Tuesday, May 22, 2007

Tautologia no gira-discos:#013

Há quem prefira música-pavão, impositiva, gorda de ornamento.
Há quem prefira música-neutrão, esquelética, asceta, esticada até junto ao silêncio.
Há quem também prefira o silêncio, música cujo apelo de conforto é tantas vezes irresistível.
À medida que nos vai faltando o adorno capilar, cresce, em alternativa, a adoração do silêncio.
A ideia de ponderação no uso dos recursos. O silêncio no centro do processo criativo - a essência que apenas vem à superfície, para assumir o comando pontual da acção. Alguns restos de clarividência, enquanto nos sobra adorno capilar:

Afrilounge - Wasser und sonne (8bit Recordings promo)
Holger Zilske - Enduro Disco EP (Leena Recordings 01)
Cassy - Somelightintothenight (Beat Street Berlin Recordings 01)
Luciano - Fourges and sabres EP (Perlon Recordings 062)
Henry & Denis - Catabolism (Efdemin version) (Dessous Recordings 070)
Argenis Brito - Micro Mundo LP (Cadenza Recordings 016)
Agnes - Things recur (Quarion version) (Resopal Red Recordings 012)
Anthony Collins & Paul Ritch - Waldorf (Get Physical Recordings 067)
Terre Thaemlitz - You again (Locodice & Shinedoe versions) (Mule Electronic Recordings 031)

Palavras de Cotrim

Género.

O género é, num punhado de termos, o parente afastado do sexo, ao operar no contexto social como classificador (de diferenças) dos indivíduos, um lugar de inscrição e legimitação de relações de subordinação e desqualificação (social e simbólica).
A assimetria de género é assunto sobre o qual já se verteu boa e apaixonada tinta; trata-se, contudo, de uma quantidade de líquido ainda insuficiente, dada a prevalência de modos seculares de pensar o homem e a mulher que sustentam a marginalização histórica do universo feminino, e o remetem para uma esfera de invisibilidade. Neste quadro, a visão de supremacia masculina associa-se, enquanto fenómeno psicológico e social, a uma estrutura psíquica de tipo autoritário, e a uma tipologia de organização social que premeia, enfatizando, a heterossexualidade monogâmica como ideal de gestão do corpo e dos afectos.
Por esta e outras evidências, gostaríamos de ser um pai de filhas. Tanto mais que os meninos suam muito nos recreios, e comem muito pão com marmelada.

Saturday, May 12, 2007

Self-disclosure

«As artes não são uma maneira de ganhar a vida. São um modo muito humano de tornar a vida mais suportável. (...) Praticar uma arte, não importa se muito bem ou muito mal, é uma maneira de fazer crescer a alma. (...) Escrevam um poema a um amigo, mesmo que seja um péssimo poema. Façam-no tão bem como vos é humanamente possível. Terão criado alguma coisa
(Vonnegut, Kurt, Um Homem Sem Pátria, Lisboa. Tinta-da-China, 2006)

um poema. um amigo.
senhor António, venha-nos pastorear.
livre-nos do tédio, do assédio, deste estranho pavonear.
hoje vi
senhoras altas que contavam histórias
palavrosas, estreitas, mas muito finas,
com metáforas redundantes,
quase-tolas, umas rôlas-meretrizes,
papo-secos de mal-estar.

senhor António, livre-nos do tédio, do assédio,
deste estranho pavonear.
hoje vi
papagaios sem cabeça.
enfureci
e emudeci
argonautas de pastelaria.
com muitas
bocas feitas de emprestada relevância.
senhor António,
hoje vi-o a si
Ia seco. tísico.
entoando histórias
quase-tolas,
completos papo-secos de mal-estar.
senhor António,
doravante, não mais o envocarei.
Nada sucedeu a este estranho pavonear.
Falarei, antes, com o senhor vereador.
Do senhor vereador sei o que posso esperar.
Para o Ricardo Nunes "Clarim",
com regojizo pela reconquista de verticalidade.