Wednesday, March 14, 2007

Self-disclosure


Da greve de um acontecimento.

De um rasgo inicial e irreflectido, do não saber aquilo que está a nascer, de o mundo todo querer e não haver meio de o reter. Niilismo amoral e sem réstea de desespero. Viver-se-á, quem sabe, o triunfo absoluto do simulacro, figura fundamental da sociedade-espectáculo. Às seis, todos se apressam, correndo para o seu covil de intimidade. Melhor, de autenticidade. Jantarão, certamente, com o casal amigo, expurgando, aí, entre vinho de boa casta e um distante ecoar floribélico, todo o "acne" que os atormenta. Em si, e no rosário dos outros. O êxtase como forma de domínio sobre um real "nulo", feito da greve dos acontecimentos.

De um rasgo inicial e irreflectido, do não saber aquilo que está a nascer, de o mundo todo querer e não haver meio de o reter, a história mal se vê, na bruma do tempo mingado que esta tem para acontecer.

Saturday, March 10, 2007

Tautologia no gira-discos:#012

"Is it Pop?"
Da substância e do apelo quase intemporal. Is this Pop?:
Voom:Voom - Sao Verought (Marcus Worgull version) (G-Stone Recordings promo)
Body Language vol. 4 by Dixon (Get Physical Recordings CD promo)
Agnes & Ripperton - Gardenlands EP (Sthlmaudio Recordings promo)
Telepopmusik - Love can damage your heart (Dennis Ferrer version) (Objectivity Records 03)
Dirt Crew - Deep (We are) (Dirt Crew Recordings 016)
40 Thieves - Point to the joint EP (Smash Hit Recordings 07)
Diskjokke - Heft & plunder EP (Kindisch Recordings 05)
V.A. - Grand Cru collection (Connaisseur Recordings LP 01)
John Daly - Sky dive (Plak Recordings 014)
Till von Sein & Aera - Deeds EP (Trenton Recordings 018)
Move D - Anne Will rmxs part II (Jackmate; Denis Kamirani; My My) (Liebe Detail Spezial 02)
Camille - La douleur (Henrik Schwarz version) (White label)
Greg Oreck - The line EP (Moodmusic Recordings 050)
V. A. - Electrounique Series (1-6)
Michal Ho - Cassecade EP (Junion Recordings 06)
V. A. - Delirious Grooves Series (1-5)

Palavras de Cotrim

Repasto.

O "estar à mesa" deve situar-se muito para além da refeição, e do elidir de urgências imediatas de alimentação. Quando se está à mesa, transcendem-se necessidades de nutrição, e celebra-se o facto de um conjunto de pessoas se dispôr à volta de um tampo de mesa, falando e interagindo de um modo que doutra forma não seria possível. Não é necessário que o repasto seja uma dádiva divina produzida pelo têmpero organoléptico dos seus constituintes;o repasto vale mais por ser um pretexto, um motivo para o encontro e o estacionamento temporário dos espíritos.

Monday, March 05, 2007

It´s a outlier!

"Escritor Alface":
É necessário ter saudades já!
Não obstante ser este o grito a empregar, todos os dias, sejam eles úteis ou sensivelmente menos fúteis, há que empregá-lo, neste momento, com maior veemência. João Alfacinha da Silva, Escritor Alface (como se transmutou, em página incerta de sua vida), abandonou, esta semana, a sua existência corpórea.
Escritor Alface deu vida a uma personagem contrastante, um exemplo quasi-perfeito de um "outlier". Definia-se como "o rapaz do trapézio voador", trajando camisas dois números acima do recomendável, e calças flácidas, propensas a um descair sistemático e automático. Frequentou Direito e Psicologia, onde conheceu diversos seminaristas (progressistas) que usavam sapatos muito grandes (segundo descrição do próprio).
Alface irrompeu no meio literário português em 1977 com Os Lusíadas (Assírio & Alvim), primeiro de uma trilogia que incluiu As Noites Brancas do Papa Negro (1982) e Beijinhos (1996), editados na Fenda. Co-assinados por Manuel Silva Ramos, estes livros, sempre escritos ao arrepio de qualquer lógica comercial, constituíram "uma espécie de meditação ficcional sobre Portugal (…) [escrita] ao nível de uma linha joyceana de trabalhar as palavras ao limite, quase na ordem da antileitura", segundo explicou Alface numa entrevista a Maria João Seixas.
Publicou também uma série de cinco livros juvenis, muito recomendáveis para a educação de jovens plebeus: "Um pai porreiro ganha muito dinheiro"; "Uma mãe porreira é prá vida inteira"; "Filhos assim dão cabo de mim"; "Avó, não pise o cocó"; "A prima fica por cima".
Outras referências e minudências poderiam ser mencionadas. Consideramos, contudo, que o mais importante é ler Escritor Alface, pois um escritor só morre, quando já ninguém o lê.