Tuesday, January 13, 2026

It's an outlier!

Quarenta.





ante o excesso inebriante,

a verdade
daqueles que têm pouco
(e riem):


o rosto aceso do pescador
ao receber a graça do rio,

a cisma do lavrador
com o aprumo dos carreiros,

o almoço do trolha
num andaime,
a quarenta metros de altura.

It's an outlier!

Proposta de anúncio para a promoção da região do baixo mondego.





onde 
a paz do arroz 

inebria.

It's an outlier!



Artwork: Fala bonito (Starjammers, 2025).





Emojis, migalhas de bolo.



A letra impressa já não ocupa o lugar que lhe coube no século XIX. Desde os anos de 1960, o seu relevo tem vindo a ser deslocado pelos preceitos da imagem e pela lógica da digitalidade, que instauram uma ecologia comunicacional pós‑literária, pós- ou para‑textual, onde o texto já não constitui o fulcro, apenas um dos modos possíveis de inscrição de um agora designado conteúdo de comunicação.

Marshall McLuhan e Bruce Powers, em 1992 ('The Global Village: Transformations in world life and media in the 21st century'), anteciparam esta mutação ao falarem da retribalização de uma aldeia global enquanto retorno ao sentido tribal da polifonia, a um sincretismo de vozes que se sobrepõem como um coro em torno de uma fogueira invisível. A comunicação digital, ubíqua tem vindo a intensificar este efeito coral, dissolvendo fronteiras entre emissor e receptor, entre voz e eco, entre intenção e reverberação.

É neste cenário que o emoji emerge como figura paradigmática, condensando vários traços da pragmática comunicacional contemporânea: a velocidade, o imediato, a voracidade do clique, o assombro da instantaneidade. Um emoji dura quanto tempo? Ler - 'legere', no sentido de escolher, colher, recolher - exige, implica tempo. O emoji opera na lógica do impacto instantâneo, sem sequência, sem demora, sem o intervalo necessário à sedimentação do sentido.

A comunicação digital privilegia a compressão e o sincretismo multimodal, a amálgama que tudo reduz a gestos uniformes, mínimos. As possibilidades de expressão tendem à taylorização, como se cada sujeito fosse apenas mais um operador de um repertório pré‑definido. A ecovocalidade torna‑se dominante: o eco importa mais do que a voz. O que circula não é tanto a intenção autoral, mas a reverberação social, o share, o retweet, a repetição que substitui a emissão. Daí a pergunta: um emoji é ainda uma voz, portadora de conteúdo e intenção, ou é apenas eco, um resíduo protésico de expressão, desprovido de progenia, que se propaga como migalhas de um bolo?

Juan Villoro ('No soy un robot', 2024) identifica, entre os desafios culturais contemporâneos, a proliferação do multímodo, a possibilidade de combinar formas de comunicação que antes eram estanques. Outro desafio, porventura ainda mais sensível, é a possibilidade de fazer sentido a partir de um fragmento. A cultura digital exige que articulemos migalhas, que hierarquizemos uma miríade de partes desprovidas de um horizonte de integração evidente. Um novo primitivismo emerge: a leitura aos saltos, o ziguezague, a dispersão, a quebra da sequencialidade. A comunicação prossegue por entre lacunas de compreensão, o sentido sempre tangencial, sempre provisório.

Jacques Rancière, no seu 'La parole muette'/'O livro aos pedaços' (1998) lembra que um fragmento não é uma ruína. A migalha não é o bolo, mas também não é o seu fim. Talvez seja este o modus operandi do emoji: não um resto empobrecido da linguagem, mas sim uma unidade mínima na ecologia comunicacional contemporânea, onde o sentido se constrói por aproximação, por via de ecos, de justaposição.

Tuesday, January 06, 2026

Self-disclosure.


Artwork: Fractal
(source: unknown, 2025).






Ver, ser visto.




há um outro naquele que sou.

um pouco antes de mim,
este outro entre outros
dá-se a ver,


diz-me a alegria de um sim,
diz-me que não estou a sós.

It's an outlier!


Artwork: Menor
(source: unknown, 2025).





Não conformidade.






