Elementos de cultura táctil. Procedimentos analíticos. Artefactos da vida mundana. A vida como arte de encontro. Da descoberta. Uma aprendizagem em redondilha maior. Um convite à partilha - com um grilo que tem fome de elefante.
Sunday, November 26, 2006
Bibliofilias
O poeta e pintor Mário Cesariny de Vasconcelos morreu hoje de madrugada em sua casa, em Lisboa, cerca das 05h30, aos 83 anos.
A fazer-se a póstuma justiça necrófila de sempre, verter-se-á farta e elogiosa prosa acerca das virtudes imputáveis ao autor.
A glorificação de sempre; sobre as sessões para que o convidavam e em que o aplaudiam, o poeta comentava: "Estou num pedestal muito alto, batem palmas e depois deixam-me ir sozinho para casa. Isto é a glória literária à portuguesa".
"Gostava de ter daquelas mortes boas, em que uma pessoa se deita para dormir e nunca mais acorda", afirmou o artista em "Autografia".
Esperamos, então, que este seu desejo tenha sido concretizado.
"Ama como a estrada começa..."- assim, tal como nos foi legado pelo poeta Cesariny.
Friday, November 24, 2006
Self-disclosure
Gostamos, simplesmente, de observar os rituais individuais que higienizam e mistificam a vida quotidiana. Contudo, devemos referir que vemos cada vez menos e pior.
Há cada vez menos lugares pessoais de interesse, a nosso ver. A pasteurização dos hábitos e dos estilos de vida explica grande parte deste efeito.
Ainda assim, num cenário deprimido para quem se propõe observar, há condutas que detém algum potencial de galvanização da cloaca e demais vísceras.
Destas, deixamos dois exemplos:
O hábito, pelo que observamos em diversos locais de usufruto colectivo de temperos, sopas e outras quimeras gastronómicas, das pessoas fazerem repousar os seus telemóveis sobre as mesas destinadas ao convívio e à fruição do repasto, deixando-os, reluzentes, bem à vista de todos os transeuntes. Trata-se, obviamente, de gente relevantíssima que precisa de ser contactada a qualquer instante. Ou, pelo menos, aparenta apreciar que tal acontecesse.
Outra conduta que muito nos apraz contemplar, diz respeito a todos aqueles que, munidos de jaquetas, camisas de folhos e gravatas regimentais, participam amiúde em iniciativas de comunicação, divulgação ou formação. Apresentam-se com um pequeno bloco de notas (formato A5, no máximo) no qual rabiscam meia dúzia de vocábulos, quase sempre a contra-gosto. O fastio deriva, certamente, de se tratar de gente muito culta e informada, que detém um grande acervo de conhecimento em suas circunvoluções neuronais, cuja incompletude é prontamente colmatada com a manuscrição daquele punhado de conceitos. São estes os arautos das novas economias baseadas no conhecimento, e nos fundos estruturais dos compadres da União Europeia.
Continua, portanto, a valer a pena, efectuar um esforço de observação no tempo que hoje se consome.
Bibliofilias
"As bombas matam
porque sofrem duma espécie de doença incurável
que as faz ganhar saúde quando as largam no ar
uma vez expostas à lei da gravidade
e por ela arrastadas para o mundo humano
as bombas precisam de explodir
tal como uma criança precisa de urinar
até fazerem um lugar onde fiquem
que se não mova que seja
como um direito a isso
ao pé do deus adulto que lhes deu comida".
(Mário Cesariny, Urgente, s/d)
Monday, November 20, 2006
Tautologia no gira-discos: #09
A tautologia de hoje não carece de comentário ou enquadramento particular.
A coordenada rítmica é translúcida, e por tal, explica-se por si própria.
O momento é de simples fruição hedónica:
Solomun & Gebr. Ton - Tagesschau EP (Diynamic Recordings #04)
Jennifer Cardini & Shonky - August in Paris EP (Mobilee Recordings #019)
Autotune - Dirty (Woody version) (Fumakilla Recordings #021)
Gavin Herlihy & Craig Torrance - So that`s what happens EP (Moodmusic Recordings #047)
Barem - Nylon EP (Pariter Recordings #02)
Ambivalent - Roomies EP (Clink Recordings #05)
The Mole - Steady down (Wagon Repair Recordings #020)
Bibliofilias
De Pessoa, uma tisana ao deitar:
"O meu passado é tudo quanto não consegui ser..."
