Thursday, January 25, 2007

Tautologia no gira-discos:#011

Um ritual de adivinhação e vontade de transcendência.
Da poesia, dizem hoje os poetas já não servir para nada. A escrita ficcionada segue o mesmo caminho. Longe vai a força de evangelho que levava a literatura em páginas de fogo, urgentes e necessárias como o pão que então escasseava. As pessoas são intrinsecamente boas, dizia-nos Rousseau - quando são colocadas em relação é que tudo se estraga. Agora, todos são globais, lealdades tecidas em relva incandescente; seus cintos dão a volta ao mundo e sobram ainda furos. Os livros são elemento decorativo de estantes, arranjos de ego e conversas de chá e café. Os poetas apodrecem, pois, de tédio e de silêncio.
Sobra por vezes a adivinhação diáfana de um prazer, tantas vezes volátil, feito da urgência do devir, e da tentativa de resgate de uma melodia:

Pantha du Prince - This bliss LP/CD (Dial Recordings / Hamburg: Long live Smallville`s cosy record shop!)
Mikdat & Afrilounge - Maria EP (Kassette Recordings promo /Berlin)
Daniela Stickroth - Chest in the attic versions pack (Meerestief Recordings 012)
Martin Landsky - Let me dance EP (Pokerflat Recordings 081)
Compuphonic - Les environs (Dirty Dancing Recordings 016 / Brussels)
Lee Jones & Prins Thomas - There comes a time EP (Aus Music Recordings promo)
Ripperton - A skilift upstairs the sleeping city (Systematic Recordings 032)
Lars Behrenroth - Organism (Liebe Detail Recordings 015)
Dinning Rooms - Free to grow (Quarion version) (Schema Recordings promo / Zurich)
Furry Phreaks - Travel all over the world (Jazzanova version) (Miso Recordings promo)




Tuesday, January 23, 2007

Palavras de Cotrim

Palavra.

A proximidade da palavra revela, por vezes, que por debaixo de sua singela roupagem, as suas costas são profundamente tortas.
A palavra, assim decifrada num palco feito de usura quotidiana, não se intimida, e oferece gentilmente a sua fragilidade - um interior habitado de memória e incontida intimidade.

A palavra é, como sempre foi, coreografia sempre refeita. Uma tecnologia mais-que-perfeita. Ou melhor, um corpo em plano inclinado para a direita.

Monday, January 22, 2007

Palavras de Cotrim

Mediação.

A mediação está, definitivamente, em crise.
Se todo o tempo é "real", não há figuras de interface entre o ser e o agir, não há espaço e lugar para o pensar.
O pensar é sempre uma distância, uma lentidão do tempo.
As instituições sociais cuja razão de existência pode ser encontrada no "meio" - partidos, sindicatos, parlamentos, associações, escolas, famílias, igrejas, academias - perdem poder de modo acelerado, sendo curto-circuitadas pela aceleração vertiginosa da vivência da passagem do tempo.
Nenhum de nós tem mão no tempo.

No meio, parece-nos, pois, que nos dias de hoje, dificilmente se encontra a virtude.

Monday, January 15, 2007

Bibliofilias

De um dos livros de poesia experimental do catarinense Tchello d`Barros, "Olho nu" (1996, Editora Letras Contemporâneas, Florianópolis), um par de poemínimos, exemplos de uma "joie de vivre" em linha recta:
"Tem
dia
que
tem
sol
tem
dia
que
tem
lua
tem
dia
que
ela
diz
não
tem
dia
que
vem
nua."
"Mais
luz
do
que
o
sol
do
meu
céu

o
som
do
seu
sim
."

Self-disclosure

A necessidade de pensar além do imediato.

Da sujeição à aritmética,
pragmatismo e eficiência.
Tecnociência - "ersatz" da graça divina,
exemplo de beatífica proveniência.
Homogeneização do quotidiano.
Estética peripatética.
Uma ética da finalidade, da consequência.
O reinado do senso comum.
De modismos, o nudismo da inteligência.
Há que ir além do imediato,
fazer um esforço para decifrar a consciência.

It`s a outlier!

Um país que assim "anda à mama".

À mama está o futebolista avançado à espera de um passe, por vezes até ao envelhecimento precoce, sem correr, pensar ou sequer, por vezes, se manifestar; à mama está um país, desorientado em linhas avançadas, à espera de exógenos e sebastiânicos passes de mágica.
A vida devia ser plana, sem colinas ou insondáveis contratempos, falecimentos por deficiente usura de procedimentos, assim acha o país feito de avançados saudosos do órgão glandular que os alimentou.

Wednesday, January 03, 2007

Bibliofilias (seguidas de tautologia no gira-discos)



A propósito da forma como os indivíduos concretizam a gestão do que lhes acontece, em tempo de tecnocracias supérfluas e sobredeterminismos económico, duas tisanas ao deitar. A primeira lê-se:

"No mundo, o que mais me surpreende são os homens.
Perdem a saúde para juntar dinheiro; depois, perdem o dinheiro para recuperar a saúde.
Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente de tal forma, que acabam por não viver nem o presente nem o futuro.
E vivem como se nunca fossem morrer, e morrem como se nunca tivessem vivido."
(Dalai Lama, s/d)

A segunda acompanha a primeira, ao longo de 12 polegadas de vertigem poética contida num novo pulsar electrónico:

Ripperton - Farra (Connaisseur Recordings #011)
Lopazz - Share my rhythm EP (Get Physical Recordings #064)
DJ T (Thomas Köch) - Lucky bastard EP (Get Physical Recordings #065)
Autotune - Influensa EP (Fumalab Recordings #01)
Matthias Tanzmann - Kutaisi (Moon Harbour sampler promo)
Daniel Stefanik & Tasdani - Borderline EP (Cargo Edition Recordings #03)
Matthias Tanzmann - Nip slip EP (Moon Harbour Recordings #029)
Lawrence - Friday`s child EP (Mule Electronic Recordings #026)
Jambi - Lost EP (Horizontal Recordings #04)
St. Sebastian - Genetics EP (Dessous Recordings #066)
Partial Arts - Trauermusik (Kompakt Recordings #149) [Weah! This is a smoking tune!]
B-Voice + Khz - Outhood EP (Pro-tez Recordings #04)
Mari Boine - Vuoi vuoi me (Henrik Schwarz version) (Universal Music promo)

Self-disclosure

Um facto encontra-se, para nós, agora, bem presente: o trânsito dos anos civis é um momento de ilusão convincente.

Enfeitadas com os tecidos da época, que deverão evidenciar a sua origem e relevância social, as pessoas, de chapéu cónico e muito brilhante, aguardam, com expectativa e expressão baça, o embalsamar e a derrota do ano velho. Comunicam semelhante esperança e desejos avulsos a outros, certamente seus pretensos pares, usando as suas máquinas de produção automática de conversa. Em Portugal, a esperança foi comunicada 473 milhões de vezes na passada quinzena, para gáudio de quem opera a comunicação portátil e a fabricação automática de ditos vazios e pretensamente espirituosos.
Trata-se de farrapos de conversa, que significam pouco mais que nada, pois é talvez isso, que as pessoas têm para dizer, cada vez mais, umas às outras.

Que pretendem as pessoas, assim deste jeito? Nova quitina, a aparência de um exo-esqueleto refeito, pensado e definido a preceito.