O tempo, recurso escasso para o indivíduo sobre-estimulado.
Uma lista de afazeres, eventual panaceia para a escassez de tal recurso:
- Apreciar, quanto antes, "Paranoid park" de Gus Van Sant e o Kurt Russell de Tarantino em "Death proof".
- Dormir a sesta.
- Ler Hélder Macedo.
- Falar com palavrinhas.
- Traçar mais vezes a perna.
- Pensar que sim.
- Ir às sardinhas assadas.
- Dar abraços (a pessoas com caracóis).
- Rir mais (sorrir menos).
- Ler o dicionário.
- Fazer menos-de-conta.
- Experimentar os doze minutos de "Fourges et Sabres" do chileno Luciano, e pensar, em definitivo, que sim.
Elementos de cultura táctil. Procedimentos analíticos. Artefactos da vida mundana. A vida como arte de encontro. Da descoberta. Uma aprendizagem em redondilha maior. Um convite à partilha - com um grilo que tem fome de elefante.
Tuesday, June 05, 2007
Palavras de Cotrim
Identidade (ou sentido de si).
Durante o tempo de suas vidas, as pessoas são, no essencial, um caminho - a função e o produto de um caminho. Umas vezes, um caminho que é escolhido; as mais das vezes, um caminho atribuído. Durante a maior parte do tempo de suas vidas, as pessoas vivem anos sem morte, são o caminho que se afasta de si, porque só pretendem aquilo que não são: serem mais altos, rápidos e sagazes do que são; numa palavra, serem mais breves do que efectivamente são. Quando jovens, as pessoas pretendem ser tudo, de todas as maneiras; pretendem, em fulgor dionísiaco, ser horda e rebanho, desejando a vertigem, a viagem, o clamor. Visam a fusão com os outros e a completa dissolução no mundo. Quando em adultez - estando ainda por destilar o que é verdadeiramente encriptado por este vocábulo -, as pessoas são cronologia, são as manhãs e pretensa serenidade. De quando em vez, o indivíduo enquanto adulto experimenta ainda o apetite voraz das horas selvagens da juventude - o seu corpo persegue-o, então, por breves instantes, raptando o seu sentimento de si. Uma árvore instantânea. O indivíduo sente-se e reconhece-se ainda vivo, distraído que está do peso do fluir incessante da vida.
Durante o tempo de suas vidas, as pessoas são, no essencial, um caminho - a função e o produto de um caminho. Umas vezes, um caminho que é escolhido; as mais das vezes, um caminho atribuído. Durante a maior parte do tempo de suas vidas, as pessoas vivem anos sem morte, são o caminho que se afasta de si, porque só pretendem aquilo que não são: serem mais altos, rápidos e sagazes do que são; numa palavra, serem mais breves do que efectivamente são. Quando jovens, as pessoas pretendem ser tudo, de todas as maneiras; pretendem, em fulgor dionísiaco, ser horda e rebanho, desejando a vertigem, a viagem, o clamor. Visam a fusão com os outros e a completa dissolução no mundo. Quando em adultez - estando ainda por destilar o que é verdadeiramente encriptado por este vocábulo -, as pessoas são cronologia, são as manhãs e pretensa serenidade. De quando em vez, o indivíduo enquanto adulto experimenta ainda o apetite voraz das horas selvagens da juventude - o seu corpo persegue-o, então, por breves instantes, raptando o seu sentimento de si. Uma árvore instantânea. O indivíduo sente-se e reconhece-se ainda vivo, distraído que está do peso do fluir incessante da vida.
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