De acordo com Susan Sontag, o humano terá começado no momento em que o corpo - o corpo próprio, o corpo do outro - se tornou um problema.

Problema em sentido forte, exigente de interpretação, cuidado, decisão: antes deste limiar, o corpo não era ainda uma questão, constituindo apenas um acontecimento da natureza, tão próximo e evidente como o alternar da noite com o dia.

No horizonte pré-histórico, a ausência de ritos funerários estruturados reforça o sentido indicado: o corpo morto não convocava ainda uma economia simbólica, não exigia escolhas, não instaurava dilemas. A morte era um facto, não um acontecimento carente de mediação.

Maurice Merleau-Ponty ajuda a aprofundar a compreensão desta mudança cultural, ao sugerir que é pela vulnerabilidade do corpo que o mundo se acende, definindo-se não como um objecto entre objectos, mas sim enquanto condição de possibilidade de se ser tocado pelos outros, pelo mundo.

A noção de um corpo digno define, nestes termos, uma conquista recente na história da cultura humana. A dignidade do corpo não deriva da sua excepcionalidade, mas sim da sua exposição ao mundo, da possibilidade de ser tocado, ferido, de com ou a partir dele se poder fundar o comum. E é desta possibilidade, tão relevante quanto frágil, que decorre, inciso, um sentido de dignidade: não como tremor ou acidente, mas sim como lugar de fundamento.

Possivelmente atendendo ao exposto, a agência funerária servilusa informou, em comunicado recente, terem sido observadas 'zero não conformidades' em cinco normas que certificam a 'excelência' da sua actividade, plasmada em serviços como 'chamadas de conforto', 'in arboriam' (uma árvore por evento fúnebre) ou a transmissão online de um funeral. 


No ano de 2025, a agência servilusa realizou mais de 6800 funerais e 8800 cremações, um serviço em crescendo, é indicado, para benefício e alívio dos cemitérios. A agência opera diferentes centros funerários a nível nacional: em 2024, anunciou a construção do futuro centro funerário da maia, com projecto de arquitectura de souto de moura.

No momento do anúncio, foram indicadas como distintivas, a existência de tarifas competitivas e a capacidade de concretização de 800 cremações por ano.

Saturday, December 06, 2025

It's an outlier!


Artwork: KLF_what time is love (Starjammers, 2025).







PCP.



o mar,
sempre o mar,

operário da distância.

Monday, November 10, 2025

It's an outlier!

Latifúndio de seu natural.






a eternidade 
dura muito tempo:





augúrio

que favorece
os acontecimentos

e o inevitável.

Friday, November 07, 2025

Palavras de Cotrim.

Defesa nacional.






duzentos
trezentos
inimigos:

uns à mesa
outros à porta,

esquecidos 
no pequeno
ar da boca:


um frio de uvas
que garante tropas.

Tuesday, October 28, 2025

Palavras de Cotrim.

Negociação (uma definição breve).





fazer um
com o outro,


tomar
a osmose
como
propícia.

Monday, October 27, 2025

It's an outlier!

Progenitura (três sequências ancestrais).








(primeira)


antónio maria
   antónio pedro




(segunda)


antónio
    antónio pedro
        antónio pedro maria
             maria antónio pedro




(terceira)


antónio

antónio
antónio pedro

antónio
antónio pedro
antónio pedro maria

antónio

antónio
antónio maria

antónio
antónio maria
antónio maria pedro









Friday, October 17, 2025

Self-disclosure.

 




Artwork:
Post-cogito (sujeito do conhecimento sujeito ao conhecimento) 

(Starjammers, 2025, Série _Eu hei-de encontrar o real_)








Valorizar o defeito.



a perfeição melhora se incluir um erro.

a fissura, o defeito, o erro
(um dente torto, por exemplo),
na sua graça,
permite uma ligação,
o estabelecimento de um vínculo.

a perfeição,
ao invés,
na sua perenidade imperecível,
é-nos arredia:


não pede ajuda,
não precisa de nós,
não vem em nosso auxílio.

Palavras de Cotrim.

Design.




termo que designa hoje,
em português,
a tarefa de um debuxador:

depurar,
decantar o supérfluo,

articulando forma e função

em prol de um signo,
da projecção de um desígnio.