Tuesday, July 28, 2009

It`s a outlier!

Contribuinte.

Quim,

Compra água
e compra pão
e manteiga para o aburguesar.

Compra
Verduras
Entrecosto
Iogurtes
e paga a prestação do seguro
que não sabes que existe.
Atesta o carro de gasóleo
e atesta-te de vinho.

Compra roupa
para ti
sem a experimentar.
Tenta que fique curta,
para novamente a teres que comprar.
Vai ao mecânico
mesmo que não precises
e ao dentista
sem previdência.

As pequenas empresas, deves sabê-lo,
também estão a precisar de ti.

Do grossista
traz caixas largas e fundas
de natas
e
de cremes,
para o rosto
e de marisco.

Ao deitar
esquece-te de tirar as botas
para que tenhas de ir à lavandaria
pôr os lençóis a lavar.
Pois, não compraste detergente.
Compra fósforo para animar a memória.
E compra uma máquina que lave a roupa, já agora.

Bravo, Quim,
te digo agora,
a curva de Gauss não engana,
és um senhor poupado de classe média,
que está a cumprir o seu dever.

Por ti, a crise estará quase a passar.
De ti, depois alguém irá cuidar.

Sunday, July 26, 2009

Palavras de Cotrim

Vontade.

Duas vontades, a falta-de-vontade e a cheia-de-vontade, encontram-se fortuitamente na rua.
A cheia-de-vontade, reluzente, interroga a falta-de-vontade:

- Então, como te deixaste ficar assim?

- Sabes, eu já fui como tu, mas o excesso fatigou-me - respondeu prontamente a falta-de-vontade.

- Como assim? - indagou a cheia-de-vontade.

- O excesso, o fastio que vem da vontade incessante, que não sofre interrupção.

- Por acaso, já me tinha apercebido disso, e agora que me lembro,
parece-me que me está a faltar a vontade... - lamentou a cheia-de-vontade.

- Não te preocupes, cheia-de-vontade, as vontades vão e vêem... - arguiu a falta-de-vontade.

Moral da história: quando duas vontades se encontram, alguma coisa vai por certo suceder.

It`s a outlier!

Coalho e pretensão de singularidade.

José,

Um
Ser único
e particular
singular
a cultivar
a cativar
massa anónima
e obediente,
ausente
mas carente
de uma figura paternal.

José:
após o parêntesis estival,
Um pouco mais de engodo
de prosápia
de azul regimental.

José,
outra prosódia
ideologia rasurada
e um pouco mais de fado,
aí assim te erguerás
desse fundo,
Porque à tona sedimentas
como leite coalhado.

Wednesday, July 22, 2009

Palavras de Cotrim

Arriscar.

A procura de equilíbrio seria mais fácil, sem dúvida, se o trabalho fosse efectivamente algo alheio à vida pessoal. Contudo, para a maioria dos indivíduos, se a realização vem através do mundo, é o trabalho que os torna sujeitos-protagonistas de acção social.
Num cenário feito de futuros tendencialmente incertos, este é um exercício exigente. Um exemplo é, por exemplo, a cultura vigente de glorificação do risco. No mundo actual, a estabilidade é quase um sinónimo de morte, e o destino importa menos que o acto de partir.
Como observa Richard Sennett, profeta contemporâneo da agonia das estruturas sociais, o risco é um teste de carácter: o mais importante é fazer o esforço, arriscar, mesmo se o indivíduo souber que está destinado ao fracasso.

Self-disclosure

Coador.

Aníbal
era senhor feito de hélio:
outrora regente
e depois assistente,
era também parente
e isso fê-lo presidente.

Aníbal
alpinista social
dominava uma verdade unívoca:
Um comboio que salta dos carris
Não chega ao apeadeiro.

Aníbal
senhor da influência
certo dia
após indevido alvitre
Não chegou ao apeadeiro.

Aníbal
senhor da ferrovia
vive agora numa zona cinzenta
região de renda controlada.

Num longínquo tempo passado,
era senhor feito de hélio,
decisor do preto ou branco,
vigilante da inconsistência
que decantava,em dicotomias,
o quotidiano.

Aníbal
senhor presidente
subia, subia
sem parar.
certo dia
o crivo inequívoco claudicou
e um alvitre ficou por coar.

Aníbal
senhor do hélio
presidente:
- não basta ser parente
há que ser previdente,
e usar um coador
do preto ou branco
homologado
que garanta uso reiterado
sem nunca falhar.

Palavras de Cotrim



Glícidos
.


Ele
que não era ronaldo
empolava,
com a discrição anónima
de quem nada espera do futuro,

pequenos feitos
pequenas histórias
com o seu eterno olhar de hemiciclo.

Ele
que não era ronaldo
Tinha, ainda assim, um velho desejo de
encontrar quem lhe validasse
parcas verdades de algibeira.

De vez em vez,
em entregas ao exagero,
- próprias da saúde que se tem -
levava a vaidade a passear
e comia grelos,
como sua mãe muito lhe tinha aconselhado.

Em instantes de comoção comunista
embevecia-se
e não resistia
a comer também batatas e grão,
pois não era sectário,
como sua mãe muito lhe tinha aconselhado.

Por vezes,
em assomos de clarividência,
a ausência de uma ideia de futuro
lembrava-o de que
não era ronaldo
e que comia grelos.

Pensou em empolar
pequenos feitos
pequenos histórias
dos seus prazeres verticais
mitocondriais
feitos de candura metabólica, grelos e glícidos.

Ele
que perseguia conselhos
e verdades de algibeira
poderia
não ser ronaldo
mas sabia, certamente, o que eram glícidos.

Wednesday, July 08, 2009

Self-disclosure


Narcolepsia.

Hoje mesmo,
Ao acordar
Mesmo antes do lavar
vou adjectivar
abstracções

para assim cunhar
um assinalável efeito
poético,
a alma funda,
o mar longínquo,
um ser singular,
o futuro incerto,
o tempo voraz,

assímptota imprevista
de uma voz circular.

Neste desígnio
de ontologia
serei, por momentos,
o Carlos do Carmo
do condomínio
a Sophia
na mercearia
plasmando noites infinitas
com coisas bonitas,

um imprevisto alquimista
aforista
argonauta do decassílabo

com um grande saco, porque não,
de alpista.

Tuesday, July 07, 2009

Self-disclosure


A couraça de Mesentério.

Porque se perdia facilmente
Mesentério ficava sempre à porta.
Não que as portas se importassem
mas,
na dúvida,
sempre lhe parecia mais certo assim.
Por vezes,
tudo se lhe afigurava singelo e particular,
como se os dias fossem nêsperas
no seu frágil epitélio,
hiato na alcatra
- apneia, por certo, ao deitar.

Talvez por isso,
o seu apego à distância
que o fazia ficar à porta.
Um travessão no seu transtorno
Pasmo no seu juízo
acerca de um útero indiviso,
tenro verniz
que , teimoso, não se deixava quebrar.

Que couraça é essa, Mesentério,
porquê esse irredutível mistério
serás, por certo, porteiro num ministério
para, nesse afã,
não deixares ninguém entrar.