Wednesday, February 21, 2007

Bibliofilias

Da passagem inexorável dos dias, retalhos de um tempo passado no esgoto dos sonhos.
Os termos originais são do irremediavelmente contentinho O´Neill.
A edição é da nossa autoria:

"Há dias que eu odeio
como insultos a que não posso responder
Sem o perigo duma cruel intimidade
Como a mão que lança o pus
Que trabalha ao serviço da infecção

São dias que nunca deviam ter saído
Do mau tempo fixo
Que nos desafia da parede

Dias do dia-a-dia
Comboios que trazem o sono a resmungar para o trabalho
O sono centenário
Mal vestido mal alimentado
Para o trabalho
A martelada na cabeça

Dias que passei no esgoto dos sonhos
Onde o sórdido dá as mãos ao sublime
Onde vi o necessário
Onde aprendi
Que só entre os homens e por eles
Vale a pena sonhar."

(Alexandre O'Neill, in O tempo sujo, s/d)

Tuesday, February 06, 2007

It`s a outlier!


Em busca de quem faz diferente, fazendo-o sem pretensão de pertença a grupos congenitamente iluminados, apresentamos exercícios de língua portuguesa datados do início do século XX.

Trata-se de uma versão abreviada do original, mantendo, contudo, o engenho e o potencial lúdico aí decantado:

Mima – Fataxa:
Sintonia cosmopolita e apologia do triângulo feminino

[Starjammers edit]

Zomba
Mofa
E tine
A pandeireta bamba no cotovelo roto.

Ser pornográfico às escondidas:
Segredos que fazem corar.

Zomba
Tine
E ralha
A pandeireta choca,
Zomba
Zune
E tine
A pandeireta bamba,
Cacimba
Na pandeireta lata.

Zebras paradas em alfineteiras.
Cavalgada húngara desabotoada
Toilette-método prà Conquista!

A pandeireta russa.
Mona Lisa.
A pandeireta zinco.
Cacimba-Acetilene.
A pandeireta-lata de Andaluzia
Pra ir ao ar
Ou i ou ai
Não penses, Esfinge!

Gomos de laranja a baloiçar no Cavalo de Tróia.
Afilam-se pandeiros em estrondos d´aço e dinamite.
- Solo há verdade no oboé
.”

(José de Almada Negreiros, in Portugal Futurista, 1, 1917)

Palavras de Cotrim


Xadrez.

O trabalho, apresentado em regime de anódina organização do tipo empresarial, pode ser visto como o produto de um jogo de xadrez.
Tendendo um sistema organizado, por acréscimo de entropia, para a contínua desestabilização (daí a importância do exercício quotidiano da gerência e da gestão), a finalidade última do jogo empresarial é a derrota de um "rei", um director, administrador ou presidente, que, mesmo acossado (por maus resultados, injúrias e atestados populares de sofrível competência), só pode mover-se uma casa de cada vez; atendendo à fragilidade das suas circunstâncias, o “rei” faz-se rodear, em jeito de protecção, de uma rainha frenética, que se movimenta em todas as direcções (ou seja, uma secretária ubíqua e pluripotente), de bispos enigmáticos, de movimentos oblíquos, equiparáveis aos modos de negociação esguia próprios de uma fileira de aculturados assessores, e de torres seguras, directores que efectuam pretensa passada certa em movimentos perpendiculares.
Com uma peonagem medieval (e operacional) que avança (produzindo) cegamente, diminuta e restritiva que é a sua possibilidade de intervenção no jogo da organização do trabalho, a arma mais viável do "rei" é a sua cavalaria, ou seja, o seu batalhão de inquietos e muito móveis gestores executivos, que, usando indumentária de recorte burguês, trata da tradução operativa da visão sebastiânica de um “rei” castrado na sua possibilidade de movimentação.

Com tudo isto, que nem parece muito, um “rei” que não se afasta do seu trono mais do que um passo de cada vez, pode, em minutos ou em horas, urdir uma trama de movimentos capazes de aniquilar o adversário, ou, em surto de fagocitose, decompôr a sua frota de zelosos e inquietos cavaleiros engravatados.

Monday, February 05, 2007

Palavras de Cotrim

Calçadeira.

Do país-Portugal, Pacheco Pereira e Pereira Coutinho sublinham o arrepio que lhes provoca os termos insanos aplicados no tratamento (aparentemente infindável) do "debate" público relativo à interrupção da gravidez; em seu turno e noutro púlpito de enunciação de verdades inteiras, Pulido Valente apresenta o país-Portugal como um país rural, que, apesar de nunca se ter industrializado, se extasia perante objectos culturais subsidiados, subsistindo à custa da imitação e da adopção das "melhores práticas" de terceiros; Eduardo Lourenço, na candura romântica e novecentista que lhe é oferecida pela vivência do quotidiano de Paris, enquadra o país-Portugal como um universo de peripécias, onde a elegia do "dramático" e das relações humanas descose as hierarquias e reduz tudo à dimensão de uma aldeia.
Não querendo subtrair mérito ao foco da análise de tão ilustres comentadores, consideramos agora, após escuta atenta dos alvitres do ministro Pinho, que o mesmo peca por enviesamento.
Pinho, o ministro, de férias (certamente merecidas) em Portugal, enquanto não regressa aos bancos escolares norte-americanos, fala-nos de um Portugal-calçadeira, figura de mediação de negócios alheios. Trata-se de apresentação enxuta (e não menos exacta) e de potencial expressivo assinalável, uma expressão feliz: sendo o país-Portugal-calçadeira, um país feito a partir de arranjos e "jeitinhos", deve aproveitar-se a proficiência adquirida por longa prática na arte de melhor "calçar" o outro (e o próprio), investindo-se na internacionalização de tão apurada competência.