainda presentes dão-se em triunfo, enquanto olham a relva. "Está feito", ouve-se, com uma dicção precisa. 

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