(Fernando Pessoa, s/d)
Sunday, November 12, 2006
Palavras de Cotrim
Até ao início da década, a ansiedade, entendida enquanto condição, estado ou resposta, do espírito e das vísceras, a uma disposição indutora de perturbação, não configurava um quadro nosográfico com existência legimitada.
Até, então, falava de um problema de nervos, que se naturalizava amiúde no meio de um esforçado suspiro: "Isto é assim: É a vida".
Neste momento, a ansiedade é uma trademark da contemporaneidade, quem sabe subdiagnosticada. À valorização do que se apresenta, possui e ostenta com espectacularidade - o êxito, o dinheiro, a beleza, a jovialidade, a assertividade, a clareza e o pragmatismo das ideias -, associa-se a mais profunda ausência de sossego. Não um sossego de propósito hedónico. Simplesmente, sossego.
Convém nunca esquecer o dito completo de Ortega y Gasset:
"Eu sou eu, e as minhas circunstâncias".
Sunday, November 05, 2006
Palavras de Cotrim
Se existe um reduto da espiritualidade humana, acreditamos que ele reside na conversa.
A conversa é um interlúdio que se tem, do qual se usufrui, havendo, inclusivé, quem dê muita conversa. A conversa é, portanto, também um bem que se troca. Nada de mais expectável, em tempo histórico de mercadorização da experiência humana. Neste contexto, há quem advoge as propriedades terapêuticas de uma narrativa, de um transacção dialógica, de uma recomposição do nexo e do significado de uma vivência pessoal.
E há também quem inverta o sentido primordial do conceito, desconversando.
Mais de meio século depois da publicação de Le viol des foules par la propagande politique, Tchakhotine é parte relevante do inconsciente constituinte de uma certa cultura de comunicação reificada no torrão nacional.
A desconversa é equipamento fundamental, ao que parece, dos novos gladiadores da comunicação de consumo rápido: mais do que discutir a substância das ideias do adversário, deve partir-se, com urgência, para a sua desconsideração, tentando, deste modo, a sua menorização e desautorização. O império do fait-divers adquire aqui, novo cabimento aparentemente impoluto.
Como advoga Stephen Miller, na publicação recente "Conversation - History of a declining art", a conversa e o seu bom intérprete definem uma arte e um ofício em declínio. Como o autor formula, "in popular culture rude people are celebrated as authentic, and those skilled at the art of conversation are often depicted as superficial or effeminate or dishonest (or all three)."
Não sabendo, no momento presente, qual o lugar concreto de celebração, manifestação e residência da autenticidade, continuamos, contudo, a tentar retirar uma gratificação quase ilimitada de um bom momento de conversa.
Thursday, November 02, 2006
Palavras de Cotrim
Bibliofilias
"Cão passageiro, cão estrito,
It`s a outlier!
Quem assim descrevia a modesta conduta do rei de França era o enviado da sua apavorada sogra, admitido ao quarto e à cópula com a estrita missão de verificar as culpas.
Sete anos de infertilidade punham a improvável aliança entre a Áustria e a França em risco.
O relato não figura, contudo, na nova película de Sofia Coppola, um video-clip de largo espectro, (finalmente) em apresentação nas telas nacionais.
Self-disclosure
O esvaziamento da alegoria.
A redução da substância.
Melancolia.
Uma existência difusa.
Polifonia.
Redenção-revelação. O que poderia ser complexo, torna-se inutilmente complicado.
A redução: uma solução.
O recorte de novos corpos estilísticos, que derivam, sempre expressivos, jogando com os horizontes de expectativa. Um exercício de aglomeração de tensão. Exaltação. Um jogo de aliciação.
O prazer está no desvio e na sinuosidade inesperada.
Redenção-revelação. O que poderia ser complexo, afigura-se, afinal, domesticado.

